São José do Rio Pardo - sexta, 24 de novembro de 2017
"Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos"
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Postado em: 18/02/2016

Aspectos antropológicos em Os Sertões de Euclides da Cunha - Renaldo Mazaro Jr


  Aspectos antropológicos em Os Sertões de Euclides da Cunha. Renaldo Mazaro Jr Mestre em Filosofia pela UNICAMP Professor da UNIP-RIO PARDO               Forasteiro há muito mais de dez anos em São José do Rio Pardo, eu ganho aqui o meu pão e a minha mortadela. Comecei jovem a minha modesta vida de professor universitário. Primeiramente na FFCL, hoje Faculdade Euclides da Cunha, posteriormente na Unip e na Fundação. Também andei por aqui e por ali a contar mentiras para estudantes de colegial e cursinho. A condição de professor me permitiu o encontro com pessoas muito interessantes e, seja o que for, as levarei comigo dentro do peito. Não gosto de citar nomes porque se pode faltar com alguém e eu sempre falto com muitos. E muitos são os professores, trabalhadores do ensino, alunos e personagens, que serei grato não apenas pelo que são, mas por permitirem as suas agradáveis companhias. Preferi este parágrafo aqui para dizer um pouco de mim e provar que eu não seria o que sou sem o concurso das pessoas que me cercam e daquelas que encontro em meu caminho, às vezes a andar junto, noutras em desalinho. A todos, os meus mais profundos respeito e admiração. * * * Sejamos simples copistas... Pois que Canudos é a favela. E a favela mais bela porque tão mais próxima, vizinha, a encosta do Eldorado.               Todo olhar carrega consigo algumas intenções. Toda intenção promove alguns olhares. Nesse sentido, o que se segue não pretende ser uma nova leitura deOs Sertões de Euclides da Cunha, mas, talvez, uma visão panorâmica de um ou outro aspecto da obra, especialmente ao que diz respeito ao destino dos brasileiros, pobres, desassistidos, incolores, indiferentes que, em quaisquer momentos, podem e devem ser eliminados.             O universal em Os Sertões nasce clássico, não só porque Euclides e poesia, mas pelo fato de narrar o desenrolar de um episódio dramático da história do Brasil, um país em que ainda hoje os principais conflitos sociais (em larga medida ligados ao acesso a terra, a distribuição da riqueza, a justiça e a dignidade humanas) são resolvidos através da utilização da violência aberta, ilegal, legítima ou ambas. Na base desses conflitos repousa, historicamente, a separação da sociedade em dois nichos que têm suas origens na casa grande e na senzala, que associou ao trabalho à condição do escravo ao lado do “homem de bem”, um mandrião. Ser servido é a regra e o desdobramento histórico da regra funda as relações atuais entre o público e o privado. Ou, de outra maneira, o público somente interessa na medida em que possa ser açambarcado pelo particular. Quaisquer ações que puderam ou possam minar a estrutura de poder e, assim, permitir uma real transformação na sociedade brasileira, quaisquer ações nesse sentido, devem ser evitadas a todo o custo.             Canudos não foge ao padrão. Antes o reforça. Dá-lhe um colorido mais forte. Há um Canudos em cada notícia de rebelião. Há um Canudos logo ali, na próxima esquina. Há um Canudos dentro de nós. Porque Canudos foi e sempre será o outro, o estranho, o terrorista. Porém, Canudos é antes um esforço, um dispêndio enorme de energia para se estigmatizar o outro, valendo-se dos recursos da razão e da ciência. Pois razão e lógica engendram monstros. Beatos tornam-se inimigos públicos e a multidão de miseráveis um exército com a mesma alcunha.             Em Os Sertões – uma literatura de posse da ciência -, o autor descreve as condições que levaram ao massacre de um povoado inteiro. Euclides da Cunha ao descrever a terra, o nordestino, e a luta do homem por si e pelo seu lugar, narra a tragédia cartaginesa às avessas e retinta. Avessa porque Cartago era o de fora que não se rendia e, Canudos, o de dentro que não se rendeu. Retinta porque Roma era o mundo em expansão barrado pela colônia fenícia; e a república brasileira é a encarnação da alma dos resquícios da colonização lusitana que se deparou com a própria imagem sebastiana nos confins do sertão. E o sertão virou mar. De sangue.             Os Sertões são vários num só. Tem-se, no livro, o registro da história, o embasamento científico, a crítica e o julgamento da moral civilizatória, o pensamento social na virada dos oitocentos. Na obra imbricam-se os debates entre a fé e a prova, o atraso e o progresso, a república e a monarquia, a cultura e a barbárie, o espectador e o ator, o conquistador e o conquistado, o local e o mundial; enfim, a precária condição de vida sertaneja produto do esquecimento, contraposta a eficácia das indústrias bélica e cultural européias, notadamente representadas pelas armas Krupp e a construção do imaginário coletivo através das lentes do darwinismo social. Não só Euclides da Cunha se vale do arcabouço simbólico fornecido pela nascente cultura científica e industrial moderna, mas também os propósitos, o desfecho e o destino da guerra. O posterior estudo médico antropológico do crânio e do cérebro de Conselheiro pode ser tomado como exemplo do exercício das preocupações científicas na época.             Há que se ressaltar o “espírito” daquele período. A campanha de Canudos encerra-se num momento significativo da história brasileira. Politicamente era o começo de uma nova era, eram os primeiros passos da República positivista que, dentre outros aspectos, queria enformar o país nos quadros do desenvolvimento econômico eminentemente racional e contábil – basta pensar que o fim da escravidão antecedeu em alguns meses a instauração do regime republicano. Neste sentido, a república empenhou-se em projetos nacionais que complementariam este objetivo modernizante: o embranquecimento a raça com o incentivo à vinda de emigrantes; a redenção nacional que timidamente apontava para a necessidade de um plano de educação nacional, já que, até aquele instante, ao trabalhador escravo não se aplicava nenhum tipo de educação formal; e, por fim, o movimento sanitarista entendido, talvez, como a necessidade de transformar os milhares de jecas tatus em pessoas farmacologicamente saudáveis. Canudos talvez tenha representado, neste panorama republicano, o entrave aos projetos políticos nacionais. Impossível de ser contornado, pois impossível embranquecer quem por brancos, pretos e índios havia se formado; quanto à educação e à saúde, nada mais precisavam aqueles sertanejos que não fossem as orientações ético-religiosas de seu líder, por eles santificado e que a cultura moderna desenterrou e o ressuscitou para mostrar que efetivamente estava morto. Com ele morria Canudos, morria a barbárie, matava-se o perigoso outro fruto de estranhos nós mesmos. Solucionou-se, assim, o incontornável pela sua supressão.             As condições técnicas e cientificas da época propunham meia dúzia de tipos etnológicos do brasileiro. Tais classificações encontravam nos meios acadêmicos personagens que as defendiam e as propagavam. E, a despeito dessa discussão ainda ser objeto de interesse científico no Brasil e no mundo, pensar a diversidade étnica dos povos não pode servir de instrumento de superposição dos homens, hierarquização de sociedades segundo parâmetros muito frágeis de desenvolvimento cultural. Entretanto, ao final do século XIX, era justamente esse viés que se atribuiu a boa parte das pesquisas etnológicas, a tônica do discurso político para a dominação do outro se pautava, portanto, no produto mais refinado da sociedade burguesa, o seu filho mais legítimo: a ciência moderna.             Munido da ciência, Euclides da Cunha se propõe a entender os tipos sertanejos, seus hábitos e sua cultura. Ainda que cético às expressões de sua religiosidade – quiçá pelo próprio pensamento em que se encerrava ao autor, que via na religião uma forte associação com a monarquia e, portanto, contrária à idéia de progresso tão exaltada na Belle Époque -, Euclides da Cunha antropologicamente as concebe como uma das formas de relativizar o universo do outro e, a partir daí, poder compreendê-lo. Mas, curiosamente, apesar de sua fé na ciência, no progresso, há na alma do escritor um quê de sertanejo, um crítico do espaço em que a ciência encontra seu terreno e finca aí suas raízes: a cidade. Me revolta vendo a cidade dominar a floresta, a sarjeta dominar a flor! (CUNHA, Euclides da. "Em Viagem". In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Aguilar, vol. I, 1966, p. 517). Esse matiz é curioso no pensamento euclidiano: através do olhar cético da ciência o autor apresenta acusações ao próprio lócus e logos do qual e no qual resulta.             A riqueza de Os Sertões, é um inesgotável tesouro. Quanto mais ao fundo cavamos, mais nos encantamos e, ao mesmo tempo, nos aterrorizamos com aquilo que somos capazes nas profundezas do nosso próprio íntimo. E somos capazes, porque Canudos ainda arde e o sertão é o nosso quintal. Da mesma forma que outrora nos valíamos de medidas cranianas para estabelecer aquilo que entendíamos por homens evoluídos e atrasados, atualmente as medidas ganharam novas gradações, sobretudo a econômica. Quanto maior a medida monetária, maiores as chances de adaptação, sobrevivência e reprodução. Hoje estamos a apoiar, sustentar e participar - cada um a sua maneira -, de uma ordem a qual pode ter na guerra de Canudos e em seu significado, um momento síntese da atual existência. O conflito reuniu os elementos e os atores de um trágico teatro observado historicamente na sociedade brasileira e ainda presente em seus vilarejos e grandes cidades. Em algumas delas num contorno mais forte e, em outras, em fronteiras mais distantes. Inegável é sua existência. Nesta peça, cujo palco é seu próprio passado, o que se representa é o destino dos homens que participam de um conjunto complexo de identidade forjado desde o início por uma distante polaridade social, mas simultaneamente próximo geográfico, espacial, corpóreo e sexualmente. Tal proximidade, no tempo, realizou num tecido cultural comum, um bordado diverso a combinar e trocar símbolos entre si. Ao mesmo tempo, esse coser de infinitas possibilidades, foi-se realizando no centro de um motivo cercado por muitos nós que, ao invés de se desmancharem, tornaram-se mais difíceis e engenhosos para se desfazerem. Essa dificuldade talvez se explique pela própria natureza de que não foram os nós feitos por si sós e, da mesma forma, não podem depender somente de si mesmos para se resolverem. É possível, ainda, que o teor desse roteiro sertanejo, não seja exclusividade regional, pois que se não apresenta somente no bojo da sociedade brasileira, mas, num sentido mais amplo, no interior de toda sociedade terceiro mundista. Àqueles cujos papéis a História reservou aos interesses dos grandes Estados, Reinos e Impérios: colônias, protetorados, possessões, etc. Cujos personagens ainda podem ser vistos nos sertanejos, latino-americanos, palestinos, hindus, africanos, muçulmanos e todos aqueles desterritorializados, desnacionalizados, desaculturados, sem pátria, sem hino, sem fronteira, esquecidos pelo próprio deus, aos quais a fome e a miséria se impõem violentamente como balas de canhão. Encontram-se, atualmente, nessa situação 4,5 bilhões de seres humanos do planeta. E basta caminhar pelas ruas para enxergar o que a indiferença há muito nos cegou. Canudos é bem maior do que imaginamos e a pergunta que se faz a ciência e a tecnologia contemporâneas é velha conhecida: superar ou suprimir, qual opção lançaremos mão? A resposta deve considerar o registro de Euclides da Cunha, caso contrário poderemos assistir a uma nova edição de Canudos.     Referências bibliográficas.   CUNHA, E. da. (1982), Os sertões: campanha de Canudos. São Paulo, Abril Cultural. FREYRE, Gilberto - Casa–grande & senzala. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1994. LIMA, N. S. - “Missões civilizatórias da República e interpretação do Brasil” in História, Ciências, Saúde - Manguinhos, vol. V (suplemento), 163-193 julho 1998. OLIVEIRA, Ricardo de - “Euclides da Cunha, Os Sertões e a invenção de um Brasil profundo” in Rev. Bras. Hist. vol.22 no.44 São Paulo 2002. REZENDE, Maria José de - “Os sertões e os (des)caminhos da mudança social no Brasil” in Tempo soc. vol.13 no.2 São Paulo Nov. 2001. SANTOS, R. V. - “A obra de Euclides da Cunha e os debates sobre mestiçagem no Brasil no início do século xx: Os sertões e a medicina-antropologia do Museu Nacional” in História, Ciências, Saúde - Manguinhos, vol. V (suplemento), 237-254 julho 1998. SEVCENKO, N. - Literatura como missão. 4a ed., São Paulo, Brasiliense, 1995. VENTURA, Roberto – “Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa” in Revista de Antropologia, vol.40 n.1 São Paulo 1997. ZILLY, B. - “A guerra como painel e espetáculo. A história encenada em Os sertões” in História, Ciências, Saúde - Manguinhos, vol. V (suplemento), 13-37 julho 1998.  

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