São José do Rio Pardo - quinta, 30 de março de 2017
"Esse país ainda não teve um interprete, eu posso ser o interprete que esse país ainda não teve."
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Postado em: 18/02/2016

A força que nasce do sertão - Rodolfo Tiengo Fernandes


A força que nasce do sertão Não é por acaso que o sertão tenha se transformado, mais do que antes, na temática central de uma Semana Euclidiana e, além disso, tenha dado às mentes e aos corações de uma variedade de escritores brasileiros a chama precisa, a inspiração, o estalo necessário e decisivo para a arte da escrita. A nação brasileira é o resultado de séculos de expropriação cultural e psicológica, em nome da dominação de classes dominantes européias. Com o tempo, as dores ressentidas dos nativos e dos africanos — que abandonaram à força suas raízes preciosas — se dissolveram de modo sui generis, em meio à hipocrisia dos governantes e da elite “brasileira” que via equivocadamente no além-mar o belo, o bom para ser copiado. Enquanto o processo de formação da identidade nacional era desenrolado, enquanto o litoral era o centro das atenções e tentava se equiparar a Paris (França), tendo-a como modelo de civilização, algo muito sério acontecia, longe dos olhos dos governantes, jornalistas e escritores em geral. Uma terra desconhecida, no imenso interior do Brasil, tinha galgado sua formação original, com pessoas diferentes, com um povo forte e oprimido, fruto da miscigenação, da opressão, das angústias dessa vida. Torna-se notável Euclides da Cunha por descrever, com uma exatidão contraditória, o sertanejo, o cidadão esquecido pela bestialização daquela elite litorânea. No início do século 20, o engenheiro, o retórico escritor, marcava o prólogo de uma classe de pessoas que, por intermédio das palavras, tinha como causa maior compreender do que era feito aquele povo interiorano, principalmente do Nordeste brasileiro; um conglomerado de esperanças, em meio à seca, “nonada”. Euclides da Cunha, Graça Aranha, Afonso Arynos, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, entre outros. Impulsionados quiçá pela revolta contra o descaso, motivados pela beleza transcendental do povo oprimido, deram vida à literatura social. E cada um ao seu modo soube transferir para o papel um mundo novo, um lugar que de fato era digno de ser chamado Brasil; local livre do forjado ideal de “sociedade plenamente civilizada”, como se apregoava no envernizado Rio de Janeiro. A milhas da Rua do Ouvidor, distante daquele falso exemplo de cultura, havia uma população esquecida que, por ter se adaptado com bravura às condições climáticas, econômicas e sociais a que estava submetida, criou com singeleza a sua identidade, o seu jeito de enfrentar as vicissitudes. O livro “Os Sertões”, que a princípio partiu do racionalismo predominante na época em que estava em voga o positivismo e a idéia de que a mistura de raças era prejudicial, representa uma gradativa descoberta de Euclides da Cunha com relação ao sertão. Ao se debruçar sobre as peculiaridades do arraial de Canudos e das cercanias, ele percebeu sobremaneira o valor daquela gente. Diferencia-se Euclides de outros literatos por precisar de um fato real, a Guerra de Canudos, para colocar em pauta sua denúncia social. Décadas depois, João Guimarães Rosa, singularmente, demonstra que o sertanejo é o cidadão do cosmo, que simboliza as agruras mais profundas do ser humano. Sua obra, “Grande Sertão Veredas”, no entanto, tem implícita no seu cunho literário a preocupação com as questões sociais, embora menos contundente que em Euclides da Cunha. Graciliano Ramos engendrou uma família retirante para descrever em “Vidas Secas” o sofrimento, ainda que sem pretensão maior de fomentar mudanças. Verdade e verossimilhança, dentro da temática da seca, dão forma a uma única consternação. Nas entrelinhas acabam surtindo o mesmo efeito de revolta e de conscientização nos leitores atentos, naqueles que sonham com dias melhores para nosso país. Afinal, fechar os olhos para o sertão é o mesmo que virar as costas para o Brasil e ao mesmo tempo para uma das mais raras oportunidades de se entender a própria vida. É esquecer quem somos, é abrir mão do precioso direito que temos de sermos brasileiros. Pois o sertão, nas palavras de Guimarães Rosa e outros, transforma-se no centro do universo, na paragem onde mora o mistério, a luta e a sobrevivência, atributos estes potencializados e que atestam a verdadeira força de uma pessoa. Fabianos, Macabéias, sertanejos e conselheiros. Os anos se esvaem como areia entre os dedos e estas personagens parecem ainda estarem vivas, tão próximas que ainda representam dores das milhões de pessoas que apesar de todas as dificuldades, ainda lutam bravamente, ainda sonham, ainda persistem. Gente que traz consigo algo que dinheiro nenhum compra, que nem o dominador mais ferrenho consegue destruir: aquele olhar repleto de brilho que, embora a tristeza assole, jamais se apaga. De fato o sertanejo é um forte, antes de tudo. E é brasileiro. Não é por acaso.      Rodolfo Tiengo Fernandes      

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