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"Temos que nos preparar para século XX há de ser o século da indústria e da ciência."
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Postado em: 26/02/2016

Os fazedores de desertos e a permanência do pensamento euclidiano - Guilherme Felice Garcia


OS FAZEDORES DE DESERTOS E A PERMANÊNCIA DO PENSAMENTO EUCLIDIANO   Prof. Guilherme Felice Garcia    Professor dos Ciclos de Estudos Euclidianos Professor em Ribeirão Preto, Ituverava, Franca e São Joaquim da Barra. (planetax1@gmail.com)       "Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos. Começou isto por um desastroso legado indígena. Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental – o fogo.”     Resumo: Observamos, em nossos dias, uma grande preocupação com a questão ambiental e por vezes pensamos erroneamente que nosso problema é atual, pois bem veremos que as preocupações com o meio ambiente remontam o início do século e que Euclides da Cunha foi um dos pioneiros a escrever e se preocupar com o tema.   Palavras-chave: ambiental, pioneiros, atual.   A citação acima se refere aos desertos provocados na região do nordeste com as queimadas praticadas de modo desastroso que, ao longo do tempo, foram devastando imensas áreas de "flora estupenda". Não foi ela extraída de algum manual de entidades ecológicas, entre tantas nacionais e internacionais que criticam a omissão brasileira na questão das queimadas havidas na floresta amazônica. Ela é de autoria de Euclides da Cunha, ao estudar "a terra" em seu livro "Os Sertões", cuja primeira edição apareceu em 1902. Em outro momento de Euclides vemos em “Contrastes e Confrontos” no texto “Fazedores de Desertos”. “Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto; esterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na a pontaços de alvião; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram, ao cabo, aqui, ali, por toda a banda, para sempre áridas, avermelhando nos ermos com o vivo colorido da argila revolvida, a£ catas vazias e tristonhas com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas... Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história.”     Em “Os Sertões” ele ainda conclui: “O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida. Nasce o martírio secular da Terra.” Euclides, já então no início do século, demonstrando certa perplexidade e amargura, apontava o absurdo das queimadas para abrir espaços para a atividade pastoril ou, "ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do ouro". Um século se passou e a prática do fogo continuou destruindo desordenadamente as florestas brasileiras, praticamente extinguindo a mata atlântica e agora, em proporções assustadoras, a própria selva amazônica que por mais campanhas que sejam feitas continua nas mãos das madeireiras, sem que o governo tome alguma providência enérgica ou pelo menos firme perante a questão. É brutal a omissão oficial a essa calamidade, cuja fumaça cega transeuntes, fecha aeroportos e dificulta a respiração de crianças, exatamente na região antes conhecida como o "pulmão do mundo", qualificativo que fora um orgulho para nós brasileiros. À omissão, aliam-se o absoluto desrespeito à vida, pela natureza e pelo mistério das matas virgens, com as milhares de vidas que sustentam, extintas, inapelavelmente, pelo fogo.Pois esses indivíduos que exploram madeira na Amazônia, não costumam chamar de "pau" uma árvore com dezenas de anos, exuberante, em vias de ser cortada para ser vendida às serrarias estrangeiras? Não a transformou em mera mercadoria? Em nossos dias, fala-se muito em ecologia nos discursos, nas solenidades simbólicas de plantio de árvores, nas escolas, mas, na prática, a realidade é dolorosa, assustadora e devastadora. As autoridades que poderiam reverter esse processo criminoso omitem-se, fecham os olhos ao se depararem com a fumaça das queimadas e se voltam para a política barata, ao supérfluo, às questões e interesses partidários, à vaidade, à tolice, ao lucro de podem ter. Há projetos de implantar o ensino permanente de ecologia nas escolas, de ordem que, no futuro, as crianças de hoje, cuidem da natureza, devotem mais amor por ela. Mas, o futuro já corre sérios riscos. O grave problema se verifica no presente. As ações devem ser tomadas agora, energicamente, de tal maneira que sobre algo para ser cuidado no futuro. Que valha a pena. Podemos observar que palestras como a do ex-vice presidente americano Al Gore, que esteve recentemente no Brasil, causam impacto no mundo todo, então por que no tomamos uma providência concreta sobre a questão? O desrespeito chegou ao insuportável. O despreparo das entidades oficiais em enfrentar tais crimes é desanimador. Chega a ser patético. As entidades não governamentais (ONGs), por sua vez, apenas denunciam e denunciam, mas não saem a campo em campanhas de protesto e de conscientização com folhetos explicativos debates na TV que tenham certo nível de credibilidade. E as queimadas abomináveis continuam. Há mais de vinte anos, a revista "O Correio da Unesco", reportava-se ao "Avanço do Deserto" na Terra, esclarecendo uma das reportagens: "Muitos acreditam que os desertos do Oriente Médio e da região mediterrânea foram criados pelo homem. Há dois ou três mil anos, as vertentes e as planícies do Líbano, da Síria, o litoral do Egito e da Tunísia eram cobertos por rica vegetação (lembremos os famosos cedros do Líbano) e forneciam a Roma grandes quantidades de madeira, cereais, azeitonas, vinho e outros produtos. O abate de árvores, a destruição das florestas e da vegetação herbácea e o pisoteio das pastagens, juntamente com a erosão pelo vento e pela água, transformaram esses territórios em semi-desertos".   Incluindo as queimadas que em muito aumenta a gravidade da tragédia, estamos seguindo exatamente essa receita. A de construirmos desertos na região mais exuberante do planeta: a Amazônia. Esse quadro desolador no "atacado", se manifesta também no "varejo" em todas as cidades. Árvores das ruas são cortadas indiscriminadamente, com a tolerância das autoridades, ora porque "fazem sujeira" com as folhas, porque dão sombra, porque danificam o asfalto e ora porque "esteticamente" incomodam o cidadão intolerante e insensato. E, sem qualquer reflexão, às centenas, as árvores vão sendo cortadas das ruas sem serem substituídas, permanecendo seu toco como um alerta à insensibilidade humana. E não só Euclides da Cunha se preocupou com o assunto, ao longo do século XX muitos cientistas, principalmente a partir da década de 1970 se preocuparam e denunciaram os problemas apontados acima sem que ninguém lhes desse crédito, como se os cientistas, pessoas que sabem o que dizem por conta de anos de estudos, fossem simplesmente lunáticos querendo provocar algum tipo de histeria coletiva. Observamos também que em razão do crescimento populacional, aumentaram as necessidades de consumo no mundo inteiro, o comércio reagiu, partindo com todas as forças para sua fonte de matérias-primas, ou seja, o meio ambiente. Mas se tudo isso é inevitável podemos pensar que o avanço científico e do uso de tecnologias deveria há muito tempo ter corrigido esse problema entre aumento da população e acesso aos recursos naturais, então voltamos a perguntar, onde estão as autoridades de país e do mundo que não atentam para o problema. Praticamente todos os países do mundo se comprometeram em Kyoto a tomar providências com relação ao aspecto global, sem que na verdade muitas dessas ações não saíssem do papel. Observem este outro trecho de “Fazedores de Desertos”: “As conseqüências repontam, naturais. A temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de insolação cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja ardência se transmite por contato aos ares, e determina dois resultados inevitáveis: a pressão que diminui tendendo para um mínimo capaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce, tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas”.   Vejam quão atual é o trecho de cem anos... Temos observado vários pontos do planeta com temperaturas inacreditáveis como em 2003 na Índia em que os termômetros chegaram a marcar 50°C, os furacões que passaram a assolar a costa sul brasileira a partir de 2003, 2004, façamos uma reflexão do passado e olhemos para o presente ou mesmo o futuro. Precisamos sim tomar providências, atitudes concretas, não podemos mais esperar as decisões governamentais, devemos trocar os velhos hábitos diários por novas posturas que tenham mais comprometimento com a atual realidade em que nos encontramos. Com novas tecnologias não podemos mais compartilhar de velhos hábitos, não podemos ver nossa extinção chegar sem que façamos algo concreto. É chegada a hora de olharmos para o futuro e para nossas crianças, de tal ordem que vivam num mundo mais respeitoso com a natureza. Que, ainda que numa mera poesia, se inspirem na simpatia que deve existir entre uma árvore e o homem. Entre os animais e os homens e entre estes e a água, um elemento vital e que hoje tanto nos preocupa. No que conta sobre a preservação das águas, são os discursos com as mesmices de sempre, promessas, decorrendo, ocasionalmente, medidas paliativas e modestas. No caso da fumaça das queimadas, fecham-se os olhos. No caso da água, tapam-se as narinas para não sentir o cheiro putrefato dos rios ou dos peixes mortos pela poluição. E como sentenciava Euclides em “Os Sertões” “Ou progredimos, ou desaparecemos”.   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   CUNHA, Euclides da. Os sertões, São Paulo: Publifolha, 2000. ________________. Contrastes e confrontos, ed. Record, 1975. ________________. Peru versus Bolívia, 1ª edição, Cultrix, 1975.   ________________. À margem da História, 1ª edição, Cultrix, 1975.

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