São José do Rio Pardo - domingo, 28 de maio de 2017
"Viver é adaptar-se."
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Postado em: 29/02/2016

Euclides, Augusto dos Anjos e as Mazelas da República- Maria Olívia Garcia Ribeiro de Arruda


Euclides, Augusto dos Anjos e as Mazelas da República       Maria Olívia Garcia R.Arruda 21/01/2004 ´Vocês que fazem parte dessa massa Que passa nos projetos do futuro É duro tanto ter que caminhar E dar muito mais que receber E ter que demonstrar sua coragem À margem do que possa parecer E ver que toda essa engrenagem Já sente a ferrugem lhe corroer Ê ô ô vida de gado Povo marcado ê. Povo feliz Ê ô ô vida de gado...´                                                                   (Admirável Gado Novo - Zé Ramalho)       Após alguns dias de merecidas férias rodando por aí  afora, voltei  mais consciente ainda da enorme diferença que  há entre nossas regiões. Não se trata, porém, apenas da  pluralidade cultural, de que tanto se fala ultimamente, mas  do atraso e da miséria que aumentam assustadoramente neste  país. Lembrando a data natalícia de Euclides da Cunha, dia 20  p.p., gostaria de refletir um pouco a respeito de algumas  denúncias que ele e outro grande escritor fizeram na época e  que servem também para os dias de hoje. Não que eu entenda de  política, mas confio na visão daqueles que souberam detectar  nossas mazelas logo no início.  No período de transição do Império para a República,  homens como Euclides e Augusto dos Anjos  revelaram  claramente onde se encontravam as raízes dos males que  degeneraram o sistema. Euclides denunciou a opressão, os  desmandos e se decepcionou com a República, que fora um ideal  pelo qual lutara em sua juventude e em que depositara suas  esperanças de um país mais justo e civilizado. Comprovam-no  seus artigos e sua correspondência.  Augusto vai um pouco além: com uma poesia cheia de símbolos,  que confunde o leitor,  mas com uma prosa direta e agressiva,  embora empolada,  tenta mostrar a ganância e a  superficialidade de uma classe dominante que se preocupava  apenas com coisas fúteis e efêmeras, soterrando os valores  mais nobres do ser humano. A intenção de Augusto - que torna  sua obra atualíssima -  parece ser mesmo alertar as pessoas  para a brevidade daquilo que elas elegem como objetivo de  vida, numa tentativa de despertar atitudes de regeneração e  restauração de valores essenciais.  Muitos falaram sobre os dois escritores, bem poucos  procuraram mergulhar em seus textos para compreender-lhes a  mensagem profunda. Considero-os, porém, os grandes humanistas  da época, talvez até por terem sido vítimas do próprio  sistema.   Augusto e Euclides  possuem semelhanças incríveis em suas  biografias: dificuldades para a sobrevivência com a profissão  de escritor, a tristeza de serem obrigados a abraçar  carreiras que se tornavam fatigantes e não estavam de acordo  com suas vocações; a saúde frágil,  a constante insegurança  financeira, que lhes obrigava a freqüentes mudanças  de  residências e, por fim, a morte antecipada. O poeta do ´Eu´,  pela doença - que até hoje se discute se foi pneumonia,  conforme o laudo médico, ou tuberculose -  e Euclides, pela  forma trágica que buscou. Além disso, quando os dois   conseguiram um emprego seguro, já lhes sobrarava pouco tempo  de vida.  Euclides, como professor no Rio de Janeiro e  Augusto como diretor de um grupo escolar, em Leopoldina,  Minas Gerais. O primeiro faleceu em 1909, como sabemos; o  segundo, em 1914. São tantas as coincidências que tive a  ousadia  de iniciar um estudo comparado desses gênios da  literatura e do pensamento humano.             É claro que hoje, neste artigo, esboçarei apenas  algumas idéias de ambos,  que parecem esclarecer um pouco as  razões das sucessivas crises que têm assolado nosso Brasil.  Gostaria de começar lembrando que a Sociologia traça  um conceito de ´Homem´ considerado por Euclides tão utópico  que só poderia ocorrer após um  aperfeiçoamento ´excessivamente remoto´ , só atingido quando  houvesse a união de todas as crenças e tradições, quando a  humanidade se tornasse, enfim, uma ´grande família´. É o que  ele diz em ´Homens de Hoje´. As idéias de Augusto não se  diferem muito: em suas Crônicas Paudarquenses, defende que,  num futuro distante, chegaria, enfim, a hora da ´morte das  hierarquias intelectuais´, da queda das barreiras  sociais e,  através da concórdia amorosa, a humanidade atingiria a  perfeição. Ambos defenderam fervorosamente o amor  desinteressado à pátria, atitude que já preconizava também  uma sociedade comandada apenas por interesses individuais, ou  de pequenos grupos. Se analisarmos um pouco a questão,  perceberemos que as civilizações ainda estão muito distantes  de concretizar esse ideal de ´ser´ humano... Neste mundo  extremamente capitalista, mais do que nunca o homem  tem  sido  o lobo do próprio homem.  Euclides deixou trechos bastante interessantes a  respeito do sistema político que então se instalava, como a  definição do senador Francisco Otaviano, que via a política  como a  ´... messalina histérica de cujos braços sai-se  corrompido.´  O poeta do ´Eu´, por sua vez, fala-nos das  inutilidades que avançavam, enchiam ´a lotação dos bondes´,  logravam ´na partilha dos lucros sociais as maiores  prebendas´ e promoviam ´sarabandas governamentícias´, ou  seja, enormes estardalhaços nas campanhas políticas.               O autor de ´Os sertões´, em sua correspondência  ao cunhado, em 1909, afirma: ´Estamos no período hilariante  dos grandes homens-pulhas (...)  em cada degrau da Secretaria  um salvador das instituições e da Pátria. Da noite para o dia  surgem não sei quantos imortais... ´ E nenhum dos dois pré- modernistas  conhecia o poder do autor de ´Marimbondos de  Fogo´, nem a força de manipulação da mídia na era da  tecnologia!  ´É asfixiante!´ - continua Euclides -´A atmosfera  moral é magnífica para batráquios.´ E Augusto complementa-o,  denunciando que as classes dirigentes empenhavam-se em  movimentar ´a máquina dos trabalhos ávidos, para a colheita  das fortunas.´ Esclareça-me, caro leitor: alguma coisa mudou?  Engana-se quem pensa que só nos tempos atuais é que a  honestidade saiu de moda... A atitude é antiga, vem daquela  virada para o século XX, como percebemos nos textos que nos  deixaram esses consagrados escritores: ´A turba dos  aduladores impropriou para tais lutas os sinceros e os  dignos´, reclamava Euclides. O caráter, então, apresentava-se  como um ´candidato à ruína´, conforme Augusto dos Anjos, e  o ´homem de bem´ tornara-se motivo de zombaria, ´uma figura  de manicômio´... E hoje? O quanto se reconhece o valor de um  trabalhador honesto? O que lhe sobra após uma vida toda  dedicada ao serviço à comunidade? Mas a República seguiu em frente, com a fila  de ´cavadores´ de postos públicos engrossando cada vez mais,  abrindo espaços sempre maiores para os que conseguiam dar um  jeitinho em tudo... E resultou no que conhecemos hoje: um  país de imensas possibilidades desperdiçadas, pois a maioria  da população não lê, não pensa, não escreve - como já dizia  Euclides naquela época - e não  luta por uma efetiva mudança  no sistema.  Mas a miséria provocou a construção gradual e  silenciosa de um universo paralelo, em que as pessoas vão  trocando a ameaça de desemprego e da fome pela venda de  drogas, pela prostituição e pela violência - um submundo  baseado na lei do mais forte, que tem  acuado cada vez mais  os ´homens de bem´ e invadido rapidamente a nossa realidade.  Que ninguém se julgue livre do risco de ser a próxima vítima!  Que ninguém pense em soluções enquanto uma parcela da  população continuar acomodada, indiferente, ignorando a  situação desses milhões de brasileiros marginalizados, que  não enxergam outras opções!  Nem momentaneamente, nem em curto prazo virá uma  solução satisfatória...  O mal é antigo, arraigado fortemente  em nossas instituições. ´Destruir no organismo social o  tóxico lentamente infiltrado é aplicar os antídotos violentos  dos casos desesperados´, avisa Euclides. Precisamos de ações  efetivas, de menos discursos construídos ao gosto do ouvinte  e de mais atitudes precisas, geradoras de resultados  animadores. Que se diminuam gastos com propagandas que não  correspondem à realidade de nossa vida política... O  incentivo à cultura deve ser real, não apenas uma imagem  comercializada. A responsabilidade é, sim, muito grande dos  que chegam ao poder e maior ainda de quem tem condições de  esclarecer os que não percebem as entrelinhas. Só criando  cidadãos conscientes mudaremos o destino do país.  Sei que tudo isso já é muito batido, no entanto causa  tristeza concluir que palavras escritas no início do século  passado ainda retratam a realidade brasileira, como as de  Augusto: ´Digam o que quiserem, a República, entre nós,  desmentiu todos os sonhos  biferais e cuspiu nos ensinamentos  de seus idealizadores, como Silva Jardim.´ Também não desejo chegar a um pessimismo como o de  Euclides, a ponto de considerar que ´a nossa raça (?) está  liquidada. Deu no que podia dar:  a escravidão, alguns atos  de heroísmo amalucado, uma república hilariante e por fim o  que aí está - a bandalheira sistematizada.´ Quero, sim, acreditar que o povo brasileiro é  composto, em sua maioria, por pessoas que lutam e que só  necessitam de melhores oportunidades para mostrar o grande  potencial criativo que trazem adormecido... Que é um povo  realmente diferente dos europeus ou de qualquer outro povo  estrangeiro, pois o brasileiro é a soma de culturas diversas,  é muito mais alegre e descontraído, talvez até menos  ambicioso e não se pode ignorar suas características  peculiares, tentando impingir-lhe modelos de projetos mal  copiados do exterior, que só fazem destacar-lhe os problemas,  em vez de valorizar-lhe as qualidades.            Por este motivo é que todo cidadão consciente deve  dar a sua parcela de dedicação, da maneira que lhe for  possível, à disseminação da cultura, da educação e à luta  pelo direito que todo ser humano tem de satisfazer dignamente  as suas necessidades básicas, de não ser obrigado a viver  como um animal que se atira sobre a presa inocente, movido  pelo instinto de sobrevivência.   Não se esqueçam, caros leitores, honestos  trabalhadores: cada um de nós está, atualmente, muito mais  para caça do que para caçador!  BIBLIOGRAFIA: ANJOS, Augusto. Obra copmpleta. Organização, fixação do texto  e notas Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S/A, 1996; CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova  Aguilar, 1995. v.I. Digitalizado e revisado por Juan Carlos  Pires de Andrade, in http://www.euclidesite.com.br ; CUNHA, Euclides. Correspondência. Org. Walnice Nogueira  Galvão e Oswaldo Galotti. 

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