São José do Rio Pardo - sexta, 24 de novembro de 2017
"Eu não tenho vocação para a espada, a arma que eu sei manejar é a pena."
Noticias Artigos

Postado em: 18/02/2016

Aquecimento Global : Euclides já sabia - Rosângela A. Gomes Pereira


AQUECIMENTO GLOBAL: EUCLIDES JÁ SABIA       AQUECIMENTO GLOBAL: EUCLIDES JÁ SABIA   Rosângela Aparecida Gomes Pereira   Especialista em História – Desenvolvimento do Capitalismo no Brasil Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Pardo rosangelaagpereira@ig.com.br   RESUMO: Considerando as intensas e devastadoras mudanças no clima mundial, e tendo Euclides da Cunha como precursor da ecologia e grande defensor da natureza, e sendo, muito provavelmente, um dos primeiros escritores a discorrer acerca das catástrofes naturais e de como a natureza é tratada pelo ser humano,este artigo tem como objetivo promover uma reflexão acerca do posicionamento do referido escritor que, já naquela época, mostrava-se contrário à devastação do meio ambiente gerada pelas queimadas que o colonizador aprendeu com os indígenas, assumindo, dessa forma, o papel de “fazedor de desertos”, concluindo que ohomem, tendo a capacidade de criar desertos, poderia, também, eliminá-los, como forma de corrigir o passado.   Palavras-chave: Euclides da Cunha; Meio Ambiente; Tapuia.   Diariamente somos informados, pelos meios de comunicação, das intensas, devastadoras e rápidas mudanças que estão ocorrendo no clima mundial. Vemos a Europa ser castigada por fortes ondas de calor, ciclones atingirem a costa sul do Brasil, desertos sendo aumentados a cada dia, furacões causando mortes e destruição nas mais diversas localidades da Terra e o desgelo das calotas polares, que tanto contribui para o aumento e o avanço dos oceanos.  Questionando sobre a origem de tais fenômenos, encontramos a resposta unânime dos cientistas: o aquecimento global.  Segundo eles, este aquecimento tem ocorrido devido ao aumento da emissão de gases poluentes, sobretudo, aqueles derivados da queima de combustíveis fósseis (gasolina, diesel, etc.), na atmosfera. Além disso, constituindo-se um fenômeno climático de larga extensão, também contribuem para esse processo o desmatamento e a queimada de florestas e matas, aumentando a temperatura média superficial global. ma análise das obras de Euclides da Cunha revela que ele foi precursor da ecologia e grande defensor da natureza. Euclides da Cunha definiu-se como tapuia (índio do sertão), confirmando a raiz indígena da raça brasileira, e foi, muito provavelmente, um dos primeiros escritores a discorrer acerca das catástrofes naturais e de como a natureza é tratada pelo ser humano. É importante destacar que, ainda no século XVIII, tapuia era considerado o indígena de um grupo que não integrava às comunidades portuguesas e também não contemplava os hábitos de vida tupi-guarani. Na verdade, os tapuias apresentavam um modo de vida essencialmente tradicional, apesar de não rejeitarem a alfabetização, a assistência médica e social do governo imperial, bem como utensílios e técnicas que lhes fossem necessárias. O escritor, incomodando-se com as agitações urbanas que ocorriam desde a proclamação da República, manifestou desejo de viver na roça, numa cidade pequena, com um círculo pequeno de amigos, estudando, trabalhando e sendo mais útil à terra. Para ele, tratava-se de uma aspiração difícil de ser realizada. Contudo, parece ter sido o único ideal que se concretizou exatamente como imaginou, isto porque ao viver três anos em São José do Rio Pardo, Euclides encontrou um circulo pequeno de amigos, que o ajudou a estudar, fornecendo-lhes livros e anotações, que foram fundamentais para a elaboração do livro “Os Sertões”, que se tornou uma das bases da cultura nacional, somado, evidentemente, à utilidade da ponte que reconstruiu e que se tornou o símbolo da cidade.                    Rosso (2009), ao discorrer sobre a ecopolítica de Euclides da Cunha, afirma que ele, dentro de uma ótica fundamentalmente voltada par o interior do país, foi certamente o primeiro intelectual brasileiro a cultivar e externar preocupações com o meio ambiente fazendo, inclusive, da ecologia um tema político, de propostas de ação política.                    Frente à sua firme formação, é sob a perspectiva positivista que Euclides registra, observa e critica os choques entre uma civilização com a natureza do país: “críticas essencialmente liberais, que essencialmente lançavam as bases, inéditas no país, avançadas ao extremo em seu tempo e antecipadoras dos conceitos e elementos do desenvolvimento sustentável, na permanente preocupação euclidiana no conciliar progresso com a preservação ambiental” (ROSSO, 2009).  Já aos dezoito anos de idade, mais precisamente no ano de 1884, Euclides da Cunha, como relata Rosso (2009), escrevia um protesto em seu primeiro artigo “Em viagem”, publicado em um pequeno jornal dos alunos do Colégio Aquino, no Rio de Janeiro, revelando seu interesse e sua admiração pela natureza, o que permearia toda sua obra. Nesse artigo, Euclides descrevia as impressões e maravilhas do cenário natural que se apresentavam durante viagem de bonde para o colégio onde estudava. Nele, o escritor discorria sobre as matas e as florestas da cidade do Rio de Janeiro, e apontava suas críticas ao progresso representado pela estrada de ferro que degradava a natureza. Em suas palavras:   Ah! Tachem-me muito embora de antiprogressista e anticivilizador, mas clamarei sempre e sempre: - o progresso envelhece a natureza, cada linha do trem de ferro é uma ruga e longe não vem o tempo em que ela, sem seiva, minada, morrerá! E a humanidade, não será dos céus que há de partir o grande "Basta" (botem b grande) que ponha fim a essa comédia lacrimosa. [...] Tudo isto me revolta, me revolta vendo a cidade dominar a floresta, a sarjeta dominar a flor! (CUNHA apud ROSSO, 2009, p. 32).                 O interesse pela natureza ficou mais intenso a partir de sua mudança para a cidade de Campanha, no interior de Minas Gerais. Nesta fase, já Engenheiro Militar e Oficial do Exército, Euclides observou as características físicas e geográficas da cidade e região e estudou geologia, lendo a obra de Emmanuel Liais (político, botânico, astrônomo e exploradorfrancês que permaneceu muitos anos no Brasil), citado, posteriormente, em “Os Sertões” (VENTURA, 1998).             É nesse contexto que Euclides dirigia-se à paisagem, à natureza, como modo de superar a desilusão com a República e o Exército.             Em suas obras, Euclides focou duas regiões consideradas pouco propícias ao homem: o sertão baiano e a selva amazônica.             No tocante à Amazônia, os textos de Euclides continham denúncias sociais das condições de vida dos migrantes nordestinos nos seringais. Nesses textos, segundo Guillen (2000), parte-se do binômio natureza e cultura para esboçar a forma que, na visão de Euclides, tem a vida social na floresta, principalmente a vida no seringal.E assim, oscilando entre os encantos que a natureza oferece e o horror das sociedades que nelas se fixam, Euclides acredita que o homem se animaliza, não conseguindo produzir uma cultura que se imponha ao ambiente (GUILLEN, 2000).              Euclides foi enviado a Canudos como correspondente de guerra em 1897 e elaborou diversas reportagens para o jornal “O Estado de São Paulo”, publicando, em 1902, “Os Sertões” criticando a violência da campanha militar.             Tanto sobre o sertão baiano como sobre a selva amazônica, Euclides descreveu uma paisagem maravilhosa, expressando uma mistura de terror e êxtase, desilusão e deslumbramento (VENTURA, 1998).              Em “Os Sertões”, o autor descreveu a região de Canudos, novale do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia, numa concepção naturalista, alicerçada no historiador francêsHippolyte Taine que, de acordo com Ventura (1998), lhe forneceu a base científica para buscar correspondências poéticas entre os fatos narrados e a paisagem que o cercava.              Assim, considerando as ideias de Taine, para quem a história de um povo é determinada por três fatores: o meio, ou o ambiente físico e geográfico; a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento, resultante das duas primeiras causas, Euclides dividiu “Os Sertões” em três partes: “A terra”, “O Homem” e “A luta”.              Em “A terra”, o escritor focalizou a geologia e a geografia do sertão baiano, não deixando de escrever sobre o clima, a vegetação e sobre o sério problema das secas na região.              Já em “O homem”, Euclides abordou as origens do homem americano, a formação racial do sertanejo e os malefícios da mestiçagem, vendo a guerra como resultante do choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja.             Por fim, em “A luta”, Euclides critica o Exército e o governo pela destruição da comunidade e pela degola dos prisioneiros, realizadas em nome da consolidação da ordem republicana.             Já naquela época Euclides da Cunha mostrava-se contrário à devastação do meio ambiente gerada pelas queimadas que o colonizador aprendeu com os indígenas, assumindo, dessa forma, o papel de “fazedor de desertos”.                    No conceito do autor: A natureza não cria normalmente os desertos. Combate-os, repulsa-os. Desdobram-se, lacunas inexplicáveis, às vezes sob as linhas astronômicas definidoras da exuberância máxima da vida. Expressos no tipo clássico do Saara – que é um termo genérico da região maninha dilatada do Atlântico ao Índico, entrando pelo Egito e pela Síria, assumindo todos os aspectos da enorme depressão africana ao plateau arábico ardentíssimo de Nedjed e avançando daí para as areias dosbejabans, na Pérsia – são tão ilógicos que o maior dos naturalistas lobrigou a gênese daquele na ação tumultuária de um cataclismo, uma irrupção do Atlântico, precipitando-se, águas revoltas, num irresistível remoinhar de correntes, sobre o norte da África e desnudando-a furiosamente CUNHA, 1979, p. 46).               Para Euclides, o homem, tendo a capacidade de criar desertos, poderia, também, eliminá-los, como forma de corrigir o passado.   Referências: CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de canudos. São Paulo: Abril Cultural, 1979. GUILLEN, Isabel Cristina Martins. Euclides da Cunha para se pensar Amazônia. Artigo publicado em 2000. Disponível em <http://www.comciencia.br/reportagens/amazonia/amaz9.htm>. Acesso em 08 Mar. 2010. ROSSO, Mauro. Escritos de Euclides da Cunha: política, ecopolítica e etnopolítica. Rio de Janeiro: Loyola, 2009. VENTURA, Roberto. Visões do deserto: selva e sertão em Euclides da Cunha. In: Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998.        

Apoio

Apoios
Livro

Livro Deixe seu recado em nosso Livro de Visitas.

Clique aqui e assine já

Endereço

Rua Marechal Floriano, 105 - Centro
São José do Rio Pardo - SP
Telefone: (19) 3681 6424
casa.euclidiana@bol.com.br

Horário de Funcionamento
Segunda a sexta: 08h às 17h
bg