São José do Rio Pardo - domingo, 28 de maio de 2017
"Esse país ainda não teve um interprete, eu posso ser o interprete que esse país ainda não teve."
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Postado em: 25/02/2016

Meu amigo Joel - Márcio José Lauria


Meu amigo Joel A morte de Joel Bicalho Tostes, ocorrida no Rio de Janeiro no último dia do ano, acrescentou mais uma nota de tristeza  a esse difícil 2009. Sua atuação euclidiana sempre deu margem a que se apreciassem  de modo especial os seus múltiplos esforços para a manutenção da  correta memória do homem Euclides da Cunha, avô paterno de Eliethe da Cunha Tostes, sua mulher. Diria que o maior dos méritos de Joel, nesse particular,  foi o de ter chamado a atenção da Justiça brasileira para a adequada  interpretação da lei que declara uma obra literária de domínio público, decorridos cinquenta  anos da morte do autor  e satisfeitas outras exigências explicitadas no texto legal. A ideia  dominante entre os editores era que um livro caído em domínio público podia ser publicado sem maiores  cuidados, de acordo apenas  com os interesses de cada editor. Contra isso se rebelou  JBT, que sempre exigiu, nas diversas edições de Os sertões, principalmente, que se mantivesse a integralidade do texto, aí incluídas a importantíssima  "Nota preliminar" e as observações de rodapé, de autoria do próprio Euclides. A atitude firme de Joel tirou até de circulação algumas edições em que a  deturpação do texto euclidiano constituiria um desserviço à divulgação da obra, tantos os deslizes e as omissões. JBT teve de enfrentar com coragem dois  momentos particularmente difíceis para a manutenção da boa imagem pública  do homem Euclides da Cunha: 1. A divulgação das  impropriedades abrigadas no livro Anna de Assis, depoimento de Judith de Assis (filha de Ana e Dilermando) ao jornalista Jéferson de Andrade. A principal delas é a versão de que Euclides teria causado a morte do menino Mauro (filho de Ana e Dilermando), nascido na constância do casamento de Euclides e Ana. Segundo essa versão, o recém-nascido Mauro teria morrido de inanição (Euclides não teria permitido que Ana o amamentasse) e sido enterrado no quintal da própria casa onde Euclides e  Ana moravam, na Rua Humaitá, em Copacabana. Joel exibe o registro do óbito da criança e ainda lembra que o próprio Dilermando, no livro A tragédia da Piedade, mostrara, anos antes,  os documentos  comprobatórios do sepultamento do menor no cemitério de São João Batista. 2. O risco da utilização dessa perigosa e inverídica versão na minissérie Desejo, de Glória Perez, na  Rede Globo de Televisão. Joel foi alertado de  que Glória iria aceitar a fantasiosa versão de Judite de Assis -  o que sem dúvida causaria tremendo impacto no conceito moral  de Euclides da Cunha junto a pessoas menos informadas da verdade. Imediatamente Joel procura a novelista e exibe toda a documentação que inocentava Euclides de uma prática que em nada contribuiria para a boa caracterização  dos seus atos como marido ofendido. A cena, felizmente, não foi levada ao ar, mas nem assim a minissérie deixou de criar no público uma tendência conceitual francamente favorável a Ana de Assis, representada por Vera Fischer, então uma das mais belas e afamadas atrizes brasileiras. Claro que vários nomes se levantaram em defesa da probidade de Euclides, mas a força da televisão foi muito superior à de artigos jornalísticos que procuravam  traçar um retrato mais adequado do grande escritor... Ainda a propósito de versões escritas desabonadoras da memória de Euclides, Joel Bicalho Tostes deu longo depoimento a  Adelino Brandão, publicado  no livro Águas de amargura (1990). Com referência específica a São José do Rio Pardo, só  a corajosa disposição de JBT assegurou o traslado, para esta cidade,  dos restos mortais de Euclides e de seu filho Quidinho, ambos mortos a tiros pelo mesmo Dilermando de Assis. Como presidente do Grêmio Euclides da Cunha, fui ao Rio de Janeiro tratar da exumação dos restos mortais. Para tanto, tive de pagar taxa (de que o Grêmio deve ter o recibo) à Santa Casa de Misericórdia daquela cidade, administradora do cemitério de São João Batista. Houve resistência por parte da imprensa carioca, da cidade  de Cantagalo e da Academia Brasileira de Letras à pretensão de São José do Rio Pardo, só possível por causa da firme posição de Joel, que falava pela família de Euclides . Numa cerimônia cívica em Cantagalo, a que eu compareci na condição de vereador da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo, em  aprazível logradouro então denominado Praça dos Melros, fui instado publicamente pelo prefeito cantagalense a fazer com que nossa cidade desistisse da idéia de pleitear o traslado dos restos de Euclides. Ele apelou para meus bons sentimentos, para o fato de Euclides ser cantagalense, para outros argumentos de nenhuma significação... Joel  me disse depois que temera pela minha difícil resposta a pedido tão constrangedor. Tive, porém, a feliz ideia de não dizer nem sim, nem não. Ao contrário, fui arrolando minuciosamente tudo o que nossa cidade fizera em favor da glória de Euclides, desde 1912. Segundo Joel, lembrar a dedicação ininterrupta de toda a cidade fora o argumento mais definitivo em favor da pretensão rio-pardense. Se não fosse a circunstância de pai e filho estarem enterrados na mesma sepultura, certamente a Academia teria  transferido os restos do Euclides para o mausoléu dos acadêmicos,  erigido no mesmo cemitério. Já havia feito isso com os restos mortais de outros escritores. Joel Bicalho Tostes nutria grande admiração por São José do Rio Pardo e por sua longa tradição euclidiana. Baste lembrar que partiu dele a feliz iniciativa de sensibilizar a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro a conceder o título de cidadão fluminense ao Dr. Oswaldo Galotti, justamente considerado o grande nome de nosso euclidianismo. Foi uma  bela festa no Palácio Tiradentes,  antes sede da Câmara dos Deputados, quando o Rio de Janeiro ainda era a capital federal. Daqui saímos em caravana:  Galotti, Hersílio Ângelo, Carmem Trovatto, Rodolpho Del Guerra, Rosaura e Augusta Escobar, Dálvaro da Silva, Marina e eu, além de outras pessoas cujos nomes agora me fogem. Tive a honra e o prazer de ocupar a  tribuna daquela histórica  sede legislativa, saudando Galotti em nome dos rio-pardenses. No dia 14 de agosto de 1982, partiu de Joel Bicalho Tostes a  incomum iniciativa de  fazer com que o cortejo com os restos de Euclides e Quidinho  passasse aqui pela Rua Siqueira Campos, tão deslocada do trajeto original. Transcrevo a nota   publicada pelo jornal Folha da Região, de 22 de agosto de 1982:                         Singular homenagem a um euclidiano   Incomum e comovente a homenagem prestada ao Prof. Márcio José Lauria, coordenador do Ciclo de Estados Euclidianos e presidente do Grêmio Euclides da Cunha, ausente por motivo de doença na Semana Euclidiana de 1982. Após a cerimônia na Câmara Municipal, na tarde de 14 de agosto, os despojos de Euclides da Cunha deveriam ser removidos para o Museu Euclidiano, onde permaneceriam até o instante da inumação, no mausoléu recém-construído. Mas, com a geral anuência, tomou forma a delicada homenagem: já que o Prof. Lauria, que deveria ser o conferencista oficial da Semana, não pôde comparecer a nenhum dos passos da solenidade do traslado, que ao menos tivesse a oportunidade de veras urnas que encerravam o restos de Euclides e Quidinho. À frente da residência do Prof. Lauria, interrompeu-se o préstito. Foram cumprimentar o euclidiano  temporariamente enfermo: o prefeito Dr. Celso Amato; o juiz de Direito, Dr. José Roberto de Vasconcellos; o presidente da Câmara, Prof. Roberto Del Guerra; o diretor da Casa de Cultura, Dr. José Aloísio Rodrigues Corrêa; o presidente da Academia Paulista de Letras, Dr. Francisco Marins; o acadêmico e rio-pardense emérito Dr. Honório de Sylos; o decano dos euclidianos de São José do Rio Pardo, Dr. Agripino Ribeiro da Silva; o presidente do Centro Euclides da Cunha, de São Paulo, Dr. Oswaldo Galotti; o casal Eduardo Roxo Nobre, do Grupo Amigos da Cidade; a família de Euclides da Cunha, tendo à frente Joel Bicalho Tostes e as netas do escritor: Sras. Eliethe da Cunha Tostes, Maria Auxiliadora da Cunha Lage e Norma da Cunha Póvoa; os Profs. Hersílio Ângelo, Célio Pinheiro e Êmerson Ribeiro de Oliveira, do Ciclo de Estudos Euclidianos, além de outros participantes da Semana-82. Na mesma noite, Márcio José Lauria Filho recebeu em nome de seu pai o diploma e a medalha alusivos ao traslado e um exemplar de Os Sertões autografado pelos 14 descendentes de Euclides da Cunha.   Perdoe-me o eventual leitor  a transcrição de notícia  de interesse aparentemente muito particular. É que ela encerra um incomum gesto de amizade de Joel para comigo que não pode ser deixado sem registro mais atual. Malgrado sua debilidade física, Joel ainda participou ativamente das comemorações do centenário da morte de Euclides, concedendo entrevistas a jornais, rádios e emissoras de televisão. Dada a sua dependência às sessões de hemodiálise, não pôde viajar nem a Cantagalo nem a esta cidade, como seria o seu desejo.     Márcio José Lauria    

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