São José do Rio Pardo - domingo, 28 de maio de 2017
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Postado em: 29/02/2016

Seu Joel , meu amigo - Felipe Pereira Rissato


Seu Joel, meu amigo 18/1/2010 Prafraseando a primeira linha do artigo do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em que noticiava o assassinato do escritor Euclides da Cunha na edição de 16 de agosto de 1909, ainda não voltei a mim do triste impacto causado pelo falecimento do querido amigo Joel Bicalho Tostes, que dispensa apresentação aos euclidianos, ocorrido no último dia de 2009. Contudo, faz-se necessário apresentar o dileto amigo àqueles que não o conheceram: "Seu Joel", como carinhosamente chamava-lhe, fora casado com Eliethe da Cunha Tostes, - filha de Manoel Affonso, único filho de Euclides da Cunha a deixar descendentes -, de quem enviuvou em 1989. Incansável euclidiano e infatigável missivista, por mais de cinquenta anos pesquisou e zelou pela memória do autor de "Os Sertões". Ao ler uma matéria em jornal ou revista que faltasse com a verdade, não media esforços em escrever à redação do periódico para retificar os erros cometidos, fazendo questão de anexar documentos que comprovassem o que afirmava. E isto se sucedeu por inúmeras vezes. Para defender os livros de Euclides quando lançados em edições incompletas ou com o texto mutilado, teve de recorrer à Justiça para a preservação fidedigna dos textos. Mesmo com a obra em domínio público, sua reprodução só é permitida na íntegra, competindo ao Estado esta fiscalização. No caso de Euclides, seu Joel tomou para si esta responsabilidade. Levantou certidões e estabeleceu a data correta do casamento de Euclides e Anna da Cunha: 10 de setembro de 1890. Contudo, estranhou o fato de que não há nos periódicos da época uma única nota sobre o enlace. Embora Euclides não tivesse ainda a projeção que alcançaria 12 anos mais tarde com o lançamento de "Os Sertões", já ficara famoso com o ato de desacato ao Ministro da Guerra do Império em 1888 o que teve certa repercussão na imprensa, resultando na sua expulsão do exército, sendo reintegrado após a proclamação da República no ano posterior. Isso sem falar que Anna era filha do major Solon Ribeiro, republicano influente que entregou a ordem de banimento da família imperial a Dom Pedro II. Da mesma forma, seu Joel procurou em vão por fotografias que registrassem o matrimônio, as quais "com certeza" existiram. Em 1959, em edição especial dedicada a Euclides, a Revista do Livro nº 15 trazia uma das grandes contribuições de Joel à obra euclidiana, estampando três crônicas de Euclides publicadas n´O Estado de S. Paulo, intituladas "Da Penumbra" e assinadas sob o pseudônimo José Dávila, e outras 28 crônicas retiradas do mesmo jornal sob o título "Dia a Dia", assinadas com as iniciais do escritor (E. C.). Estas crônicas datavam de 1892 e estavam até então "esquecidas" na coleção do jornal paulista, sendo encontradas e recuperadas à comunidade euclidiana pelo senhor Joel. Da série "Dia a Dia", apenas a crônica de 19 de junho ficou de fora da edição especial da revista, sendo por mim encontrada em 2008, podendo hoje ser consultada na nova edição da Obra Completa de Euclides da Cunha, lançada em novembro de 2009. Esta nova edição, a propósito, também contempla três artigos de Euclides encontrados pelo senhor Joel em 2005, publicados no jornal carioca "Democracia", em 1890. Dois deles, com o mesmo título, "Resposta à Confederação Abolicionista", são assinados por Euclides em parceria com os colegas de farda Saturnino Nicoláo Cardoso e Thomaz Cavalcanti de Albuquerque, algo único na bibliografia euclidiana. O outro artigo encontrado, "Amanhã", Euclides assinara sozinho. Em vista do devotamento prestado a Euclides por São José do Rio Pardo, cidade em que o escritor morou com a família de 1898 a 1901 enquanto fiscalizava a reconstrução de uma ponte e escrevia seu livro vingador, e onde é realizada ininterruptamente desde 1912 a "Semana Euclidiana", foi por esforços do senhor Joel que se tornou possível a transladação dos restos mortais de Euclides, pai e filho, do cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro, para a "Meca do Euclidianismo" durante a Semana Euclidiana de 1982, onde descansam em um mausoléu no "Recanto Euclidiano", do qual também fazem parte a ponte sobre o Rio Pardo, a cabana protegida de onde Euclides fiscalizava as obras e a herma em homenagem ao escritor, inaugurada em 1918. Não param por aí os feitos do senhor Joel. Em 1983, ele encontrou no Arquivo Nacional o encéfalo de Euclides, retirado do crânio do escritor durante a autópsia a que foi submetido e "esquecido" em um armário daquela instituição em um recipiente com formol. De imediato, solicitou sua devolução à família, para que pudesse ser enterrado dignamente. Como São José recebera os despojos, desta vez o cérebro foi entregue à Cantagalo, cidade natal do escritor e lá encerrado sob uma lápide no interior da Casa de Euclides da Cunha. Em 1987, seu Joel se viu novamente forçado a entrar na Justiça contra uma calúnia lançada contra Euclides e, em consequência, também à Anna. No livro "Anna de Assis - História de um trágico amor", escrito por Jeferson de Andrade em co-autoria com Judith Ribeiro de Assis, filha de Anna e Dilermando, está afirmado categoricamente que Euclides concorreu para a morte do menino Mauro por inanição, com sete dias de vida, trancando Anna em um quarto não permitindo que ela o amamentasse, tendo enterrado a criança no quintal de casa "às ocultas". Mauro, registrado por Euclides como seu filho, supostamente era filho de Dilermando, visto que Anna provavelmente já se encontrava grávida quando o escritor retornou de uma expedição que fez ao norte do país. Por este motivo, Anna tomou remédios para abortar a criança, que faleceu de debilidade congênita provocada pelos remédios, conforme se vê no atestado de óbito estampado no livro "A Tragédia da Piedade", do próprio Dilermando e não por inanição. A afirmação mais relevante, porém, foi a de que Euclides teria enterrado a criança no quintal de casa, sendo que no mesmo livro de Dilermando há documento registrando o enterro no cemitério de São João Batista. A propósito, a própria Anna quando depôs em juízo para formação do processo a que respondia Dilermando pelo assassinato de Euclides, afirmara que visitava o túmulo de Mauro em companhia de Dilermando, quando este passava suas férias no Rio de Janeiro. A página do processo criminal em que consta esta declaração está estampada no livro "Águas de Amargura - O drama de Euclides e Anna", escrito por Adelino Brandão em co-autoria com o senhor Joel em 1990, em resposta ao livro "Anna de Assis". O que mais chamou atenção neste caso, para o senhor Joel e os descendentes de Euclides da Cunha, foi a "invenção" do que consta no capítulo 7 do livro referido, até porque o próprio pai de Judith desmente o livro escrito pela filha, uma vez que o atestado de óbito e o comprovante de sepultamento já haviam sido por ele publicados em seu livro de 1951. Porém, ao ingressar na Justiça pedindo a exclusão do capítulo 7 do livro "Anna de Assis", o advogado Adelino Brandão não o fez em tempo hábil, que seria de até três meses após o lançamento do livro em questão. A queixa-crime foi registrada passados quatro meses. Mesmo assim, mais de dez audiências foram marcadas e adiadas durante 4 anos, visto que os autores do livro "Anna de Assis" não compareciam às mesmas conjuntamente ou com os advogados, necessário para que fosse julgado o mérito do caso. Já em 1992, uma juíza percebendo que a queixa-crime fora feita após o prazo, arquivou o processo sem o julgamento do mérito, o que para Jeferson e Judith foi considerado uma vitória. Entretanto, as novas edições do livro passaram a trazer uma ressalva no capítulo 7, informando que o que está ali narrado fora passado por Anna aos filhos. Em 1999, mais uma vez se viu o senhor Joel na necessidade de entrar na Justiça, desta vez contra o Arquivo Nacional, onde, desde meados da década de 70, não mais se encontrava o processo nº 333, sobre a morte de Euclides da Cunha Filho. Segundo o senhor Joel, que consultou o processo em fins da década de 60, nele havia cartas de Solon e outros pormenores que esclareciam em muito os acontecimentos acerca do assassinato de Euclides pai, em 1909. Infelizmente, voltado a outras pesquisas na época, deixou o processo de lado para consultá-lo mais tarde, sem tirar cópia. Quando lá voltou anos mais tarde, o processo havia desaparecido, assim estando até hoje. Em 2004, o Arquivo Nacional foi condenado a pagar à União o montante de R$ 30 mil reais pelo desaparecimento do processo. Falando mais especificamente de nossa amizade, tive meu primeiro contato com o senhor Joel em 1995, com a leitura de "Águas de Amargura", bem como de artigos em jornais e revistas. Em 1999, o querido amigo colocou no ar o site www.euclidesdacunha.com.br, hoje hospedado no endereço www.euclidesdacunhafam.com.br. Logo que vi o site, assinado pela família de Euclides da Cunha, enviei um e-mail. No dia seguinte, já estava recebendo resposta de agradecimento e promessa de contato via postal, assinada pelo senhor Joel. Qual a minha surpresa e emoção quando, dois dias depois, ao atender ao telefone, estava eu falando com o querido amigo! A partir daí foram 10 anos de uma profícua amizade, com incessante troca de dezenas de cartas e telefonemas, sempre com a máxima atenção, disposição e carinho. Felizmente tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o estimado amigo em setembro último, em Cabo Frio, onde ele residia juntamente à filha Maria de Lourdes, o genro e os netos, os quais também tive verdadeira satisfação em conhecer, com exceção do neto Bruno, à época encontrando-se na capital fluminense. Convidado a participar do Seminário 100 Anos sem Euclides, realizado em Cantagalo em fins de setembro e também do Ciclo de Conferências sobre Euclides, realizado na Academia Brasileira de Letras, declinou dos convites em virtude da saúde fragilizada. Na véspera de Natal, também véspera de seu aniversário de 85 anos, telefonei-lhe, mal sabendo que seria a última vez que ouviria a sua voz, tão agradável e inconfundível. Senti-lhe verdadeiro ânimo e vibração, quando revelei um novo projeto euclidiano a que venho me dedicando. Uma semana depois, o amado amigo partiu. Vai ser difícil não receber mais a sua constante correspondência e os dedicados telefonemas, bem como, da mesma forma, vai ser difícil não poder confidenciar-lhe novos projetos e achados. A saudade é imensa, mas registro sua frase-lema, sempre inscrita em suas cartas, de forma que sei que o amigo estará sempre comigo: "Euclides aproxima as pessoas." Euclides aproximou-me de Seu Joel, meu Amigo.     Felipe Pereira Rissato      

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