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Postado em: 29/02/2016

Cabeças-de-frade - Léa Costa Santana Dias


Cabeças-de-frade:       “A terra”, a primeira parte de Os sertões, é considerada por vários estudiosos como um espécie de índice narrativo dos capítulos das partes seguintes. Segundo Walnice Nogueira Galvão, “os capítulos da luta (...) deflagram retroativamente as duas partes iniciais, onde se encontram sistemas de metáforas que prefiguram aquilo que vai ser episódio de crônica da guerra” (1994: 626). Segundo Leopoldo Bernucci, “A Terra” é   matriz geradora de núcleos narrativos a serem desenvolvidos ou expandidos nas partes ulteriores, “O homem” e “A luta”. Neste sentido, por exemplo, “A terra” tem uma incomum capacidade antecipadora de articular certas cenas narrativas e de formular um conjunto de idéias lançadas ou sugeridas no começo do livro e que são retomadas mais tarde em outras páginas da obra-prima de Euclides (2001: 16).   Segundo Roberto Ventura,   a paisagem é vista, em ‘A terra’, (...), como cenário trágico, que antecipa de modo simbólico a decapitação dos prisioneiros. A vegetação da caatinga permitiria antever a degola dos sertanejos, que se converte em tragédia inscrita na própria natureza (2002: 452).   Assumem essa função os cabeças-de-frade – “deselegantes e monstruosos melocactos de forma elipsoidal, acanalada, de gomos espinescentes, convergindo-lhes no vértice superior formado por uma flor única intensamente rubra”. Estes, segundo Euclides,   aparecem, de modo inexplicável, sobre a pedra nua, dando, realmente, no tamanho, na conformação, no modo por que se espalham, a imagem singular de cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica (Cunha, 2001: 124).   Como metáfora da barbárie, o signo remete à selvageria cometida pelos jagunços – atos que podem ser entendidos como o renascimento da barbaridade de povos antigos, que se acreditava extinta:   Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas... A caatinga mirrada e nua, apareceu repentinamente desabrochando numa florescência extravagantemente colorida no vermelho forte das divisas, no azul desmaiado dos dólmãs e nos brilhos vivos das chapas dos talins e estribos oscilantes... Um pormenor doloroso completou esta encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo. Era assombroso... Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca (Idem, p. 492-3).   Por terem sido praticadas pelos jagunços, vistos como se estivessem três séculos distantes da civilização (Idem, p. 317), essas cenas eram, até certo ponto, compreensíveis. No entanto, conforme observações de Miriam Gárate, como não há linearidade no texto, o quantum de barbárie encarnado pelo signo cabeças-de-frade, “traslada-se de campo, gira sobre seu eixo e interna-se nas trincheiras do exército-republicano-civilizador” (Gárate, 1993: 64). A barbárie cometida pelos jagunços também passa a ser cometida pelos soldados republicanos. Estes, quando capturavam uma vítima, muitas vezes lhe impunham   um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão (Cunha, 2001: 726).   O sacrifício a faca era, sem dúvida, ainda mais cruel, pois “o supremo pavor dos sertanejos era morrer a ferro frio, não pelo temor da morte senão pelas suas conseqüências, porque acreditavam que, por tal forma, não se lhes salvaria a alma” (Idem, p. 730). Para Euclides, esses requintes de crueldade praticados pelos representantes da civilização, bastante corriqueiros em Canudos, eram “uma inversão de papéis”, “uma antinomia vergonhosa” (Idem, p. 732). Deles decorre a denúncia:   (...). Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a vingança. Dente por dente. Naqueles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira César, queimado; devia-se queimar. Adiante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se degolar (Idem, p. 734).   A imagem da degola, que percorre todo o discurso, culmina com a cena profanatória: a degola do cadáver do Conselheiro. E, conforme Miriam Gárate, “quando os homens são degolados em nome da ‘civilização’, as idéias não permanecem incólumes. Elas também vergam” (Gárate, 1993: 66). No instante final da guerra, consolidou-se o encontro definitivo do narrador com o outro que desnorteia – representado, simultaneamente, pelos homens do sertão, bárbaro eincivilizado, e pelos defensores da República, civilizada e moderna. Em conseqüência, muitas idéias e conceitos de Euclides tiveram que ser abandonados ejogadas a esmo, como os cabeças-de-frade... A imagem metáfora da degola também se presta a outra função: prenunciar a atitude do narrador diante de suas próprias crenças. Antes mesmo que a primeira cabeça humana fosse decapitada, a imagem já aparecera no discurso. Antes que o leitor pudesse antever as mudanças de perspectiva empreendias pelo autor, já se apresentava uma imagem capaz de prenunciá-las.       Referências bibliográficas   BERNUCCI, Leopoldo M. (2001). Prefácio. In: CUNHA, Euclides da. Os sertões. 2. ed., São Paulo: Ateliê Editorial, Imprensa oficial do Estado, Arquivo do Estado, p. 13- 49. (Edição, prefácio, cronologia, notas e índices Leopoldo M. Bernucci). CUNHA, Euclides da (2001). Os sertões. 2. ed., São Paulo: Ateliê Editorial, Imprensa Oficial do Estado, Arquivo do Estado, 928p. (Edição, prefácio, cronologia, notas e índices Leopoldo M. Bernucci). DIAS, Léa Costa Santana (2002). Poesia e reconstrução no percurso discursivo de Os sertões. In: Revista Canudos. Salvador, UNEB / CEEC, ano 7, nº 6/7, p. 135-144, jan./dez. DIAS, Léa Costa Santana (2002). Viagens e pontes, fendas e fraturas: perspectivas d’Os sertões, de Euclides da Cunha. In: Tribuna Feirense. Feira de Santana, domingo, 01 de dezembro, Cad. Cultural, ano 1, nº 20, p. 6, Col. 1-6.  DIAS, Léa Costa Santana (2003). Os sertões em diálogo: caminhos e descaminhos de um Anteu indomável. In: www.casaeuclidiana.org.br, 29 de janeiro. DIAS, Léa Costa Santana (2003). O (des)tecer de enredos: uma leitura d’Os sertões, de Euclides da Cunha. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 134p. (Dissertação de Mestrado). GALVÃO, Walnice Nogueira (1994). Euclides da Cunha. In: PIZARRO, Ana. (org.). América Latina: Palavra, Literatura e Cultura. São Paulo: Memorial; Campinas: UNICAMP, v. 2, p. 615-33. GÁRATE, Miriam V. (1993). Civilização e barbárie n’Os sertões; o itinerário de uma desilusão. In: Remate de males. Campinas: Departamento de teoria literária – IEL / UNICAMP, n. 13, p. 57-66. VENTURA, Roberto (2002). Euclides da Cunha no vale da morte. In: FERNANDES, Rinaldo de (org.). O clarim e a oração; cem anos de Os sertões. São Paulo: Geração Editorial, p. 439-59. Léa Costa Santana Dias é graduada em Letras – CESVASF (PE), especialista em Estudos Literários (UEFS) e mestra em Literatura e Diversidade Cultural  (UEFS)

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