São José do Rio Pardo - quinta, 30 de março de 2017
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Postado em: 29/02/2016

Euclides da Cunha: um construtor de pontes - Léa Costa Santana Dias


Euclides da Cunha: um construtor de pontes       Euclides da Cunha: um construtor de pontes   Léa Costa Santana Dias1   Após o término da guerra de Canudos, Euclides da Cunha resolveu passar alguns dias descansando na fazendinha do pai, em Descalvado, antes de retornar às atividades de engenheiro na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Em 23 de janeiro de 1898, ocorreu o desabamento da ponte metálica de São José do Rio Pardo. O acontecimento, embora não responsabilizasse o engenheiro, envolvia-o de certo modo, uma vez que a cidade onde fora erguida a ponte estava localizada na região da qual ele era o engenheiro fiscal. Essa circunstância, aliada à repercussão do fato na imprensa de todo o Estado, levou-o a partir para São José do Rio Pardo, com a missão de conduzir as obras de reconstrução (Andrade, 1966: 155). A fim de garantir o bom andamento dos trabalhos pelos quais se responsabilizara, mudou-se com a família para esta cidade, em março de 1898, e dedicou três anos à tarefa, executando-a com rigor técnico e econômico (Idem, p. 162). Nesse intervalo, escreveu a maior parte de Os sertões, encontrando, na cidade tranqüila do oeste paulista, não só a pausa de que tanto precisava para dedicar-se ao livro, como também as condições favoráveis à sua elaboração: “a calma ambiente, a cooperação desinteressada, o alento indispensável aos inevitáveis momentos de desânimo que a obra acarretaria” (Andrade, 1967: 84) e, sobretudo, a assistência de intelectuais locais como Lafayette de Toledo, Adalgizo Pereira, José Honório de Silos, Valdomiro Silveira e Francisco Escobar, que lhe abriu sua biblioteca particular e se encarregou de buscar os livros dos quais precisasse (Abreu, 2002: 232). Às margens do rio Pardo, Euclides mandou construir, debaixo de uma paineira, uma pequena barraca com telhado de zinco, que lhe serviu de escritório tanto para os assuntos de engenharia quanto para os assuntos intelectuais. Anos mais tarde,  numa carta a Francisco Escobar2, escrita em 08 de abril de 1908, o escritor, insatisfeito com a agitação urbana, revelou sentir saudades de seu “escritório de folhas de zinco e sarrafos, da margem do rio Pardo” (Cunha, 1997: 357). Conforme considerações de Franklin de Oliveira, pode-se dizer que, de forma simbólica, a cabana3 foi para Euclides o que a gruta de Salamita era para Eurípedes – um espaço para reflexões. E, à semelhança do autor grego, Euclides também se tornou em Os sertões um “dominador das antinomias”, um perseguidor do “espírito contraditório das coisas” (Oliveira, 1983: 95). Para reconstruir a ponte, que ligava São José do Rio Pardo a outras cidades, possibilitando tanto o transporte do café quanto o contato com o progresso e a modernização, Euclides utilizou-se dos ferros retorcidos e pôs-se a destorcer os pontos de sustentação da estrutura que desabara, visando a “repô-la de maneira que se assemelh[asse], com um máximo de precisão, à ponte original. Apesar de todos os esforços do autor, sua consciência diz[ia] que a ponte já não poderia ser a mesma” (Bernucci, 1995: 54). Mesmo assim, preferiu reparar, “aproveitando a estrutura danificada”, a construir uma ponte totalmente nova – sendo esta opção, sem dúvida, mais trabalhosa, “mas por isso mesmo mais desafiante, como tudo o que ele fazia na vida” (Idem, p. 54). Em 1901, concluiu os trabalhos de reconstrução da ponte sobre o rio Pardo, inaugurando-a em 18 de maio. Conta a tradição que, a fim de dar credibilidade ao trabalho, o engenheiro submeteu-a a duras provas de cargas4: “aos lados foram empilhados pesadas barras de ferro, pedras, sacos de areia, pilhas de sacas de café, enquanto pelo centro passavam e repassavam muitas carroças, carros de boi, carroções todos superlotados, como também outros veículos em disparada...” (Andrade, 1966: 290). A notícia de que havia uma frincha ameaçando a estabilidade da ponte, que lhe foi dada alguns meses depois da inauguração, deixou-o ansioso. Para tranqüilizar-se, pediu a Escobar, numa carta escrita a 10 de agosto de 1902, para verificar a veracidade da informação (Cunha, 1997: 136), sossegando apenas quando soube que era simplesmente um risco de colher de pedreiro o que havia na ponte. Essa metodologia rigorosa parece repetir-se na construção de Os sertões – a ponte simbólica, que possibilita a ligação entre o Brasil desconhecido, pobre e marginalizado, e o outro, que se pretendia nivelar à Europa, civilizada e moderna. Para elaborar o livro, Euclides tinha duas opções: escrever algo inteiramente inusitado a partir de suas impressões, ou reestruturar seus textos sobre a guerra – “A nossa Vendéia”, o Diário de uma expedição e a Caderneta de campo –,  lapidando-os cuidadosamente de modo a fazê-los aparecer no texto definitivo ao lado das inovações realizadas. Novamente fez uma escolha e preferiu a segunda – a tarefa mais árdua. Em maio de 1900, com o manuscrito pronto, pediu a José Augusto Pereira Pimenta para passá-lo a limpo (Bernucci, 2001: 57). Começava, então, a difícil busca de um editor. A princípio, Euclides pensou em publicá-lo parceladamente pelas colunas de O Estado de S. Paulo, mas os originais do livro, entregues pessoalmente a Júlio de Mesquita, o dono do jornal, foram encontrados seis meses depois na redação, cobertos de poeira, no mesmo local em que os deixara. Essa situação levou a depender da interferência dos amigos. Em dezembro de 1901, Euclides partiu para o Rio de Janeiro, levando uma carta de Garcia Redondo a Lúcio de Mendonça, que o encaminhou à Livraria Laemmert. Embora relutante, a livraria se encarregou de publicar o livro (Rabello, 1983: 161). Nesse mesmo mês, o livro foi encaminhado para publicação e, em janeiro de 1902, Euclides recebeu as primeiras provas, dedicando-se, nos meses subseqüentes, às constantes revisões, emendas, supressões, acréscimos e correções (Bernucci, 2001: 58). Nessa fase do trabalho, foram importantes as observações de Escobar, que o instigaram a fazer uma leitura ainda mais cuidadosa do livro. Numa carta ao amigo, escrita em 19 de outubro de 1902, Euclides desabafou:   Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos do meus Sertões (sic); fui lê-lo com mais cuidado – e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente... Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro? (Cunha, 1997: 141).   Euclides foi um revisor inexorável. Na tipografia que imprimira a 1ª edição do livro, Euclides pôs-se a corrigir, nos exemplares impressos, os erros tipográficos mais graves, utilizando nanquim e ponta de canivete (Rabello, 1983: 165). A hipótese de que algum leitor mais exigente pudesse corrigir seu livro, página por página, linha por linha, deixava-o apavorado. Por isso, dedicou vários dias de sua vida “à tarefa de emendar com a maior vigilância tudo o que lhe parecia uma impropriedade, uma obscuridade ou um defeito nas suas páginas” (Idem, p. 181). Segundo Roberto Ventura, seu último biógrafo, Euclides fez, em cerca de 1200 exemplares, 37 correções – 12 acréscimos e 25 supressões –, perfazendo o total de pouco mais de 44 mil emendas (Ventura, 2002: 41). Seu trabalho de revisão parecia interminável: emendou para a 2ª edição, publicada em 1903; emendou para a 3ª, publicada em 1905; e, finalmente, emendou para a 4ª, publicada em 1911, que, entretanto, reproduzia fielmente a 3ª – o que fez com que sua última vontade só fosse trazida a público em 1914, com a 5ª edição, elaborada a partir do exemplar da 3ª edição, cuidadosamente anotado pelo autor. Este exemplar está desaparecido, mas existe um texto apócrifo, transcrito do texto original por Fernando Nery, que se encontra na Academia Brasileira de Letras. Segundo Walnice Nogueira Galvão, nesse texto há 2600 emendas (Galvão, 1981: 97-8). No entanto, apesar de conter um número excessivo de emendas, esta edição certamente não seria a definitiva. Em sua última entrevista, concedida a Viriato Correia, publicada em 15 de agosto de 1909, o dia do assassinato, Euclides confessou: “Hei de consertar isto por toda a vida. Até já nem abro Ossertões porque fico atormentado, a encontrar imperfeições a cada passo” (Cunha, 1995: 520). A ponte e o livro, elaborados com o rigor euclidiano, encontram-se interligados. Tendo ido a São José do Rio Pardo para fazer uma reconstrução, Euclides acabou fazendo um trabalho duplo: a ponte e o livro. A ponte ligando as duas margens de um rio. O livro, as várias margens de um povo, expressas através das idéias, dúvidas e ansiedades de um homem dividido entre a vivência no Rio e a experiência no sertão. O livro embaralhou identidades, dirimindo as distâncias entre os opostos, confundindo-os entre si. Através dele foram expostas as tensões do país e estabelecidos elos entre o litoral e o sertão, a civilização e a barbárie, a rua do Ouvidor e as caatingas, o Brasil real e o Brasil oficial, os sertanejos e os soldados, o atraso e a modernidade, o real e o fantástico, a história e a invenção, o fato e a fábula. José Carlos Barreto de Santana, apoiando-se nas pesquisas de Gama Rodrigues, apontou, na carreira de Euclides, “a predominância de serviços de pontes, que corresponderia a uma especialização descoberta ou emprestada ao engenheiro” pela Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo (Santana, 2001: 77). No entanto, sua escrita, mais do que a engenharia, comprovou que, de fato, essa era sua especialidade. Além das pontes que constroem o enredo, o livro possibilita ainda outras: os diálogos intra e inter-textuais, nos quais são envolvidas obras com gêneros e finalidades distintas; e, sobretudo, os constantes e infindáveis diálogos, muitas vezes controversos, entre os pesquisadores das mais variadas áreas – geólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos, geógrafos, antropólogos, etnógrafos, estudiosos da literatura etc.     Notas   1.      Léa Costa Santana Dias é graduada em Letras (CESVASF – PE), especialista em Estudos Literários (UEFS – BA) e mestra em Literatura e Diversidade Cultural  (UEFS – BA). 2.     Francisco Escobar, importante colaborador no processo de escrita de Os sertões, é um dos amigos conquistados por Euclides durante o período em que morou em São José do Rio Pardo. 3.     Em 1939, o Serviço do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional, por deliberação do Dr. Rodrigo Mello Franco de Andrada, transformou a cabana de Euclides em monumento nacional (Del Guerra, 1998: 20). 4.     Sobre isso há também uma versão registrada por Antônio Gama Rodrigues, bastante divulgada pela tradição oral, garantindo “que o engenheiro Euclides da Cunha mandou fazer uma ilha artificial debaixo da ponte e nela se colocou por ocasião da realização das provas de carga, (...) para ser esmagado pela ponte caso ela não resistisse” (Andrade, 1966: 293).   Referências bibliográficas     ABREU, Regina. Arqueologia de um livro-monumento: Os sertões sob o ponto de vista da memória social. In: FERNANDES, Rinaldo de (org.). O clarim e a oração; cem anos de Os sertões. São Paulo: Geração Editorial, 2002. p. 221-42. ANDRADE, Olímpio de Souza. História e interpretação de “Os sertões”. São Paulo: Edart, 1966. 383p. ANDRADE, Olímpio de Souza. Os sertões entre dois vales. In: Id. Euclides e o espírito de renovação.  Rio de Janeiro: São José, 1967. p. 73-97. BERNUCCI, Leopoldo M. A imitação dos sentidos; prógonos, contemporâneos e epígonos de Euclides da Cunha. São Paulo: EDUSP, 1995. 352p. BERNUCCI, Leopoldo M. Cronologia. In: CUNHA, Euclides da. Os sertões. 2. ed., São Paulo: Ateliê Editorial, Imprensa Oficial do Estado, Arquivo do Estado, 2001. p. 51-61. (Edição, prefácio, cronologia, notas e índices Leopoldo M. Bernucci). CUNHA, Euclides da. A última entrevista. Outros contrastes e confrontos. In: Id. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. 1, 1995. p. 518-23. CUNHA, Euclides da. Correspondência (1890-1909). In: GALVÃO, Walnice Nogueira, GALOTTI, Oswaldo. (orgs.). Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: EDUSP, 1997. 456p. DEL GUERRA, Rodolpho José. Conhecendo Euclides da Cunha; ano 100 (1898-1998). São José do Rio Pardo: Graf-Center, vol. 2, 1998. 44p. (Coleção municipal). DIAS, Léa Costa Santana. Poesia e reconstrução no percurso discursivo de Os sertões. In: Revista Canudos. Salvador, UNEB / CEEC, ano 7, nº 6/7, p. 135-144, jan./dez. de 2002. DIAS, Léa Costa Santana. Viagens e pontes, fendas e fraturas: perspectivas d’Os sertões, de Euclides da Cunha. In: Tribuna Feirense. Feira de Santana, domingo, 01 de dezembro de 2002, Cad. Cultural, ano 1, nº 20, p. 6, Col. 1-6.  DIAS, Léa Costa Santana. O (des)tecer de enredos: uma leitura d’Os sertões, de Euclides da Cunha. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2003. 134p. (Dissertação de Mestrado). GALVÃO, Walnice Nogueira. Ciclo de Os sertões. In: Id. Gatos de outro saco; ensaios críticos. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 61-110. OLIVEIRA, Franklin de. Euclydes: a espada e a letra; uma biografia intelectual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 147p. (Coleção Literatura e Teoria Literária). RABELLO Sylvio. Euclides da Cunha. 3. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1983. 361p. (Coleção Vera Cruz). SANTANA, José Carlos Barreto de. Ciência e Arte: Euclides da Cunha e as Ciências Naturais. São Paulo: HUCITEC; Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001. 214p. VENTURA, Roberto. Do mar se fez o sertão: Euclides da Cunha e Canudos. In: Revista Canudos. Salvador, UNEB / CEEC, ano 7, nº 6/7, 2002. p. 39-69, jan./dez.   Professora Léa Costa Santana Dias      

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