São José do Rio Pardo - quarta, 23 de maio de 2018
"Eu não tenho vocação para a espada, a arma que eu sei manejar é a pena."
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Postado em: 16/05/2018

A HERMA: SIGNO DAS VITÓRIAS E DA MEMÓRIA DE EUCLIDES DA CUNHA (1918 – 2018)


  A HERMA: SIGNO DAS VITÓRIAS E DA MEMÓRIA DE EUCLIDES DA CUNHA (1918 – 2018) Cármen Cecília Trovatto Maschietto “ Para além das aparências, vamos buscar a verdade, a alegria, o sentido oculto e sagrado de tudo o que existe nesta terra sedutora e terrível...” ( Marthe Arnould)                                           CENTENÁRIO  DA HERMA DE EUCLIDES   No dia 18 de maio de 1918, em São José do Rio Pardo, foi  inaugurado, com muita pompa, um    monumento em homenagem a  Euclides da Cunha. A data coincidia com o  17º aniversário da ponte metálica.  Ponte que quase obrigou  o talentoso  escritor  a adiar planos  e projetos   prioritários, para atender a uma emergência  dramática, à qual estava  obrigado por dever de   ofício. Mais de um século depois, conhecendo os desdobramentos  desses fatos extraordinários,  para o escritor e para a cidade, muitos afirmam, conforme o senso comum, que nada acontece por acaso e que  o atraso é amigo. Para a ciência,  todas as coisas  têm uma razão histórica e estão ligadas a uma realidade. Cada homem, de maneira inexorável, tem que existir em uma circunstância determinada: “o  homem é o  homem e sua circunstância”. Num curto período  de sua  existência, enfrentando circunstâncias adversas  para reconstruir uma ponte desmoronada ,  Euclides da Cunha, em São José do Rio Pardo,  com determinação,  superou  obstáculos e levou  a bom termo  o mais importante projeto de sua vida : o livro Os Sertões.  As dificuldades  próprias desses dois empreendimentos  e as soluções encontradas pelo engenheiro e pelo escritor   foram testemunhadas e reconhecidas pelos moradores da  cidade. O monumento que se  erguia  em  sua memória materializava esse reconhecimento e eternizava  a gratidão da cidade  pelas obras ali realizadas, entre 1898 e 1901, seja por obra do destino ou  por força das circunstâncias.     HERMA: SÍMBOLO DA FORÇA, DA PERPETUIDADE,  DA PRESENÇA DE EUCLIDES DA CUNHA  O monumento,  uma pilastra de granito rosa,  erguido  às margens do Rio Pardo, ao lado da Ponte, indica e marca um lugar. O lugar onde Euclides realizou grandes obras: a Ponte e Os Sertões. Inspirado na mitologia grega e etimologicamente ligado ao nome do deus Hermes,   esse modelo de monumento – uma herma -   indica   que  os   idealizadores  desejaram imprimir à memória de Euclides a mesma  simbologia que esses mitos representavam  na Grécia antiga. Herma era o nome que os gregos davam aos  marcos de pedra, postados  nas encruzilhadas dos caminhos, em homenagem ao deus Hermes,  protetor dos viajantes e  guardião dos caminhos. Esses marcos eram rematados por uma cabeça ou meio corpo desse deus,  cultuado como mensageiro, iluminador, guia, mediador, intérprete da vontade dos deuses .  Hermes, Mercúrio para os romanos,  é símbolo da inteligência, da consciência introspectiva,  das ideias elevadas.  Dotado de inteligência prática e empreendedora,  é  um deus criativo, aberto ao conhecimento, à  evolução  do mundo dos homens, um deus civilizador, patrocinador da ciência, incentivador do progresso. Uma herma é um signo portador de  inúmeros sentidos e simbologias. Esculpida na verticalidade, uma herma simboliza  transcendência,  supremacia, luz, domínio,  retidão  moral. Construída em  forma de  pilar, pilastra, coluna,  simboliza  suporte do conhecimento,  eixo sagrado,  vitória e imortalidade, solidez  arquitetural, social ou pessoal. Hermas eram também chamados  os  montes de pedras formados na beira dos caminhos,  por pedras lançadas pelos viajantes, para obter benefícios e proteção  desse deus. Esses montes  simbolizavam  a união dos crentes  com o deus. Importante lembrar que a pedra é também um signo carregado de simbologias.  Em diferentes culturas, os homens acreditavam que   existia  uma relação estreita entre a alma e a pedra, entre a pedra e o homem.  Simbolicamente,  a pedra  representa  a força, a perpetuidade e a presença do divino. A Herma  em honra de Euclides, coluna  vertical  talhada em pedra, é um signo que abre o pensamento para um infinito de significados. Simboliza  gratidão, união perpétua  de São José do Rio Pardo  com Euclides da Cunha.  A Herma eterniza  suas vitórias e sua  memória e simboliza uma  relação mística da cidade com o homem e suas obras. A Herma representa a perenidade  do espírito de Euclides, sua retidão moral e talento profissional. A Herma de Euclides confere força e  poder  ao lugar. Sacraliza-o como  “lugar de memória”:  lugar onde o engenheiro  encontrou força e talento para reconstruir a Ponte; lugar onde o escritor encontrou  paz,  inspiração e poder para escrever Os Sertões.                           EUCLIDES DA CUNHA:  “MISTO DE CELTA, DE TAPUIA E GREGO”  Os idealizadores desse monumento   incrustaram na pedra  um medalhão de bronze com a imagem do escritor, gravando embaixo um trecho da dedicatória feita por Euclides em uma fotografia ofertada a Lúcio de Mendonça: “Misto de celta, de tapuia e grego”. Sem imaginar que essa dedicatória alcançaria tamanha publicidade, o escritor idealizou a própria imagem,  identificando-se de modo  alegórico e metafórico, por meio de uma expressão  simbólica, cujo significado remete à ideia de uma unidade  espiritual  entre  povos e culturas.  Psicólogos afirmam  que no centro da vida imaginativa de todo ser humano vive um mundo de símbolos, que  revelam segredos do inconsciente e traduzem  o esforço do homem  para se decifrar e desvendar  o enigma  do seu destino.  Para  a antropologia simbolista ou do imaginário, o homem,  animal simbólico, como meio de evasão da realidade ou de equilíbrio psicossocial,  imagina, através  de imagens e fantasias,  um quadro de esperanças e receios, para representar  um mundo  fraternalmente  melhor.  Nessa   dedicatória , Euclides da Cunha, um “sonhador de palavras”, recorrendo  a  uma representação   afetiva, ligou  povos entre si  através dos séculos,  colocando-se como parte  de uma  imaginária  fraternidade de culturas. Os celtas, primitivos habitantes da Europa ocidental,  fortes e bravos guerreiros, vencidos pelos romanos, viviam em clãs, hierarquicamente organizados social e politicamente. Exímios artesãos em metalurgia, fabricavam  utensílios e armamentos de alta qualidade, bem como ricos  ornamentos  em ouro, prata e bronze.  Possuíam  conhecimentos de filosofia, atribuídos aos druidas,  misto de sacerdotes e conselheiros. As histórias do ciclo do Rei Artur e alguns contos de fadas pertencem à cultura celta, assim como alguns eruditos da antiguidade são oriundos de regiões celtas, como  Públio Valério Catão, Cornélio Galo, Virgílio, Tito Lívio.  No século XIX, floresceu, na Europa, um movimento literário, político, social  e cultural  denominado celtismo,  do qual fez parte Ernest Renan, cuja obra inspirou algumas passagens de Os Sertões.   Quando os portugueses chegaram ao  Brasil, havia uma variedade de povos nativos, cerca de 1 milhão a 8,5 milhões de pessoas,  genericamente divididos em dois grandes grupos. Os tupis, que habitavam principalmente o litoral, e os tapuias, habitantes das terras do interior. Os tapuias, tribos de povos aguerridos, considerados bárbaros e selvagens pelos invasores, não se dobraram à dominação, resistindo bravamente aos conquistadores . De modo  diferente  comportaram-se os tupis, que  se aliaram aos invasores e acabaram aculturados. O povo grego, apesar de grande diversidade,  conseguiu  uma unidade espiritual e cultural  indissolúvel.  Por meio  dos mitos, os gregos determinaram  o lugar do homem no universo e explicaram  questões que angustiam os homens até hoje. Seu espírito investigativo e reflexivo deu origem  à mentalidade racionalista, que abriu caminho para a política, a filosofia, a ciência, a ética, a literatura, as artes.  Os gregos contribuíram para o aperfeiçoamento do homem e da sociedade, ao caminharem em direção do igualitarismo e da  democracia. Nessa dedicatória,  Euclides da Cunha, refletindo sobre sua  própria existência, imaginou  um  humanismo ecumênico,  aberto  à totalidade dos homens.  Um humanismo ideal, sincero,  alicerçado na esperança  de uma solidariedade verdadeira  entre  os povos,  longe da realidade, difícil de concretizar-se  naquelas circunstâncias, como  ainda hoje.                             SÃO JOSÉ DO RIO PARDO: “MECA DO EUCLIDIANISMO” As visitações aos lugares de  Euclides, repetidas desde 1912,  atraíram a  atenção de admiradores do escritor, que, no Rio de Janeiro, movimentavam  uma campanha para a construção de um monumento em sua  memória, ganhando corpo a ideia de que o mesmo fosse construído na cidade onde foi escrito Os Sertões. O monumento da Herma  concretizou  o desejo desses primeiros euclidianos. Na festa de inauguração, discursou  o poeta Vicente de Carvalho, amigo de Euclides, enaltecendo  a cidade com o título de “Meca do Euclidianismo”, expressão que  consagrou para sempre São José do Rio Pardo, incentivando a continuidade e o aprimoramento  das solenidades  em memória de Euclides.   A Herma , com o entorno ajardinado, valorizou e deu  visibilidade ao  lugar, onde,  dez anos depois, em 1928, o casebre de zinco, relíquia onde foram escritas páginas de Os Sertões, recebeu uma  proteção envidraçada, imprimindo uma  aura de sacralidade ao lugar.  Esse histórico cenário foi palco de seguidas homenagens ao escritor, que deram origem às Semanas Euclidianas,  evento  que faz parte do calendário cívico-cultural do Estado de São Paulo, desde 1938. A construção de um Mausoléu, em 1982, onde foram  depositados os restos mortais de Euclides da Cunha, fortaleceu  o simbolismo desse lugar de memória. O Casebre e a Ponte,  monumentos tombados  como patrimônios históricos, preservados pelo  centenário  culto à memória do escritor, representam  o mais antigo exemplo  de preservação histórica  de que se tem notícia no país. Esse notável  trabalho de  preservação da memória de Euclides da Cunha -  envolvendo o  conjunto,  Ponte, Herma, Casebre, Mausoléu,  Semanas Euclidianas -   considerado um documento vivo,  que atingiu o tempo histórico, espera por  reconhecimento oficial,  porque a memória  é  um dos mais  valiosos  patrimônios de uma nação.     OBRAS CONSULTADAS: GILBERT DURAND. A Imaginação Simbólica. Lisboa: Edições 70, 2000. JAMES CLIFFORD. A Experiência Etnográfica. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. JEAN CHEVALIER,  ALAN GHEERBRANT.  Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio Editores, 2000. JOSÉ ORTEGA Y GASSET. História como Sistema. Brasília: UnB, 1982. JUNITO DE SOUZA BRANDÃO. Mitologia Grega. Volume II. Petrópolis: Editora Vozes, 1995. PIERRE LÉVÊQUE. A Aventura Grega. Lisboa – Rio de Janeiro: Edições Cosmos, 1967. REGINA ABREU. O Enigma de Os Sertões. Rio de Janeiro: Funarte: Rocco, 1998. RODOLPHO JOSÉ DEL GUERRA. São José do Rio Pardo: história que muitos fizeram. Conhecendo Euclides da Cunha. São José do Rio Pardo: Graf-Center, 2010. WIKIPEDIA. ENCICLOPÉDIA LIVRE. https://pt.wikipedia.org/wiki//celtismo.

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