São José do Rio Pardo - sexta, 24 de novembro de 2017
"O sertanejo é antes de tudo um forte, não tem o raquitismo exaus­tivo dos mestiços do litoral."
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Postado em: 29/02/2016

Euclides da Cunha de volta ao Peru - Ieda Magalhães Ramon


EUCLIDES DA CUNHA DE VOLTA AO PERU       EUCLIDES DA CUNHA DE VOLTA AO PERU   Nos dias 4 e  7 de novembro estive em Arequipa (cidade no sul do Peru) em um Congresso “ALAS – Asociacion Latino Americana de Sociologia” na Universidade de San Agustín onde apresentei um trabalho sobre Euclides da Cunha. Na data da apresentação de meu simpósio intitulado “Brasil e hispano-america frente a la crisis globalizada – relaciones, problemas y posibilidades”, o autor que pesquiso  voltou ao Peru por meio de minha fala de título “Amazônia e a integração ao Pacifico. Euclides da Cunha no centro da história.” – país estudado e bem conhecido “in locu” por ele (cuja parceria com o  Barão do Rio Branco conseguiu dirimir a questão mais belicosa em se tratando de fronteiras que o Brasil já teve). Essa mesa de trabalho esteve composta por uma mexicana e mais uma brasileira e os temas enfocados inexoravelmente deveriam tratar das relações do Brasil com os países hispano-americanos. A origem do meu trabalho está nos estudos amazônicos de Euclides concernentes ao Peru, desse modo imagino deva ter interessado o público já que nesse  ano o Congresso foi realizado nesse país.    No príncipio de minha fala expus o fato:  Euclides da Cunha É mais conhecido pela sua obra “Os Sertões”, enquanto que os seus trabalhos amazônicos, igualmente ricos, ainda têem poucos frutos se comparados ao que lhe deu consagração. Detive-me principalmente na obra “À Margem da História” pois ali encontro as hipóteses que busco comprovar, são atuais. Ademais, é o referencial teórico no qual me debruço e defendo estar a contemporaneidade do pensamento de Euclides da Cunha. Resumidamente a apresentação revelou o autor que no início do século passado  esteve no Peru e já demonstrava se preocupar com a questão da integração, com as políticas públicas de infra-estrutura, almejando a união física do Brasil em relação aos países que nos separam do Pacífico. Hoje, tema muito em pauta nas negociações entre o Brasil e as nações hispânicas avizinhadas. O Brasil cuja extensão e posição econômica se coloca como um líder sul-americano vem demonstrando diálogo constante com esses países. A reunião  de 24 de agosto de 2003 em Lima com a presença do presidente Lula e Alejandro Toledo do Peru, evidenciou que o Brasil quer uma integração com os países andinos, e em especial com esse país. Nessa visita do presidente Lula o que se articulava era fechar um acordo comercial entre o Peru e o Mercosul “uma fatia de um desenho cujo ponto de chegada é construir o que seria o quarto pólo econômico mundial”. (Rossi, C. Acordo quer tornar região 4º.  pólo mundial. FSP, São Paulo: 24 ago. 2003. Brasil. p. A16; e Wassermann, R. Para andinos, bloco tem “grande potencial”, p. A17).  E só se realizará com obras de infra-estrutura, pagas com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento,  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Corporação Andina de Fomento – uma espécie de BNDES andino, segundo o secretário geral da Comunidade Andina (CAN), Guilhermo Fernández de Soto.  No artigo Viação sul-americana  (Cunha, p.85, 1999) evidencia-se o desejo do autor de projetar o Brasil numa perspectiva intercontinental o que, sem dúvida, têm grande atualidade. O “Primado do Pacífico” e  a “Transacreana” tratam de lugares que hoje são estratégicos (e Euclides já antevia e escrevia sobre isso) e estão geopoliticamente na mira de interesses do sistema-mundo. No primeiro, “a geografia prefigura a história” (Cunha,p.130, 1999) podemos dizer que é, e nos dias de hoje com especial acento, uma lição geopolítica de maior evidencia como diz em outro ensaio a imagem é bastante sugestiva. A guerra do Iraque não tinha o propósito de levar a democracia mas ser um entreposto petrolífero no Oriente médio, a geografia de fato conduz a história. No mesmo ensaio observamos a permanência das práticas de domínio dos EUA denunciadas pelo autor:   “Realmente, quando os Estados Unidos conseguiram em 1898 que a Espanha dessangrada, lhes cedesse as três mil ilhas das Filipinas, a sua política deslocou-se para o Pacifico, extremando-se em dois objetivos preponderantes. De um lado, adita às tradições nacionais, repeliu a idéia de uma conquista, proclamando que a tutela sobre os países recém-adquiridos perduraria o tempo necessário ao tirocínio dos filipinos no seu aparelharem para o próprio Governo. De outro, submetida às exigências da expansibilidade industrial, reavivou o antigo anelo do primado mercantil no grande oceano, erigindo o novo território em base de operações garantidora da presidência comercial do levante (...)”(Cunha,p.128, 1999)   A importância do oceano Pacífico para o comercio mundial é demasiado crescente, e na previsão de Euclides aborda a emergência dos mercados orientais “por onde a civilização caminhará, tentando ultimar o circuito da terra, ou por onde refluirá, arremetente, o mundo asiático despertado de uma letargia milenária, pelo rejuvenescimento do Japão”. (Cunha,p.132, 1999). Hoje a confluência de interesses, com mais intensidade ainda, convergem para esse oceano onde estão países cruciais para a economia e comercio mundiais, desenvolvidos por Japão, China e Tigres asiáticos. E mais uma vez Euclides em outro texto Entre o Madeira e o Javari (Cunha, OC, 166, 1966) :   “onde mais cedo ou mais tarde se há de concentrar a civilização do globo, a Amazônia, mais cedo ou mais tarde, se destacará do Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como se despega um mundo de uma nebulosa – pela expansão centrífuga de seu próprio movimento”   E uma saída para o Pacífico seria indispensável para o desenvolvimento do Brasil e dos demais países envolvidos. Foi o que fizeram os EUA e não só com o intuito de:   “ligar, linearmente, um litoral a outro, para o só transporte de passageiros e de cargas. Torna-se-lhe urgente [aos EUA] deslocar para o Pacífico o melhor das energias nacionais, nascentes nas mais distantes zonas do país”. (Cunha, p.124, 1999)   Esses recortes comprovam que suas preocupações se debruçam sobre temas cruciais: Amazônia, relações internacionais, Pacífico, desenvolvimento e políticas públicas.  Em “A Transacreana” também nos sentimos a vontade para dizer que essa região continua fundamental como defendia Euclides e portanto, tem atualidade seu pensamento pois esse artigo marca a sugestão da efetivação de políticas públicas para a região relacionadas com a integração física. É no Acre que existe a ponte que une o Brasil ao Peru e como venho acompanhando é por ali que o Brasil encontrará uma saída ao Pacífico pelos portos do sul do Peru por onde poderá ser exportada toda produção de soja do centro oeste brasileiro. Nesse trabalho o autor descreve  uma via férrea “urgente” no ainda “Território” do Acre. Euclides oferece todo seu traçado, devendo ser construída de modo oblíquo, fugindo à navegação que, nessas áreas, é expressiva pela presença dos rios Javari, Madeira, Purus e Juruá. Dizia:- a estrada de Cruzeiro do Sul ao Acre não irá como as do sul do nosso país, justapondo-se à diretriz dos grandes vales, porque tem um destino diverso. Estas últimas, sobretudo em S. Paulo, são tipos clássicos de linhas de penetração: levam o povoamento ao âmago da terra. Naquele recanto amazônico esta função, como vimos, é desempenhada pelos cursos de água. À linha planeada resta o destino de distribuir o povoamento, que já existe. É uma auxiliar dos rios. Corta-lhes, por isto, tranversa, os vales.  (Cunha, p.78, 1999)   Tece considerações para que se estabeleçam obras de infra- estrutura, como a construção de ferrovias, colocando-as como de importância crucial, poder-se-ia estratégicas,  por envolver uma região “triparte” – Brasil, Peru e Bolívia. Essa visão é demonstrada com aptidão sociológica, ao dizer:- “além disto, o que se deve ver naquela via férrea é, sobretudo, uma grande estrada internacional de aliança civilizadora, e de paz” (Id.ib. p.84). Necessário dizer que Euclides tem interesse especial pelo Peru, mas não se limita a ele. Por exemplo, conclui já em outro artigo:   “(...) transpondo as cabeceiras navegáveis do Guaporé e Chimaré, prosseguindo para Oruro (Bolívia), ponto forçado da Pan American Railway, e para La Paz, de onde derivará pela estrada de Arica (Chile), o Brasil se aproximará consideravelmente do Pacífico.”( Ibid. p.100).   Essa passagem ilustra a preocupação sempre presente do autor com o Pacífico.   Esses foram alguns elementos contemplados no simpósio retirados à partir da originalidade de um pensador entre os mais importantes para o país, e que reviveu estar no Peru pelas minhas palavras, somente possíveis, por ter em mãos um clássico sumamente pertinente com contínua ação para as ciências no Brasil. P.S.: A recepção às suas idéias amazônicas causou surpresa na Coordenadora de Pós graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reação comum em muitos quando digo que estudo os sertões alagadiços e não os sertões do semi árido euclidiano.    Ieda Magalhães Ramon      

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