São José do Rio Pardo - sexta, 24 de novembro de 2017
"Esse país ainda não teve um interprete, eu posso ser o interprete que esse país ainda não teve."
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Postado em: 19/02/2016

João Modesto de Castro : um grande homem de nossa história - Maria Olívia Ribeiro de Arruda


João Modesto de Castro: um grande homem de nossa história – Maria Olívia Ribeiro de Arruda   Como bem nos alertou o professor Márcio Lauria, em suas palavras do dia quatro de maio de 2002, a história do movimento euclidiano nesta cidade contou com “actantes anônimos”, cuja história precisa ser resgatada, bem como o valor dessas pessoas. Em 2002, ano em que comemoramos o centenário de “Os Sertões”, fiz uma homenagem a um dos amigos que Euclides fez nesta cidade e que é o responsável pela conservação da cabana de zinco. Infelizmente, seu nome ficou esquecido por grande parte da população rio-pardense. Para Euclides, sabemos, lutar pela justiça era o motivo maior de sua vida. Pois bem, em uma dessas intuições inexplicáveis da vida, quando ainda lecionava na EEEFM “Euclides da Cunha”, juntamente com a ex-aluna Mariane de Oliveira, encontrei um manuscrito de João Modesto, intitulado: “O Ranchinho de Euclides”. Esse documento estava no forro da biblioteca da escola, juntamente com outros papéis que iriam para o ferro-velho. Comecei a pesquisar sobre o autor desse manuscrito, li referências entusiásticas do professor Rodolpho Del Guerra e de Francisco Braghetta, os dois já haviam alertado há décadas sobre a injustiça feita à João Modesto. E é com emoção que nesta Semana Euclidiana venho ser a porta-voz da homenagem a ele prestada. Mas quem foi o Major João Modesto de Castro?  Algumas respostas encontramos em uma carta deixada por Paulo Nogueira de Castro, sobrinho do Major, contando que seu tio exercia exercia as funções de tesoureiro da Prefeitura Municipal desta cidade e que tinha quatro irmãos:o Capitão Aníbal de Castro (pai de Paulo), Arlindo de Castro, Norberto de Castro e Leonídia de Castro Vieira. João Modesto era casado com a Sra. Ubaldina Nogueira de Castro, irmã de Laudelina Nogueira de Castro (mãe de Paulo). Relata o sobrinho que o cargo de prefeito, na época, era ocupado pelo Capitão Mário Rodrigues, filho do Conselheiro Antônio Cândido Rodrigues, e proprietário da duas fazendas: Vila Maria e Santa Marta, de onde vinha diariamente à cidade, permanecendo até o anoitecer. O prefeito tinha o hábito de percorrer a cidade com um de seus cavalos (deixava sempre dois deles guardados nas estrebarias da prefeitura) e foi em uma dessas voltas, no mês de maio de 1915 (o professor Rodolpho e outras fontes citam 1918, a Resenha de 15/08/1939 faz a referência: ali pelos anos de 1917 ), quando vinha do Bairro Santo Antônio para a prefeitura, que o Capitão  “ficou contrariado” ao deparar com um barracão cercado de mato, bem às margens do Rio Pardo, próximo à ponte e, à tarde, mandou chamar João Modesto de Castro, determinando-lhe que derrubasse  o citado barracão e limpasse o local, que causava má impressão. O Major revelou ao prefeito que ali fora o escritório de Euclides da Cunha, no qual o escritor havia também “redigido algumas laudas” de “Os Sertões”. Argumentou, ainda, que o engenheiro fora seu amigo,ao qual oferecera os “Boletins de Campanha”, publicados no jornal “O Estado de São Paulo”, de autoria do próprio Euclides, que, contudo, não os havia guardado para consulta. O Capitão Mário concordou, então, que o local fosse limpo e ajardinado, e que o ranchinho fosse mantido ali. Em 1912, João Modesto e Jovino de Sylos mandaram fotografar a cabana abandonada, fizeram cartões postais e os venderam. Foi aí que arrecadaram os primeiros recursos para a obra que pretendiam realizar: construir um monumento de pedra em homenagem a Euclides da Cunha: a herma. Em 1925, com alguns amigos, fundou o Grêmio Euclides da Cunha, do qual foi sócio-honorário. O denominado Ranchinho de Euclides, por Modesto de Castro, também batizado de O Berço de “Os Sertões”, por Almeida Magalhães, crismado por Teodoro Emerique como Presépio de Belém; na Resenha, chamado de Kaaba Euclidiana, e que é para o povo rio-pardense, hoje, a “cabana de zinco”, tornou-se monumento incorporado ao acervo do Patrimônio Artístico e Histórico  Nacional, nos termos do decreto-lei nº 25 do Governo Federal, de 30/11/1937. (Resenha, 15/08/1939). Ainda o depoimento na Resenha: João Modesto de Castro angariou donativos para o ajardinamento do local e ereção de uma herma.  Segundo Paschoal Artese, na redação de “O Estado de S. Paulo” existia o produto de uma subscrição de 4:1000$000, a qual foi solicitada pelo Major João Modesto de Castro, que encarregou a um hábil artista da capital o trabalho de bronze que adorna a pedra tosca...  (Resenha, 15/08/1938). Paulo finaliza a carta queixando-se da ingratidão desse grêmio e da “Casa Euclidiana”, por se tornarem omissos em relação à figura de seu tio, o grande responsável pela manutenção da cabana que é, hoje, memória viva do grande escritor que nela trabalhou. Segundo o professor Rodolpho José Del Guerra, Modesto de Castro foi uma figura calma, humana, solícita, simples, que só se preocupou com o próximo, com a preservação de nossa história e com movimentos filantrópicos e culturais de São José do Rio Pardo. Conta que o Major veio de Casa Branca para residir em nossa cidade por setenta anos. Teve uma única filha, Adelaide, que morreu tuberculosa aos dezoito anos, porém o casal criou filhos adotivos também. Foi um homem rico e elegante, atuando em São José como comerciante, comissário de café, agricultura, guarda-livros e encerrou sua carreira como tesoureiro da Prefeitura Municipal. Como era preocupado com o bem comum, seu dinheiro também foi aplicado em obras sociais, chegando, por esse motivo, ao final da vida sem os bens que possuía. Desde 1904, a sua casa era local de reunião de uma comissão que lutou para a construção da Santa Casa de Misericórdia, em cujo empreendimento se empenhou até 1913, como presidente e provedor dessa instituição. Com a morte prematura da filha e a Santa Casa em pleno funcionamento, abandonou a provedoria. Doou ao padre uma das casinhas que possuía, para funcionar o Asilo Padre Euclides. Auxiliou o vigário em outros empreendimentos, como no do Asilo de Órfãos Anália Franco, depois Orfanato São José. Contribuiu com a construção da Loja Maçônica, em 1896, de que era membro participante. Era, também, espírita caridoso. Valêncio Bulcão, em Mensagem ao Além, de 25/08/1956, também faz uma biografia de João Modesto, que falecera na semana anterior, considerando-o como grande exemplo de solicitude e amor ao próximo Por essas coincidências do destino, o diário deixado por ele - e que será o tema deste nosso estudo - escapou de seguir para o ferro-velho com outros livros e papéis antigos apenas porque alguém teve  a idéia de verificar o que havia no forro da biblioteca! É preciso registrar aqui a colaboração de Mariane de Oliveira, uma ex-maratonista e ex-aluna, que foi a nossa aliada nessa descoberta e preservação do documento. O Major João Modesto de Castro ficou, no final de sua vida, cego e doente,  falecendo, em total esquecimento por parte da comunidade, no dia 18 de agosto de 1956, aos 93 anos de idade. Na revista Metrópole – Revista Ilustrada – número da primavera de 1947, foi publicada a reportagem ASPETOS DA VIDA DE EUCLYDES DA CUNHA, de Paulo Nogueira de Castro, falando sobre o ranchinho de Euclides e com depoimentos de João Modesto de Castro, que na época estava com 84 anos de idade. Um homem que, além de haver se dedicado à comunidade, espiritual, mental e materialmente, foi um dos amigos de Euclides da Cunha, testemunhou a passagem do escritor por nossa cidade e teve a visão histórica de anotar para o futuro os acontecimentos da época, merece, neste centenário de Os Sertões, ser homenageado, juntamente com o engenheiro-escritor. Com Euclides, colaborou fornecendo-lhe os recortes de sua correspondência de guerra, publicada em O Estado de S. Paulo, o que faz dele também uma figura importante em um momento da criação do livro. O Major mostra tanta consciência da importância de seu testemunho, que faz uma justificativa, declarando que escrever a respeito de uma inteligência preclara e uma  cultura primorosa, como a de Euclides, é sempre arriscado, pois há o perigo de ser mal interpretado, censurado, ou mesmo analisado com injustiça pela maldade humana (Castro, 1935). Observação muito lúcida feita por Castro, pois em mais de trinta anos de estudos e reflexões nesse campo, sabemos que há uma diversidade de enfoques e pensamentos da parte dos que se aventuram à compreensão do gênio escritor, de sua obra e mesmo dos fatos que envolveram a sua criação. Porém Modesto reconhece que silenciar fatos reais, provados, que abonam o mérito do engenheiro seria uma falta de patriotismo e de amor à verdade.*. Logo nas primeiras páginas, podemos notar o quanto impressionou ao povo da época a construção da ponte realizada por Euclides, e mesmo o quanto o engenheiro era querido pelos amigos, pois Modesto se refere a ele como o pranteado construtor da – Ponte!* O estilo do Major também é grandiloqüente, como era próprio ainda da influência de movimentos anteriores ao Modernismo: Quem não guardará na memória a passagem brilhante de Euclydes da Cunha por esta cidade? Os seus maravilhosos feitos ali estão, aos olhos de todos.* Na descrição do casebre, quase podemos sentir a projeção de aspectos da figura de Euclides: Ali naquele casebre tosco, triste e solitário, abraçado e orvalhado por opulenta paineira, à beira do Rio Pardo, parece ainda ouvir-se o rebuliço áspero e nervoso da pena de ouro de Euclydes da Cunha a traçar mapas, croquis, cálculos, desenhos e complicados projetos tecnicamente estudados para desmontar e reconstruir a grande Ponte Metálica desabada.* O clima que Euclides encontrara ali, na cabana, também é relatado: ... localizada em uma baixada sombria, batida por fortes ventos e constantemente vergastada por um frio úmido e cortante. Detalhes do casebre também são registrados: No obscuro interior do casebre, que mal comportava uma pessoa, via-se uma pequena mesa mal equilibrada sobre um soalho de tábuas largas, grossas (...) mal pregadas, com singelo tamborete de palhinhas, uns cadernos de registro, livro de ponto, mapas de estudos, um tinteiro, papéis, canetas, lápis e réguas. Em uma improvisada prateleira baixa, algumas fotografias da ponte tombada, rolos de papel para plantas e alguns instrumentos da sua profissão. Sobre o chão, a um canto, uma pilha de jornais, O Estado de São Paulo, amarelados pelo tempo, rodeados de pontas de cigarro e de caixas de fósforos vazias.* Modesto afirma categoricamente ter fornecido a Euclides alguns dos exemplares de que o autor necessitava para escrever Os Sertões: Alguns daqueles jornais, para ele de suma importância, lhe foram dados por quem escreve estas linhas, os quais continham a coleção completa das suas arrebatadoras “Cartas Sertanejas” – de sua arrojada reportagem, traçadas pela vibrante pena de jornalista, pela ocasião da famosa Guerra de Canudos, naquele novo teatro de variados costumes selvagens, na sede de saber e conhecer tudo, para enriquecer o seu curioso e privilegiado espírito pesquisador meticuloso. Castro cita a importância da releitura das Cartas Sertanejas  para a elaboração de Os Sertões: ... iniciadoras do grande livro que imortalizou o seu nome.* O Major foi testemunha, também, de que Euclides pesquisava incessantemente para a elaboração do grande livro: ... ia aumentando sem cessar o seu formidável escrínio de conhecimento para colorir com brilhantismo as páginas do seu maravilhoso livro.* Quanto à primeira ponte construída, Modesto de Castro registra que ela durou apenas 29 dias e que ouvira falar que o valor da construção ficara em torno de 800 contos de réis. A maior parte das referências que temos sobre a queda dessa obra cita a duração de cinqüenta dias; o professor Moisés Gikovate afirma que o período foi de dezenove dias. No entanto, Modesto de Castro afirma, por várias vezes, que o engenheiro responsável por essa construção ficou conhecido como o engenheiro dos 29 dias, período da duração da obra. São suas palavras: ...tombara ruidosamente, sem uma razão justificada, sem que houvesse uma grande enchente do rio que provocasse tal desastre, sem nenhum motivo*1 aceitável, a não ser o atestado de imperícia e do criminoso descuido do seu imbecil construtor que ficara cognominado pelo povo de: “O Engenheiro dos 29 Dias”.*     Segundo Modesto de Castro, na manhã daquele domingo fatídico, formara dos dois lados do rio uma multidão que observava, indignada, o fato insólito, fervilhando os mais terríveis comentários contra o governo e contra o engenheiro construtor. Diziam que tal serviço fora executado por protegidos rábulas profissionais que ocupam posição de realce nos escritórios das secretarias, que queriam dar lições aos competentes com práticos de meia tigela, improvisados profissionais,substituindo-os vantajosamente nas empreitadas de concorrência com práticos sem aptidão e competência, sem responsabilidades.* Castro coloca a vinda de Euclides como sendo a de um “salvador”: Tal estado de amarguras para a cidade e o município continuou sem esperanças até A Vinda de Euclydes da Cunha (novamente a importância do fato, destacado em maiúsculas). E acrescenta: Não podia ser mais feliz a escolha do governo. Foi uma escolha providencial, como há de ficar demonstrado nestas imperfeitas notas.*                   Conforme o Major, nosso escritor chegava a entrar à profundidade de alguns metros para fazer, no fundo do rio, suas observações, a fim de encontrar algumas rochas sólidas, cuja existência era prevista por seus cálculos exatos: Ora servindo-se de canoa, ora a pé, sem chapéu, pelos barrancos, todo molhado, com os sapatos enlameados,mantendo sempre a convicção de que encontraria uma rocha sobre a qual pudesse firmar os alicerces da ponte.* O fato de encontrar o rochedo bem no local desejado foi motivo de grande contentamento para Euclides. Segundo as anotações, ele não utilizara o mesmo lugar da ponte anterior por notar o fato de estar completamente desviada da vista da cidade e do alinhamento das ruas. Cuidadosamente, então, projetou-a de modo a colocá-la sobre melhor ponto de vista, mais alto, mais favorável ao trânsito, mais em alinhamento das ruas da cidade, formando uma bela avenida e descortinando uma linda vista panorâmica.* Após encontrar a laje sob o rio, festejou e chamou os amigos para tomar um copo de cerveja a quatro metros de profundidade, depois de preparado o local e colocada uma escada bem segura, para que nada de desagradável pudesse ocorrer. Registram essas memórias que o ambiente era de festa e que, entre os convidados, estavam: Dr. Antônio Dias Ferraz Júnior, Dr. Jovino de Sylos, Francisco Escobar, José Honório de Sylos, Adalgiso Pereira, João Moreira, João Novo, Ernesto Mariz e João Modesto de Castro.* Outra característica do escritor, várias vezes salientada por Modesto de Castro, é a sua grande capacidade administrativa: Não conhecia dificuldades.* Para montar a estrutura necessária para a reconstrução da ponte, foi necessário limpar o mato que tomava o local, onde se proliferavam carrapatos, moscas, mosquitos, pernilongos perigosos*, exigindo uma preparação da área a ser utilizada. Por ali circulavam, diariamente, vários veículos ruidosos, trazendo materiais de construção: carros de bois, cantarolando, com enormes peças de madeira para os andaimes, carroções com caibros, carroças com tábuas, outras com  pedras enormes, com tijolos, areia, pedregulho.* Outras traziam, ainda, barricas de cimento, cal, arame, piche, carvão, óleo e outros gêneros. Havia, ali, uma barulhenta ferraria*, com uma forja e um grande fole que enchiam os ares com uma fumaça malcheirosa, preta. Ao lado, uma não menos ruidosa carpintaria. Logo adiante, os compositores de argamassa e do reboco de cal, areia, cimento e pedregulho para o concreto armado, tudo movimentado com enxadas, pás, peneiras e carriolas. Além disso, havia os britadores, com os pesados malhos, quebrando pedras e cascalhos. Quem necessita enfrentar um dia de trabalho em local ruidoso conhece o resultado estressante no final da jornada. Além disso tudo, Castro afirma que o barulho dos carros e animais que passavam por ali para tomar a balsa e as canoas – que voltaram a ser o meio de travessia do rio – era igualmente ensurdecedor. E onde há animais, há sujeira e o mau cheiro decorrente dela, com certeza. Bem próxima dali, a Companhia Mogiana, com o constante movimento de locomotivas em manobras, de onde partiam silvos prolongados e irritantes e expressa fumarada*, lembra Modesto de Castro. E não é só. Conta, ainda, que o vento, muitas vezes, tornava o ambiente insuportável, uma nuvem de pó, de mistura com areia, cal, cimento, carvão das forjas, fumaças das oficinas e das locomotivas (...) escurecia por completo aquela paragem, de modo a não poder ser vista uma pessoa ou um objeto, mesmo de perto!* Importante a informação que ele registra: Outras vezes, uma violenta rajada de vento invadia de súbito o escuro escritório do ranchinho, tombando o tinteiro, quebrando objetos, arrebatando para os ares papéis de importância e as tiras manuscritas para o seu grande livro, as quais rolavam pelo chão, enlameadas pela chuva, outras desapareciam na correnteza do rio, ali a dois passos de distância.* Estas palavras comprovam que algumas páginas de “Os Sertões” foram realmente escritas aqui. E mais, mostram a habilidade do gênio escritor: Com incrível presteza e facilidade ele substituía os autógrafos sujos de barro, bem como os que haviam sumido no rebuliço das ondas, com a mesma erudição.* Como se tantas adversidades não fossem suficientes, convivia com um nauseabundo cheiro de um matadouro municipal*, que funcionava ali perto, e que fora depois transferido, a pedido de Euclides, mas que deixara nas proximidades uma enorme quantidade de caveiras, pedaços de couro e ossama do gado abatido diariamente*, o que atraía enormes hordas de urubus famintos, alguns que chegavam à porta do ranchinho e Euclides os corria a pedradas, sentindo-se furioso com aquelas importunas visitas perturbadoras do seu trabalho, (...) rescendendo um budum insuportável.* O Major faz questão de ressaltar que as palavras desse diário não são mentiras, pois tudo fazia o talentoso engenheiro sem intuitos interesseiros. A cobiça não era o movel das suas ações.* Daí a grande admiração que causou aos que o conheceram mais intimamente. Sobre o teste da ponte, o que o documento nos mostra é que, em um sábado, o engenheiro convidou a população para assistir, no domingo, a uma experiência que seria feita na ponte em construção. O povo, no dia seguinte, foi surpreendido com a visão da ponte, sem a armação que a cobrira durante a reconstrução. Tudo fora feito com o maior segredo, Euclides não mostrara a sua obra inacabada nem mesmo a seus melhores amigos. A experiência foi maravilhosa, contentou a todos. Isto lhe valeu a simpatia, a admiração e a gratidão de toda a população desta terra de trabalho, de progresso e de prosperidade,* afirma Castro. E a experiência consistiu em sobrecarregar a ponte  de enorme peso em movimento, para testar a resistência da construção: Sobre o lastro da ponte foram empilhadas pesadas barras de ferro, pedras, sacos de areia, pilhas de sacas de café, e pelo centro, passavam e repassavam muitas carroças, carros de bois, carroções de lado a lado, conduzindo cargas com peso superlotado, alguns veículos em disparada.* Castro passa a descrever as particularidades de Euclides que, para o amigo, era de uma probidade inexcedível, possuindo um coração de ouro, alma nobre e generosa, caráter íntegro, qualidades morais admiráveis.* Diz ainda que o engenheiro, na sua concepção, era um bom chefe de família, extremoso*, embora reconheça que às vezes, o escritor apresentava crises agudas de neurastenia*, mas guardava sempre a compostura moral em seus atos. Devemos lembrar, contudo, que na data dessa carta, Euclides já havia chegado da Amazônia e a sua situação familiar era problemática. Além disso, ele confessara a Firmo Dutra, em correspondência de 07 de julho desse mesmo ano, que seria nomeado chefe da fiscalização da Madeira-Mamoré, mas que o obstáculo mais sério que encontrava para aceitar o cargo era a oposição de seu pai, e que, se esse obstáculo fosse desviado, ele rumaria novamente para o Norte, calçando novamente a sua bota de sete léguas. E afirma, ainda, estar o pai aterrado com o seu nomadismo, e não sabia se o convenceria de modo que pudesse partir sem o contrariar. E, realmente, para não ir contra a vontade paterna, Euclides recusa o posto, mas na esperança de  trabalhar na demarcação dos limites da Venezuela. Portanto, o clima entre o escritor e seu progenitor, quando da visita deste, que motivou a carta, pode ter sido conturbado, o que justificaria as duras palavras ao filho. Além disso, a saúde de Euclides andava fragilizada, somando-se ao fato de ter passado pela doença da mulher, no mês de julho desse mesmo ano. Opinião contrária a respeito do gênio do engenheiro é a publicada no jornal. Acreditamos que a neurastenia atribuída a Euclides poderia ser, se analisada à luz da medicina atual, um misto de carência afetiva – faltara-lhe a mãe no momento em que o filho é mais apegado a ela; depois perdera a tia e não mais tivera um carinho maternal – de esgotamento pela vida estressante que levava, agravado pela saúde frágil de tuberculoso, mas fumante incorrigível, tudo isso somado ao impaludismo que angareara na viagem à Amazônia, sem esquecer dos problemas financeiros e conjugais. Voltemos à descrição que Modesto de Castro nos faz de nosso escritor: de curiosidade irrequieta, inquietantes mudanças de humor*, mas que, no entanto, sempre respeitava o direito de todos. Era independente, franco, nada pedia para si* e se mostrava um constante estudioso. O engenheiro era realmente um fumante convicto, fumava exageradamente toda espécie de cigarro.* Aceitava sempre, com prazer, um cigarro que lhe ofereciam, de qual marca fosse. Quando encontrava um não apreciador de cigarros, comentava: O homem que não fuma perde vinte por cento dos encantos da vida, se é que a vida em encantos. Ou então: Que coisa mesquinha não seria a vida se não tivéssemos um cigarrinho cheiroso, um livro bom, uma boa palestra.* Reconhecia que o vício lhe fazia mal, mas argumentava: Em caso algum obedeceria a médico que me proibisse de fumar, de saborear um cigarrinho*. Sabia fazer a apreciação dos melhores fumos da época: goianos, mineiros, Poço Fundo, Caracol, Campestre, Campestrinho, Virgínia, Veado*, entre outros, bem como as melhores marcas de cigarros de papel. Euclides recebia 800$000 mensais, sempre entregues à esposa, que ficava responsável por todas as compras e pagamentos da casa, inclusive as avultadas contas de cigarros e fósforos de Euclides.* Modesto diz ser impossível, mesmo resumidamente, fazer nesse diário o histórico completo das qualidades especiais de Euclides*. Segundo ele, o escritor era dotado de uma presença física franzina, mas muito simpática. Moreno, de estatura baixa, de olhos vivos e olhar firme, brilhante, observador, maneiras agradáveis e simpáticas, possuidor de uma conversação correta, insinuante, fluente, de voz sonora, agradável.* Euclides tratava sempre de assuntos elevados, principalmente sobre o Brasil, de quem era defensor caloroso e intransigente. Afirma que o escritor demonstrava orgulho de ser brasileiro, provavelmente pela influência da educação militar que recebeu. Era, além do mais, orador simpático, com violenta explosão de temperamento literário* . Demonstrava sempre visão otimista sobre o futuro do país. Suas maiores aspirações eram a construção da ponte e a publicação de Os Sertões. Quando se reunia com os amigos, fazia para eles plácidas leituras da obra que escrevia,* acrescentando sempre: Não concebo minha vida sem meus livros, sem meus cigarros, sem minhas palestras com bons amigos.* Sempre acendia um cigarro antes de ler. Castro deixa anotado: Fará um juízo errôneo quem supuser que Euclides trabalhava o dia inteiro no seu casebre, cheio de cuidados pelos seus “Sertões”. Poucas vezes ali entrava e pouco se demorava.*  Reconhece, porém, que o escritor tinha sobre seus ombros o peso enorme da construção da ponte e sobre sua cabeça o calor ardente d´Os Sertões, mas, em primeiro lugar, a sua dignidade, sinceridade e lealdade profissional lhe impunham os serviços da ponte, de que ele se ocupava com empenho e boa vontade*, principalmente pelo fato de que sempre ouvia críticas a respeito de seu antecessor e da obra que durara vinte e nove dias. Para o Major, Euclides representava a nossa grande via de progresso e prosperidade, o maior obreiro da nossa grandeza histórica, da repercussão brilhante* do nome de nossa cidade, até no exterior. E acrescenta: eu me sinto feliz por poder fazer (...) estas obscuras revelações em consideração ao consciencioso engenheiro que de São José foi grande amigo, para que o seu respeitável nome mereça sempre o reconhecimento e os encômios de todos os rio-pardenses conscienciosos e de sentimentos elevados.* Sem o saber, traçava ele aqui o perfil dos euclidianos que se sucederiam na lista dos co-actantes desse culto singular em nossa cidade. A seguir, descreve  fatos sobre a residência de Euclides. Conta que a casa do escritor era freqüentada, na maioria, por literatos, escritores e poetas de diversos lugares que iam até lá para usufruir do contato com a sua pujante mentalidade literária.* Tratavam de assuntos importantes, em animadíssimas palestras,* sobre poetas e escritores famosos. Contava sempre episódios interessantes de sua estada em Canudos. E mais uma vez afirma: De política, nada absolutamente.* E o escritor se mostrava sempre sorridente, animado, satisfeito em meio aos amigos, afirmando sempre: Há aqui somente três pessoas com quem me expando à vontade, nas minhas palestras: Francisco Escobar, José Honório de Sylos e Adalgiso Pereira.* Euclides deixou no Major a impressão de ser um homem sublime no seu desprendimento, sem luxo, simplicidade pacífica de viver.* Castro conta, ainda, que Euclides retirou-se, com sua família, definitivamente para São Paulo, sem poder dizer o seu sincero adeus, saudoso e grato, aos seus numerosos amigos, um coração bondoso como o seu. Em uma nota, relaciona os íntimos amigos de Euclides e assíduos freqüentadores de seu salão de palestras literárias: Dr. Antônio Dias Ferraz Júnior, Dr. Jovino de Sylos, Francisco Escobar, José Honório de Sylos, Adalgyso Pereira da Silva, João Moreira e João Novo*, sendo os de maior intimidade, como já afirmara antes, Escobar, Adalgiso e José Honório. Modesto faz um pedido a quem se der ao rude trabalho de ler as enfadonhas mas – VERDADEIRAS – notas registradas rapidamente em seu caderno: que deverá ter a gentileza de deixar de parte todas as irregularidades e defeitos, até que lhe seja possível copiá-las com mais clareza, nitidez e elegância, mas que elas estariam à disposição de quem desejasse escrever sobre o saudoso hóspede do – “Ranchinho”. (Cidade d´Os Sertões, 30/08/1935)*.   Ao Major João Modesto de Castro, nossa sincera homenagem por haver resguardado parte tão significativa da história rio-pardense, e também por haver sido cidadão consciente e atuante na luta para superar a injustiça social, da qual ele mesmo acabou sendo vítima.       Maria Olívia Garcia Ribeiro de Arruda é professora de Literatura Brasileira e Teoria do Texto, da UNIP; doutoranda em Teoria e Crítica Literárias, na UNICAMP; colaboradora do jornal Democrata.        

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