São José do Rio Pardo - domingo, 28 de maio de 2017
"Eu não tenho vocação para a espada, a arma que eu sei manejar é a pena."
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Postado em: 26/02/2016

"Os Sertões" na visão de Euclides - Márcio José Lauria


“Os Sertões” na visão de Euclides  -Márcio José Lauria       Publicar seu livro foi para Euclides da Cunha motivo de preocupações das mais diversas ordens. Lidar com a obra publicada, que fez dele um homem que se deitou obscuro e se levantou célebre, causou-lhe sérios problemas. Em suas cartas têm-se poucas notícias do que ele escreveu a respeito de sua produção maior. Pinçados aqui os trechos mais significativos de referências ao “livro vingador”, chamam a atenção algumas constantes:   1. O reconhecimento do inestimável apoio que lhe emprestou Francisco Escobar, seu confidente para o resto da vida.   2. As preocupações em face das possíveis críticas negativas à obra. Daí talvez o tom reverencial de suas palavras a José Veríssimo e a Araripe Júnior, os primeiros a se manifestarem na imprensa sobre Os Sertões.   3. O desejo de ver sua obra posta em francês, então a língua universal. Tratou do assunto antes mesmo de o livro estar publicado em português.   4. A expressão de certo orgulho recatado que lhe proporcionava o livro. Este sentimento é mais perceptível na sua correspondência com o pai.   5. O cumprimento da palavra empenhada, tanto no oferecimento, jamais retirado, de ceder a Pethion de Villar os direitos de versão para o francês, quanto no honrar compromisso verbal assumido cinco anos antes com José Augusto Pereira Pimenta, o copista que, nesta cidade, tornou legíveis para os tipógrafos os originais do livro. Tendo Euclides lucrado dois contos, cento e noventa e oito mil, setecentos e cinqüenta e dois réis  com a primeira edição de Os Sertões, enviou ao copista exatos dez por cento do apurado, quantia muito apreciável à época. Pethion de Villar  não se desincumbiu do projeto: a primeira versão francesa deve-se a Mme. Sereth-Neu, que residia no Rio de Janeiro. Não alcançou maior repercussão internacional, mesmo porque impressa no Brasil já na década de 40, quando a língua francesa  perdera muito de seu  prestígio cultural. SINCERIDADE   “Por isto o meu livro sobre a interessantíssima luta nos sertões da tua terra ainda não apareceu. Está, porém, agora, definitivamente pronto e ainda que seja o primeiro a considerá-lo lardeado [= entremeado, intercalado] de defeitos sérios, entre os quais avulta certa falta de unidade oriunda das condições em que foi escrito, tem, preponderante, uma qualidade que o nobilita – a sinceridade com que foi traçado”. (A Pethion de Villar; São José do Rio Pardo, 15-5-1900)   NASCIMENTO   “O meu livro vai muito regularmente. Ainda hoje respondi a carta do Laemmert [seu editor, do Rio de Janeiro] – sobre o papel a empregar. Tenho já revisto algumas provas. Não estará pronto no fim deste [mês] conforme o contrato”. (A Francisco Escobar; Lorena, 10-4-1902)   HOMENAGEM AO AMIGO   “Pretendo levar-te as primeiras páginas, já definitivamente impressas, do meu livro”. ( A Francisco Escobar; Lorena, 14-5-1902)   PREVISÃO DE SUCESSO   “Venho do Rio, onde fui – celeremente, de um noturno a outro, - para conversar com o Laemmert e saber o dia que, afinal, ficará pronto o meu encaiporado [= azarado, complicado] livro. Felizmente os frios alemães receberam-me num quase entusiasmo, e, quebrado o antigo desalento, quase prevêem  um sucesso àquelas páginas despretensiosas. / Apresso-me em dar-te a notícia  porque foste o meu melhor colaborador neste ermo de São José do Rio Pardo”. ( A Francisco Escobar; Lorena, 10-8-1902)   RECEIO DE   CRÍTICAS INJUSTAS   “Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus Os Sertões; fui lê-lo com mais cuidado  - e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente... Um horror! (...) Que isto dizer que estou à mercê de quanto meninote erudito brune [= lustra, dá brilho a]  as esquinas; e passível da férula [= crítica] brutal dos terríveis gramatiqueiros  que passam aí os dias a remascar [= remoer] preposições  e a disciplinar pronomes!”. ( A Francisco Escobar; Lorena, 19-10-1902)   ALÍVIO COM A PRIMEIRA CRÍTICA   “Ao ler no Correio de ontem notícias de seu juízo crítico sobre “Os Sertões”, tive, renascida, uma velha comoção que já supunha morta – a do calouro, nos bons tempos passados, em véspera de exame. E não era para menos, dada a competência do juiz. Felizmente este foi generoso”. (A José Veríssimo; Lorena, 3-12-1902)   SINCERIDADE DE PENSAR   “Quanto ao seu juízo sobre os “Sertões”, tenho-o, e não preciso dizê-lo, na mais alta conta. Sinto-me verdadeiramente feliz notando que o meu livro, em que a sinceridade de pensar substitui outros requisitos que  não possuo, vai cativando a simpatia dos melhores espíritos e dos melhores corações. Junto por isto a sua carta a outras que aqui estão, formando a melhor crítica ao meu trabalho”. (A Gastão Cruls; Lorena,17-2-1903)   COMPENSAÇÃO   “Felizmente, de vez em quando lá vem uma compensação a esta vida pouco invejável. Ontem, por exemplo, recebi uma carta do Laemmert declarando-me que é obrigado a apressar a 2.ª edição, já em andamento, d’Os Sertões, para atender a pedidos que lhe chegam até de Mato Grosso – e aos quais não pôde satisfazer por estar esgotada a 1.ª   Isto em dois meses!”. (A seu pai; Lorena, 19-2-1903)   VENCEDOR SEM PATRONOS   “A opinião do grande chefe monarquista [Visconde de Ouro Preto] é esta: Os Sertões são o único livro digno de tal nome, que se publicou no Brasil depois de 15 de novembro. (...) Venci por mim só, sem reclames, sem patronos, sem a Rua do Ouvidor [símbolo da vida sociocultural do Rio de Janeiro] e sem rodas”. (A seu pai; Lorena, 25-2-1903) RECRUTA TRIUNFADOR   “O Jornal era esperado. Às dez horas da noite, tinha-o lido quase toda a roda literária paulista, e às dez e meia eu saí da redação do Estado de São Paulo com o enorme estonteamento de um recruta transmudado repentinamente num triunfador”. (A Araripe Júnior; Lorena, 9-3-1903)   PAGANDO O DÍZIMO AO CALÍGRAFO   Recebi afinal a carta do Laemmert – e tenho presente a ordem de Rs.2:198$75 – líquido que coube da 1.ª edição dos “Sertões”. À vista disso escrevi hoje ao José Augusto, pedindo-lhe dizer-me para onde enviar a quantia de  219$875, que lhe é devida pelo nosso trato verbal”. (A Francisco Escobar; Lorena, 26-4-1903)   SONHO IRREALIZADO   “E venho lembrar-te de uma velha promessa, feita aí, quando os “Sertões” eram apenas um projeto: traduzi-lo em francês. Se quiser fazê-lo cedo todos os direitos, abrindo mão de todos os lucros materiais que disto me possam advir; e estou pronto a firmar qualquer compromisso escrito, nesse sentido”. ( A Pethion de Villar; Lorena, 6-12-1903)   O GRANDE NETO   “Em todos os portos onde saltei [= desci do navio] fui gentilmente recebido graças à influência de seu grande neto Os Sertões. Realmente nunca imaginei que ele fosse tão longe”. (A seu pai; Manaus, 30-12-1904)   SAUDADES DO RIO PARDO   “Que saudades do meu escritório de folhas de zinco e sarrafos, da margem do rio Pardo! Creio que se persistir nesta agitação estéril não produzirei  mais nada de duradouro. Já fiz dois livros e não sei sair, e ainda sou o autor, dos quantos artigos depois d’Os Sertões!  Precisamos conversar sobre estas coisas”. ( A Francisco Escobar; Rio de Janeiro, 8-4-1908)   SEU ÚNICO LIVRO   “Pede-me que lhe mande Os Sertões, mas preciso dizer-lhe antes  que não o enviei espontaneamente porque este livro bárbaro da minha mocidade, monstruoso poema de brutalidade e de força, é destoante da maneira tranqüila com que considero hoje a vida, que a mim mesmo às vezes custa entendê-lo. De qualquer modo, é o primogênito do meu espírito, embora críticos audazes afirmem ser o meu único livro... Será verdade? Custa-me, contudo, admitir que tenha chegado com ele a um ponto culminante, ficando todo o resto da existência para descer esta altura. Depois de o ler, diga-me, ilustre amigo, se estarei condenado a destino tão pouco desejável”. [Obs.: Esta carta possui variantes de redação.] ( A Agustín de Vedia; Rio de Janeiro, provavelmente em outubro de 1908)   PARENTE MAIS VELHO   “O Inferno Verde agitou um pouco o sangue-frio destes batráquios, porque é um parente mais novo e mais vivo d’Os Sertões. Disse-o o grande mestre Araripe Júnior; e o parecer do nosso único ensaísta, escandalizando furiosamente a cabotinagem covarde, encheu-me do mais justificado orgulho”. ( A Alberto Rangel; Rio de Janeiro, 28-9-1908)   Breve notícia sobre os destinatários:     PETHION DE VILLAR -  nome literário de Egas Moniz Barreto de Aragão. Escritor simbolista baiano.   FRANCISCO ESCOBAR – intendente de São José do Rio Pardo à época da passagem de Euclides pela cidade. Foi seu grande incentivador.   JOSÉ VERÍSSIMO (DIAS DE MATOS) – crítico literário, historiador e ensaísta. Autor de uma História da Literatura Brasileira.   GASTÃO CRULS – romancista e contista. Autor de A Amazônia Misteriosa.   MANUEL RODRIGUES PIMENTA DA CUNHA – pai de Euclides.   (TRISTÃO DE ALENCAR) ARARIPE JÚNIOR - crítico e romancista cearense.   AGUSTÍN DE VEDIA – escritor argentino.   ALBERTO RANGEL – escritor brasileiro, autor de Inferno Verde, prefaciado por Euclides da Cunha.       Márcio José Lauria    

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