São José do Rio Pardo - domingo, 28 de maio de 2017
"Viver é adaptar-se."
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Postado em: 12/02/2016

A Amazônia de Euclides da Cunha - Dra Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo


A AMAZÔNIA DE EUCLIDES DA CUNHA Dra. MARLEINE  PAULA  MARCONDES E  FERREIRA DE TOLEDO UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)  ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETIMG (ESPM) E-mail: marleinepaula@hotmail.com   RESUMO: Este artigo visa a traçar um painel da atividade de Euclides da Cunha em sua missão amazônica, como engenheiro, escritor e brasileiro; consequentemente, contribui para o conhecimento de sua vida e caráter, bem como para a divulgação da literatura que produziu depois de Os sertões.  Pressupõe cortes transversais de toda sua correspondência pertinente e de todos os seus escritos amazônicos . Euclides da Cunha preparou-se intelectualmente para a missão na Amazônia, com leituras e pesquisas sobre a região. Como engenheiro, ajudou a tecer a História e a Geografia do Brasil, subindo o Purus e mapeando-o. Como escritor, rastreou a Amazônia em pequenos ensaios, publicados posteriormente em livros. A resultante desses escritos é a Amazônia vista por Euclides, uma sequência e um amálgama de Geografia, Geologia, Climatologia, Etnografia, História, Sociologia – e poesia. Como brasileiro, protagonizou lances patrióticos durante a singradura do Purus. Sua dedicação chegou ao ponto de comprometer-lhe a saúde, com um insidioso impaludismo trazido da Amazônia, que o acompanhou cronicamente até 1908. Euclides foi uma alma desassombrada e heróica.   Palavras-chave: engenheiro, escritor, brasileiro, Amazônia, Purus.   Euclides da Cunha, espírito inquieto, tinha a vocação de desbravador e pioneiro. Depois de Canudos, a Amazônia:   Que melhor serviço poderei prestar à nossa terra? Além disto, não desejo Europa, o boulevard, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada malgradada, e a vida afanosa e triste de pioneiro - escreve a José Veríssimo, do Guarujá, em 7 de julho de 1904 (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 212).               Terminado o tempo de São José do Rio Pardo, escritos e publicados Os sertões, Euclides alia à preocupação de estabilidade financeira e profissional o desejo de uma viagem ao norte do país. Pleiteia e consegue, por intervenção de José Veríssimo ao Barão do Rio Branco, nomeação como chefe da parte brasileira da comissão mista brasileiro-peruana, que se estava organizando para efetuar o reconhecimento das nascentes do Rio Purus.             A viagem de reconhecimento das nascentes do Purus era imprescindível para o estabelecimento da fronteira definitiva entre o Brasil e o Peru. A questão de limites entre os dois países foi decidida posteriormente, em 1909, pelo uti possidetis, que atribuiu ao Peru as cabeceiras dos rios Juruá e Purus. Mas para tanto foi necessário estabelecer concretamente essas cabeceiras, em expedições de reconhecimento.              À semelhança do que já fizera antes de partir para Canudos, Euclides começou a preparar-se intelectualmente para essa nova missão. Desde inícios de 1904, passou a acumular conhecimentos sobre a Amazônia, lendo Humboldt, Agassiz, Bates, Wiener, Tavares Bastos, Sousa Coutinho, Soares Pinto (cf. RABELLO, 1966, p. 252).              Nomeado, dá seguimento aos preparativos intelectuais, tratando de estudar o que pode a respeito da região que agora lhe competia desbravar. Escreve a Domício da Gama, ainda do Guarujá, em 22/08/1904: “Recebi ontem o interessante folheto de Chandless. Obrigadíssimo” (GALVÃO e GALOTTI, 1997, p. 222).  Folheto que ele certamente leu com toda a atenção, porque torna a referir-se a ele no dia 27: “Saúdo-o. Escrevi-lhe há dias comunicando haver recebido a monografia de Chandless e agradecendo-lha” (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 224). O inglês William Chandless percorrera o Purus alguns anos antes.             Nessa mesma linha preparatória, durante a viagem para Manaus, a escala em Belém permitiu-lhe que, a partir de uma indicação de José Veríssimo, tivesse um encontro com o naturalista suíço Emílio Augusto Goeldi, diretor do museu que leva seu nome. A correspondência dirigida ao próprio Veríssimo, datada, por engano, de 13 de janeiro de 1904 (no autógrafo), porque, em verdade, já se estava em 1905, evidencia seu contentamento:   Entreguei a carta ao Dr. Goeldi e não preciso dizer-lhe como me recebeu ele, e que duas horas inolvidáveis passei a seu lado pelos repartimentos e entre as maravilhas de um dos mais notáveis arquivos do mundo (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 252).   A permanência forçada em Manaus, de 30 de dezembro de 1904 a 05 de abril de 1905 (cf. RABELLO, 1966, p. 267), à espera de consertos nas embarcações peruanas, ultimando os próprios preparativos e aguardando as instruções para a singradura do rio Purus, não o deixou ocioso. Continuava a preparar-se. Hospedado na “Vila Glicínia”, de Alberto Rangel (cf. RABELLO, 1966, p. 262), pesquisava o roteiro de expedições já realizadas, estudava mapas e documentos.   A carta de 1º. de fevereiro de 1905, endereçada de Manaus ao Barão do Rio Branco, dá notícia de uma pesquisa fundamental: conseguira com o general José Siqueira de Menezes um esboço do alto Purus desenhado por um caucheiro conhecedor daquelas paragens, designando os vários pontos habitados, bem como os afluentes e varadouros, com a indicação dos tempos necessários para as respectivas travessias. Anexou-o à carta dirigida ao Barão. Aparecem também no esboço os dois galhos extremos do Purus, em cuja intersecção parou o explorador W. Chandless. Num desses galhos, o rio Cujar, “o varadouro para a bacia superior do Ucaiale é, talvez, no máximo, de um quilômetro”, quinze minutos de marcha. Além disso, o mesmo mapa mostra numerosos varadouros entre os rios Purus e Juruá, e faz prever meio dia para percorrer a distância entre os últimos afluentes do Juruá e do Ucaiale. A fidelidade de todas essas informações foi garantida pelo general Menezes. Euclides confrontou esse esboço com o mapa impresso no Boletim da Sociedade de Geografia de Lima, o qual ele ampliara, e observou que o mapa rudimentar do caucheiro era mais pormenorizado “e muito mais seguro nas designações locais e disposição geral da rede hidrográfica das cabeceiras.” Embora necessitasse de ulterior confirmação, Euclides acreditava que seria um bom auxiliar na singradura (cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 260). Todos esses preparativos visavam a dar conta da tríplice investidura que o próprio Euclides se atribuíra nessa expedição: “um brasileiro que vai prestar um serviço à sua terra”, “um engenheiro que não pode ter um trabalho mais digno” e um “escritor que não poderá ter melhor assunto”, conforme escrevera ao pai, do Guarujá, em 08/08/1904, assim que recebera de Oliveira Lima a boa nova de que seria nomeado (cf. GALVÃO; GALOTTI, p. 219). Como “um engenheiro que não pode ter um trabalho mais digno”, Euclides, naquelas paragens, protagonizou nossa História e ajudou a tecer nossa Geografia. À frente de um pugilo de homens (além dos técnicos, 30 praças, que a partir do dia 25 de junho ficaram reduzidas a 9) fez a subida do rio Purus, mapeando-o, em condições precárias e correndo perigos. (Cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 279-286 e CUNHA, 1995, v. I: “Relatório da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto-Purus”, p. 753-763).      A partida da expedição deu-se em Manaus, em 05 de abril de 1905, na vazante, que vai de abril a novembro e constitui a pior quadra para a navegação. A singradura foi feita em lanchas e batelões. A subida foi muito irregular, em virtude dos paus e torrões de argila que dificultavam a passagem das embarcações. Foram necessárias muitas sondagens e paradas. A lancha brasileira Cunha Gomes encalhou, o batelão brasileiro Manuel Urbano naufragou. Recuperou-se o que foi possível dos víveres, a comissão peruana prestou socorro, mas a comissão brasileira teve de ser reduzida, seguindo viagem apenas Euclides e pouco mais de uma dezena de auxiliares. Depois do rio Chandless, vencidos já três quartos do Purus, a travessia continuou dificultosamente, em canoas e pequenos batelões, na vazante e ao arrepio da corrente. Tiveram de enfrentar também uma epidemia de beribéri, mas felizmente não apareceu nenhum caso da doença em nenhuma das tripulações, já enrijadas pelo próprio regime severo a que estavam submetidas. Sempre subindo, passaram pelos últimos barracões de seringueiros brasileiros, avançaram pelos peruanos. Enfrentaram uma tempestade; os encalhes e esbarradas em paus já eram rotina; a comissão brasileira acabou por ficar reduzida a 9 pessoas, porque voltaram presos para Manaus 5 soldados rebeldes às ordens recebidas. Finalmente as duas comissões atingiram a Forquilha do Purus. Apesar de todas as dificuldades, sobretudo para a comissão brasileira, com víveres escassos e sem meios de  supri-los, prosseguiram as duas comissões para as cabeceiras, subindo o rio Cujar (um dos formadores do Purus; o outro é o Curiúja). Era a fase do máximo esgotamento do rio. Atingiram a confluência do rio Cavaljani, última das divisões dicotômicas tão características do Purus.  Dali para frente avançaram pelo trecho do Purus ainda não apresentado à ciência geográfica, porque até ali chegara o explorador inglês Chandless, que depois mudara de rumo, investindo para o norte e percorrendo apenas mais umas poucas milhas. Navegando para o sul, em ubás quase sempre impulsionadas por alavancas no leito seco e areento do Cavaljani, em 03 de agosto de 1905, as duas comissões atingiram  a confluência do Rio Pucani, a mais meridional de todas as nascentes do Purus. Ao fim dessa travessia, subindo um varadouro em aclive, fizeram uma descoberta inédita: as nascentes dos três grandes rios Ucaiale, Madre de Dios e Purus são independentes, mas próximas, e pode-se passar de uma a outra através de varadouros. Com víveres escassos, as comissões voltaram rapidamente para a Forquilha do rio Purus e concertaram em cumprir a última parte de seu objetivo: a subida do outro galho do Purus, o rio Curiúja. Tentaram-na, mas foram obrigadas a desistir, porque a vazante exigia grandes esforços dos homens já esgotados e os víveres não seriam suficientes. Contudo, ao ver de Euclides, o objetivo da expedição fora alcançado, uma vez que sobre o não explorado Curiúja sobejavam dados seguros. Voltaram a Manaus, aonde chegaram nos últimos dias de outubro de 1905 – magros e rotos, porém vitoriosos. Euclides foi realmente um desbravador. Como “escritor que não poderia ter melhor assunto”, Euclides, à semelhança do que fizera em Os sertões, juntou harmoniosamente as pesquisas preparatórias com a observação direta e a intuição. Consorciou ciência e arte e dispôs-se a escrever Um paraíso perdido, seu segundo “livro vingador”. Não chegou a concretizá-lo. Mas rastreou a Amazônia em artigos e pequenos ensaios, publicados posteriormente em livros: 3 em Contrastes e confrontos (“Conflito inevitável”, “Contra os caucheiros” e “Entre o Madeira e o Javari”), 7 em Terra sem História, primeira parte de  À margem da história (“ Impressóes gerais”, “Rios em abandono”, “Um clima caluniado”, “Os caucheros”, “Judas –Asvero”, “Brasileiros” e “A transacreana”) e um em À margem da geografia (“Entre os seringais”) – além do Relatório da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus (Todos constam do v. I da Obra completa, da Edição Aguilar). A resultante desses escritos é a Amazônia vista por Euclides, uma sequência e um amálgama de Geografia, Geologia, Climatologia, Etnografia, História, Sociologia – e poesia. A primeira impressão que Euclides teve da Amazônia foi que o homem ali “é ainda um intruso impertinente”, porque chegou quando a natureza não tinha ainda arrumado seu luxuoso salão: os rios não se tinham ainda firmado nos leitos, a fauna e a flora não eram hospitaleiras. Geologicamente, a Amazônia, nascida da última convulsão geogênica que sublevou os Andes, talvez seja a terra mais nova do mundo. O rio Amazonas, ao contrário do que acontece com os outros rios, não é causa de desenvolvimento, mas de destruição: lança milhões de metros cúbicos de água mar adentro; suas margens estão sujeitas a desabamentos (as “terras caídas”); seu leito não se fixa; forma “furos”, chegando a ser tributário de seus próprios tributários (Cf. CUNHA, 1995, v. I: “Impressões gerais”. À margem da história, p. 249-261). Em consequência da viagem exploratória, o referencial de Euclides são as circunjacências do rio Purus. O Purus é um extenso rio de baixada (1.733 milhas), meândrico, de extraordinária massa de água, sem corredeiras ou redemoinhos apreciáveis, com pouquíssimas ilhas. À primeira vista, parece estável, mas um exame acurado mostra que seu leito ainda está em evolução geológica e sofre modificações, encurtando-se em alguns trechos e alongando-se em outros: é um rio “divagante”. Apresenta oscilações de nível: quem o sulca nos primeiros dias do ano encontra-o cheio, mas, ao voltar, passa pelo fundo de uma calha desmedida. Do curso médio até as cabeceiras, na vazante, apresenta  muitos entraves à navegação: paus caídos da floresta que o margeia e bancos de argila solapada das margens na enchente. Em sua “divagação”, forma numerosos lagos no primitivo leito abandonado, como é comum na maioria dos tributários da margem direita do Amazonas. Seus afluentes, de forma geral, copiam essas mesmas disposições (Cf. CUNHA, 1995, v. I: Relatório,  p. 763-767 e “Rios em abandono”, À margem da história, p. 261-272). Geologicamente, os terrenos até a confluência do rio  Chandless apresentam as três camadas características da Amazônia – grés estratificado, argila e grés ferruginoso. Sua justaposição variada forma os diferentes aspectos da terra. De Curanjá para cima os terrenos são constituídos principalmente de uma espécie de quartzito muito duro, talvez ainda não definido pela ciência (Cf. CUNHA, 1995, v. I: Relatório, p. 774-775). A flora espalha-se pela floresta das “terras firmes”, inacessíveis às enchentes, e os “igapós”. Nessas “terras firmes”, há matas densas, de tom verde-escuro, de pequena altura, destacando-se poucas espécies mais altas. Nos “igapós”, regiões alagadas que margeiam os rios, a vegetação é a característica das praias. Algumas espécies: paxiúba, buriti, imbaúba, samaúma, embiruçu, seringueira, caucho; madeiras de construção, como pau-mulato, peroba, maçaranduba, ipê, cedro (cf. CUNHA, 1995, v. I: Relatório, p. 775-778). Graças às florestas que cobrem a região, o clima tem quase a regularidade de um clima marítimo. A temperatura decresce progressivamente na subida do rio, mas, na eventual “friagem”, há inesperadas altas e quedas em curto espaço de tempo. A umidade, como em toda a bacia amazônica, é excessiva. Essas condições climáticas são muito favoráveis ao desenvolvimento da microflora e microfauna, com as epidemias consequentes; porém, a região é perfeitamente habitável, exigindo apenas a observância das regras de higiene tropical - e os que acusam de insalubre seu clima são os que não conseguiram fixar-se lá. (Cf. CUNHA, 1995, v. I: Relatório, p. 771-772). A região foi povoada por cearenses que fugiram das grandes secas, desde 1879: “... cem mil sertanejos, ou cem mil ressuscitados, apareciam inesperadamente e repatriavam-se de um modo original e heróico, dilatando a pátria até aos terrenos novos que tinham desvendado” (CUNHA, 1995, v. I: “Um clima caluniado”, À margem da história, p.276), definindo assim o estado do Acre, que antes era uma vaga ficção geográfica. Dessa forma, o clima das adjacências do rio Purus exerceu a seleção natural:  ... policiou, saneou, moralizou. Elegeu e elege para a vida os mais dignos. Eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte. E é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons (CUNHA, 1995, v. I: “Um clima caluniado”, À margem da história, p. 281; cf. “Entre o Madeira e o Javari”, Contrastes e confrontos, p. 186-189).      Quatro quintos do grande rio estão povoados por esses sertanejos. São os seringueiros. Extraem o látex da hevea brasiliensis, que não sucumbe após a extração, mas tem  produção constante; por isso, formam uma sociedade rude, mas estável. Vivem num regime de semiescravidão, porque a propriedade da terra é mal distribuída e está na mão de um número restrito de possuidores: “o sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homem que trabalha para escravizar-se” (CUNHA, 1995, v. I: “Um clima caluniado”, À margem da história, p. 278). Chega,   ... ergue a cabana de paxiúba ... e pressente que nunca mais se livrará da estrada que o enlaça, e que vai pisar durante a vida inteira, indo e vindo, a girar estonteadamente no monstruoso círculo vicioso da sua faina fatigante e estéril (CUNHA, 1995, v. I: “Entre os seringais”, À margem da geografia, p. 559).   Faz débitos com o patrão, trabalha para pagar-lhe, mas está sempre devendo. Explorado, torna-se escravo. Não é dono da terra que pisa e nem pode deixá-la, aprisionado pelas dívidas. Por isso, “no sábado de Aleluia os seringueiros do Alto- Purus desforram-se de seus dias tristes”, numa sanção litúrgica à ambição que ali os levou. O chefe de família, ajudado pelos filhos, constrói um boneco de palha e roupas velhas, o judas. No fim do trabalho, um lance dramático: coloca na cabeça do boneco seu sombrero – e as crianças atônitas nele reconhecem a figura triste do próprio pai. Mas não termina aí a purgação; o seringueiro quer tornar pública sua desdita: põe o judas numa jangada e solta-o no rio. Acorrem os vizinhos com espingardas e vão atirando no mostrengo, enquanto ele desce o rio. Não segue sozinho: encontra outros bonecos companheiros de infortúnio – e todos juntos vão descendo, descendo, rio abaixo... (Cf. CUNHA, 1995, v. I: “Judas-Asvero”, À margem da história, p. 292 e segs.), A marcha ascensional do povoamento do Purus por brasileiros parou na cidade de Sobral. A montante desse sítio, os povoados são peruanos, habitados por caucheiros, sociedade nômade, adstrita à extração do caucho da castiloa, que sucumbe à primeira incisão. Tentaram adentrar a região explorada pelos brasileiros, mas tiveram de recuar, vencidos à bala: “para o caucheiro um domador único, que o suplantará, o jagunço” (CUNHA, 1995, v. I: “Contra os caucheiros”, Contrastes e confrontos, p. 185). Aprisionam e escravizam os índios, ficam nos barracos até enriquecerem, partem depois para as cidades grandes, deixando a terra em abandono (cf. CUNHA, 1995, v. I: Relatório, p. 802-804 e “Os caucheros”, À margem da história, p. 282-292). Olhando para o futuro, Euclides pensa na integração nacional. Analisando a conquista do Acre, observa que o povoamento não se expandia, mas estirava-se, acompanhando os tributários do Amazonas, de cursos paralelos; estes não se intercomunicam a não ser por “varadouros”: veredas atalhadoras de um metro de largura, abertas a facão, ligando uma vertente fluvial a outra, ou então duas secções do mesmo rio. Imitando esses varadouros, Euclides vê a necessidade de uma via férrea que atravesse o Acre, fazendo a ligação transversa dos grandes rios: a transacreana. A ferrovia terá importância econômica, facilitando e intensificando a extração da borracha, e poderá transformar-se em estrada internacional de extraordinários destinos, interligada à Madeira-Mamoré (cf. CUNHA, 1995, v. I: “A transacreana”, À margem da história, p. 308-352). Acresce que terá valor estratégico, num previsível conflito com o Peru: o verdadeiro oceano desse país dividido pelos Andes não é o Pacífico, é o Atlântico; para alcançá-lo via rio Purus, o Peru poderá pegar em armas contra o Brasil. (Cf. CUNHA, 1995, v. I: “Conflito inevitável”, Contrastes e confrontos, p. 179-182 e “Brasileiros”, À margem da história, p. 297-307). Como “brasileiro” que prestou “um grande serviço à sua pátria”, Euclides, além de ter sido protagonista de nossa história e de ter desenhado nossa geografia, deu mostras de exaltado nacionalismo em três episódios que podem considerar-se irradiações de sua odisséia através do Purus.         O primeiro é a entrevista que ele concedeu ao Jornal do Comércio, logo que chegou a Manaus, fazendo uma resenha da expedição: o tempo parado em Manaus, que prejudicou em parte a singradura, por causa da vazante; a viagem penosa; o naufrágio do batelão; os mosquitos; as doenças; os desânimos; a coragem; a meia ração a partir de Forquilha; os perigos dos infieles; a chegada ao último galho meridional do Purus; a subida pelo varadouro em aclive, de cuja culminância seus olhos  deslumbrados abrangiam, de um lance, três dos maiores vales da terra; e naquela dilatação maravilhosa dos horizontes, banhados no fulgor de uma tarde incomparável, o que ele principalmente distinguiu, irrompendo de três quadrantes dilatados e trancando-os inteiramente – ao sul, ao norte e a leste – foi a imagem arrebatadora da nossa pátria que nunca imaginou tão grande”  (cf. CUNHA, 1995, v. I: “Os trabalhos da comissão brasileira de reconhecimento do Alto Purus”. À margem da geografia, p. 557-558).          “Valor de um símbolo” e “Sucedeu em Curanjá”, recolhidos em Fragmentos e relíquias, v. I da edição Aguilar, fixam lances patrióticos da expedição.       Era uma tarde de julho de 1905. Os expedicionários brasileiros, nove apenas, depois do naufrágio do batelão, tinham atingido, a duríssimas penas, a foz do Cavaljani, último galho do Purus que era preciso ainda subir para completar a empreitada. Os homens estavam rotos, doentes, cansados e famintos. Euclides temia que não continuassem. Passou a noite em claro. Na manhã seguinte, exortou-os ao patriotismo, a mais um extremo sacrifício. Debalde. Foi quando os expedicionários peruanos, acampados em frente, bem nutridos, animados e sadios, hastearam a bandeira peruana na popa de uma canoa, para seguir em frente. Euclides não precisou dizer nada, diante da eloquência do símbolo: os brasileiros aprumaram-se, hastearam o nosso pavilhão e aprestaram-se a partir...  Em segundo, diz ele, a nossa bandeira, que jazia, enrolada, em terra, aprumou-se por seu turno em uma das canoas, patenteando-nos aos olhos ‘as promessas divinas da esperança!’ E partimos, retravando, desesperadamente, o duelo formidável com o deserto... (CUNHA, 1995, v. I. “Valor de um símbolo”. Fragmentos e relíquias, p. 582).     O episódio de Curanjá deu-se dois dias antes, em 03 de julho. As principais pessoas do lugar ofereceram um banquete  ao chefe peruano e a Euclides. No local havia uma profusão de bandeiras peruanas e nenhuma do Brasil. Euclides pensou em retirar-se, quando divisou entre a folhagem verde que decorava a sala do festim algumas folhas de palmeira, cujas faces internas, intensamente amarelas, contrastavam com o verde das outras folhas. Tomando então de improviso a palavra, agradeceu a inteligente gentileza de seus anfitriões, que, para a bandeira do Brasil, não tinham recorrido ao “seio mercenário de uma fábrica de tecidos, mas ao “seio majestoso das matas, tomando-a exatamente da árvore que entre todas simboliza as idéias da retidão e da altura.” Ao que o chefe peruano, disfarçando o constrangimento, respondeu que ele havia compreendido muito bem o pensamento deles... (CUNHA, 1995, v. I. “Sucedeu em Curanjá”. Fragmentos e relíquias, p. 583). Mas a dedicação ao ideal exige prova de sangue. Euclides deu-a no Purus, comprometendo para sempre sua saúde. De volta ao Rio, ultimando o relatório oficial da viagem, queixa-se a Escobar (18 de abril de 1906) de um insidioso impaludismo, que certamente trouxera da Amazônia. Impaludismo que o acompanhou cronicamente, pois em 1908 (12 de fevereiro), de Petrópolis, torna a lamentar-se a Escobar:   Você deve estar – com razão – surpreendido da minha atitude, não respondendo a tua última carta. Explico a demora: 1º) – doença= assombroso resfriamento, complicado do meu velho impaludismo amazônico (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 350).     Em 13 de março faz a mesma queixa a Oliveira Lima, escrevendo-lhe do Rio: “... voltei para casa, a tiritar de frio, sob uma temperatura de 30° (!), e passei oito longos dias em estreita intimidade com o meu impaludismo amazônico!” (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 351). A última referência à doença  amazônica é de 04 de dezembro, do Rio, a Vicente de Carvalho: Euclides declara-se, finalmente, curado (embora perseguido pela tuberculose crônica): Continuo meio adoentado; mas não creio que as moléstias vinguem na aridez maninha deste meu organismo asperamente seco, de onde o próprio beribéri acreano já fugiu espavorido (sem remédio) para nunca mais voltar (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 392).          Lamentando para Vicente de Carvalho, em carta do Rio, 18 de setembro de 1908, a morte de Plácido de Castro, com quem viajara no Purus, diz Euclides:   A morte de Plácido de Castro abalou-me profundamente. Conheci-o e conversei-o largo tempo, quando viajamos juntos, no Purus, em 1904.  Era uma alma desassombrada e heróica. Tinha talvez muitos defeitos. Mas não se pode negar excepcional valor a quem, de fato, dilatou o cenário da nossa história (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 376).          Plácido de Castro teve importante papel no estabelecimento do Estado independente do Acre, chefiando a insurreição de brasileiros contra bolivianos, entre 1902 e 1903 (cf. RABELLO, 1966, p. 244-246). O que Euclides disse a seu respeito pode  perfeitamente aplicar-se a sua própria pessoa. Por sua atividade na Amazônia, também ele dilatou o cenário de nossa história e teve uma alma desassombrada e heróica. Não há negar-lhe valor excepcional.   REFERÊNCIAS   CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1995, v. I. Relatório da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus. CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1995, v. I. Contrastes e confrontos. “Conflito inevitável”. “Contra os caucheiros”. “Entre o Madeira e o Javari”. CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1995, v. I.  À margem da História. Terra sem História. “Impressões Gerais”. “Rios em abandono”. “Um clima caluniado”. “Os Caucheros”. “Judas –Asvero”. “Brasileiros”. “A Transacreana”. CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1995, v. I. À margem da geografia. “Entre os seringais”. “Os trabalhos da comissão brasileira de reconhecimento do Alto Purus”. CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1995, v. I. Fragmentos e relíquias. “Valor de um símbolo”. “Sucedeu em Curanjá”. GALVÃO, Walnice Nogueira; GALOTTI, Oswaldo. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp, 1997. RABELLO, Sylvio. Euclides da Cunha. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.   ================================================================   DA REPÚBLICA IDEALIZADA À REPÚBLICA POSSÍVEL: O DESENCANTO DE EUCLIDES DA CUNHA[1]   Rachel Aparecida Bueno da Silva Mestre em História da Educação Universidade Estadual de Campinas (rachel.bueno@campinas.sp.gov.br)     RESUMO: Euclides da Cunha viveu intensamente as transformações pelas quais passava o país e alimentou a crença na República como sendo a forma mais elevada de governo, que levaria a sociedade a um renascimento. Entretanto como outros homens de seu tempo Euclides da Cunha também viu a "República idealizada" ser obrigada a dar espaço à "República possível". Os republicanos baseavam a sua convicção e atuação nos pressupostos positivistas e numa determinada vertente do liberalismo - uma vez que acreditavam no papel nivelador da educação, encarada como meio para a equalização social - a "República real" demonstrou-se mais centralizada do que havia sido o Império e com concepções muito mais rígidas para com as camadas populares e suas manifestações culturais. A República condenava todas as manifestações populares e segregava a população pobre aos morros da periferia do Rio de Janeiro. Euclides da Cunha não ficou alheio a essa contradição, que gerou nele o desencanto e a decepção com o regime com o qual ele se identificava e pelo qual lutou. Esse desencanto ficou registrado em seus escritos, entre elas sua correspondência  pessoal.    Palavras-chave: Euclides da Cunha; Império; República; ideário; desencanto.   Euclides da Cunha como homem de seu tempo viveu intensamente as transformações pelas quais passava o país e alimentou a crença na República como sendo a forma mais elevada de governo, que levaria a sociedade a um renascimento, como é mostrado em uma das crônicas do conjunto intitulado "Atos e palavras", publicado no jornal Província de São Paulo em 1889. [...] e quando, amanhã, partido o último dente da medonha engrenagem política, que há tempo realiza a inglória tarefa do esmagamento completo das grandes idéias - aquela cair -  o advento da República não indicará a vitória de um partido  -  exprimirá o renascimento de uma sociedade. (CUNHA,1966a, v. 1, p.559)   Entretanto como outros homens de seu tempo Euclides da Cunha também viu a "República idealizada" ser obrigada a dar espaço à "República possível", como mostra Nagle (2001): O "espírito republicano", formado no embate ideológico dos fins do Império, se arrefecera gradualmente durante as três primeiras décadas da implantação do novo regime. A República idealizada teve que sofrer amputações para se ajustar às condições objetivas da existência social brasileira dos primeiros trinta anos. Dessa maneira, da República teoricamente construída, de acordo com determinados níveis de aspiração, restou a República possível, realizada sob a orientação  e a pressão das forças sociais mais ponderáveis da situação histórico-social do período. Daí o desânimo - mais que o desânimo, as desilusões e as frustrações - que dominaram a mentalidade dos homens públicos, dos pensadores, dos intelectuais e dos educadores que viveram durante a Primeira República até cerca de 1920. (p. 135)   Os republicanos históricos baseavam a sua convicção e atuação nos pressupostos positivistas e numa determinada vertente do liberalismo - uma vez que acreditavam no papel nivelador da educação, encarada como meio para a equalização social - a "República real" demonstrou-se mais centralizada do que havia sido o Império e com concepções muito mais rígidas para com as camadas populares e suas manifestações culturais. A centralização política e a hipertrofia do poder executivo, que ficou patente, de forma marcante, nos dois primeiros governos republicanos, pareceu desagradar a Euclides da Cunha, que viu até mesmo seus antigos mestres despirem-se de sua ideologia e adotarem posturas mais pragmáticas. A "República da espada" foi substituída pela “República do café com leite”, onde reinou soberana a oligarquia formada pelos grandes latifundiários paulistas e mineiros. Nesse momento de sedimentação desta "República possível" o ideário republicano ficou cada vez mais associado à manutenção do status quo, tendo havido ao longo do processo apenas a mudança de terminologia: o "barão" se transformou em "coronel", na bandeira o verde dos Bragança se tornou o verde de nossas matas e o amarelo dos Habsburgo se tornou o amarelo do nosso ouro e até o Hino imperial ganhou nova letra, mas manteve a melodia. (SCHWARCZ, 1999, p.475). Daremos apenas alguns exemplos dessa continuidade. Episódio que ilustra exemplarmente o quão pouco mudaram as antigas estruturas sociais  na República Velha foi o que envolveu o Barão do Rio Branco:   Era dessa maneira que, em meio a um duplo ato falho, extinguia-se a titularidade. Floriano Peixoto enviou correspondência a Rio Branco informando-o sobre a medida. Nessa ocasião, teria endereçado o envelope ao "Barão do Rio Branco", e este de pronto teria respondido com um "ciente" e traiçoeiramente assinado "Barão do Rio Branco". Além desse deslize, há outro: na Constituinte de 1891, vários nobres assinaram como titulares, e sem usar parênteses. (SCHWARCZ, 1999, p.194)   O Barão do Rio Branco exemplificou uma das contradições dessa jovem república, que não se queria "aristocrática", mas manteve-se oligárquica, que se instaurou pelas mãos de liberais e positivistas, mas manteve-se graças à centralização e ao militarismo. Filho do Visconde do Rio Branco, ele herdou não só o prestígio como o nome do pai, um ilustre representante da elite do Império e "apesar de monarquista convicto, não deixou de ser convocado, anos mais tarde, por Rodrigues Alves para exercer o cargo de Ministro das Relações Exteriores, no qual se manteve até a sua morte em 1912." (SCHWARCZ, 1999, p. 474-475) Paradoxal que a República, que sucedeu ao Império, a qual nominalmente acreditava nas virtudes redentoras da educação para nivelar a sociedade e desenvolver o exercício da cidadania, condenasse todas as manifestações populares e segregasse a população pobre aos morros da periferia do Rio de Janeiro. Euclides da Cunha não ficou alheio a essa contradição, que gerou nele o desencanto e a decepção com o regime com o qual até há pouco ele se identificava. Tendo uma visão idealista e até mesmo romântica do novo regime, segundo os padrões atuais, o jovem que acreditava ser a República a forma mais elevada que uma sociedade poderia atingir, no ano de 1892, em correspondência escrita ao pai confessou seus temores dizendo: "desconfio muito que entramos no desmoralizado regime da especulação mais desensofrida e que por aí pensa-se em tudo, em tudo se cogita, menos na Pátria." (CUNHA, 1997, p. 30) E continuou na mesma correspondência apontando a queda das ilusões e alguns dos protagonistas desse triste enredo, como seu antigo mestre Benjamin Constant.   Imagine o sr. que o Benjamin, o meu antigo ídolo, o homem pelo qual era capaz de sacrificar-me, sem titubear e sem raciocinar, perdeu a auréola, desceu à vulgaridade de um político qualquer, acessível ao filhotismo sem orientação, sem atitude, sem valor e desmoralizado - dói-me dizer isto - justamente desmoralizado. Eu creio que se não tivesse a preocupação elevada e digna  que me nobilita, teria de sofrer muito, ante esse descalabro assustador, ante essa tristíssima ruinaria  de ideais longamente acalentados... Eu sinto-me feliz considerando que o sr. se acha aí, longe, bem longe do ambiente corrupto que nos envolve aqui. (CUNHA, 1997, p. 30.)    Parece-nos que o descontentamento  com o novo regime começou cedo e afetou em demasia o espírito do homem que desejou e lutou pela República. No poema intitulado D. Quixote, escrito em 1890, pouco depois do 15 de novembro, Euclides deixou transparecer principalmente nas duas últimas estrofes a dor daquele que viu seus ideais se perdendo: Assim à aldeia volta o da "triste figura" Ao tardo caminhar do Rocinante lento: No arcaboiço dobrado  - um grande desalento, No entristecido olhar - uns laivos de loucura ...   Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura Do ideal e da Fé, tudo isto num momento A rolar, a rolar, num desmoronamento, Entre os risos boçais do Bacharel e o Cura.   Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente Contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco O brilho da Ilusão do espírito doente;      Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco                                            Perdendo, qual perdeste, um ideal ardente E ardentes ilusões - e não se ficar louco!   (CUNHA,1966d, v. 1, p. 651)       Segundo Abreu (1998) parte do desgosto de Euclides da Cunha  com o novo regime foi porque: "muitos elementos das antigas elites reconverteram seu capital e, em pouco tempo, detiveram novamente cargos e privilégios compondo com os que ascenderam no novo regime político" (p.94) Para o homem que acreditava ser o mérito a forma mais justa de ascender socialmente, a "República possível" em substituição a "República idealizada" tinha o gosto amargo da traição dos ideais. Em correspondência ao poeta e prosador Lúcio de Mendonça (1854 -1909), com data de 1904, Euclides deixou expresso esse sentimento em relação ao mérito, no momento que lhe foi oferecida, pelo então Presidente da República Marechal Floriano Peixoto, a oportunidade de escolher um cargo. Aqui tenho um convite que leio hoje com tristeza e que na ocasião recebi com indiferença.  "29 de janeiro de 1893. Euclides -  o marechal precisa falar-lhe hoje. Pinto Peixoto." Lá fui constrangido na minha farda de 2º. tenente e atrapalhado com a espada. Encontrei o homem na sala de jantar, à vontade, e em um de seus dias de expansão. [...] E o grande dominador abriu-me a apertadíssima pasta da sua intimidade: Veio em ar de guerra ... não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados . Decorei textualmente. [...] O grande doador de posições, referindo-se à minha recente formatura e ao meu entusiasmo pela República, declarou-me que tendo eu  direito a escolher por mim mesmo uma posição, não se julgava competente para indicá-la... Que perspectiva! Basta dizer-lhe que estávamos em pleno despencar dos governadores estaduais!... E eu (nesta época  sob domínio cativante de Augusto Comte, e que isto vá como recurso absolutório)  -  declarei-me ingenuamente que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na E.F.C. do Brasil! Não lhe conto o resto. Quando me despedi pareceu-me que no olhar mortiço do interlocutor estava escrito: nada vales. E tive ainda a inexplicável satisfação de descer orgulhosamente as escadas do Itamarati, atravessar alegremente o saguão, embaixo, e sair agitando não  sei quantos sonhos de futuro... um futuro que desastradamente eu tinha destruído. (CUNHA, 1997, p. 194)     Observando as linhas finais da correspondência percebemos que o remetente já iniciara uma revisão de suas posições, talvez por perceber que a República tão esperada por ele e outros entusiastas não poderia corresponder ao ideário desejado.  Reportando-nos ao episódio da Escola Politécnica de São Paulo, onde Euclides da Cunha tentou ser professor e não conseguiu, tivemos aí um exemplo claro de como se deu a distribuição de cargos e favores em substituição ao mérito. No caso particular de Euclides, a forma com que o diretor e o programa da Escola Politécnica foram tratados no artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo fez com que o jovem engenheiro se tornasse persona non grata à direção da Escola, deixando de ser analisada a sua competência em detrimento de suas concepções políticas. Embora o próprio Euclides também tenha se utilizado do antigo expediente de pedir ajuda a amigos que tinham influência junto aos membros da Politécnica para indicação de seu nome ao cargo de professor. O jogo de poder também foi fundamental para a aceitação da implantação do projeto da Escola Politécnica pelo Congresso Legislativo do Estado de São Paulo, pois seu fundador e primeiro diretor segundo Santana (2001): "O engenheiro Paula Souza nasceu em Itu (Estado de São Paulo), descendente de família de grande influência política e econômica... (p. 54) Lembrando que  a maioria das famílias influentes da cidade de Itu eram ligadas ao movimento republicano e tiveram importante  participação na implantação do novo regime. Esses são alguns poucos exemplos que utilizamos para mostrar que a República idealizada não conseguiu mudar procedimentos tão antigos entre nós e apenas para ilustrar, o próprio Euclides sentiu o benefício do poder de escolha do governo federal na ocasião do concurso do Colégio Pedro II, quando concorreu ao cargo de professor já mencionado nesse trabalho. Entretanto ele sentiu o prazer do reconhecimento do seu talento e mérito quando eleito em setembro de 1903 para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 7. Como podemos observar Euclides da Cunha e seus contemporâneos viveram as contradições da sociedade da Primeira República, que passou a adotar procedimentos condenados e identificados até então como sendo de uma sociedade considerada fossilizada, a imperial. Num panorama que parecia apontar para uma grande ruptura, o que se deu foi a continuidade, já que a mudança do regime político deu-se como conseqüência da alteração do sistema social e econômico - ou seja, o avanço do modo de produção capitalista - e não o contrário. Na realidade não foi o povo quem "assistiu a tudo bestializado", como afirmou Aristides Lobo; "bestializados" ficaram os líderes republicanos ao verem frustrados os seus planos de instaurar uma nova ordem social, sob uma orientação positivista e liberal, pois a oligarquia rural não apenas conseguiu se manter no poder, como adaptou as estruturas jurídico-institucionais do novo regime às suas próprias necessidades, criando a política dos governadores, associada ao "voto de cabresto" e à manutenção dos "currais eleitorais" por parte dos coronéis mais influentes. O discurso do ideário republicano não era tão novo como desejavam seus propagandistas. A defesa da educação, por exemplo, aparece freqüentemente em diferentes momentos no período imperial, como pode ser observado em várias Falas do trono, como a de 3 de maio de 1888, onde segundo a Princesa Isabel: Reorganizar o ensino nos seus diversos graus e ramos, difundindo os conhecimentos mais úteis à vida prática e preparando com estudos sérios e bem dirigidos os aspirantes a carreiras que demandam superior cultura intelectual, é assunto que muito se recomenda à vossa patriótica solicitude. (Falas...,1977, p.504)   Apesar das freqüentes referências a educação que tanto D. Pedro II, como a Princesa Isabel faziam nas Falas do trono, tratava-se de uma preocupação com a preparação dos jovens oriundos das classes dominantes e que seguiriam carreiras de maior prestígio social como as de médico e advogado e quase nunca com os filhos das classes populares. A educação elementar e o acesso das classes subalternas a ela não era a preocupação da elite brasileira. Entretanto, falar em educação associada ao progresso da nação parece-nos que era um exercício elegante. A idéia de modernização da sociedade através da construção de estradas de ferro como caminho adotado para expandir as forças produtivas do país, também figurava nos discursos do Parlamento, como na resposta à Fala do trono em 24 de fevereiro de 1877: "A continuação das obras das estradas de ferro D. Pedro II, Bahia e Pernambuco, e a construção da de S. Pedro do Rio Grande do Sul, prestes a ser iniciada, muito deve influir na expansão das forças produtivas do país" (FALAS..., 1977, p. 440) Como vimos, muito se falou em progresso da nação, em educação como elemento civilizador, porém pouco foi realizado. Apesar dos discursos no Império e principalmente na República, a educação não era para todos. Impossível pensar em construção de uma nação sem atender as necessidades de sua base humana. Como uma sociedade pode tornar-se "civilizada" sem oferecer educação elementar a toda população, negando ou proibindo suas expressões culturais? A República chegou com o ideário de liberdade e igualdade, mas em muitos momentos tornou-se mais conservadora e rígida que o próprio Império. Em nome da civilidade, do progresso e da modernização expulsou, das regiões  centrais da capital federal, a população pobre, empurrando-a para os morros, como já afirmamos, impôs-lhe a ditadura da ciência através da vacina obrigatória, impediu suas manifestações culturais e religiosas. No nordeste do país exterminou com uma população que negava a ordem estabelecida: Canudos. Identificada como sendo um foco de resistência monarquista, a população de Canudos, na verdade, inseria-se dentro de um contexto ao mesmo tempo diverso e mais antigo. Esses foram alguns dos caminhos escolhidos pelo regime republicano e que levaram Euclides a desencantar-se, juntamente com outros entusiastas do regime. No sentido de ampliarmos o leque de possibilidades de discussão sobre o tema poderíamos concluir o nosso raciocínio demonstrando que havia numa mesma geração de intelectuais alguns que se identificavam com a proposta republicana, como Euclides da Cunha, e outros que tinham repulsa à mesma, como o escritor Lima Barreto, mas que, no decorrer do processo e implantação e sedimentação do regime republicano acabaram chegando a conclusões bastante próximas. Euclides partiu de uma atitude francamente favorável ao novo regime (até porque veio da Escola Militar, reduto do abolicionismo e republicanismo) para no decorrer de sua produção desencantar-se. Lima Barreto, neto de escravos libertos, identificava a Monarquia  com os ideais de liberdade e neste sentido nunca deixou de tecer críticas, bastante ácidas, ao regime instaurado por Deodoro. Segundo vários autores, entre eles Schwarcz, havia uma grande identificação do regime imperial com a cultura popular, a qual estava muito presente e próxima ao poder, ao redor e mesmo dentro do próprio paço imperial. A República, ao contrário, segrega a cultura popular e elitiza o centro das decisões administrativas, instalando o Presidente no Palácio do Catete, relativamente afastado do velho centro da cidade do Rio de Janeiro, o qual, como dissemos, foi "regenerado". Tanto Euclides como Lima Barreto, portanto, tinham a dizer contra a República, da sua excessiva centralização administrativa, da falta de permeabilidade à cultura popular e do isolamento social a que foram condenados determinados segmentos da população. Diferentemente do que ocorreu na época imperial, e mesmo na República Velha, a escolarização deveria ser estendida a toda a população, pois para os homens desse tempo, como Euclides, a educação é que prepararia a população para a superação do atraso em que se encontrava o país e superação da desigualdade social reinante. A falta de vontade política dos governantes, devida à tomada do poder pelas oligarquias rurais, que não olhavam para a grande massa da população, foi mais um ingrediente na composição do desencanto com o jovem regime e com os homens que estavam à sua frente. Porém é importante evidenciar que Euclides da Cunha não teve tempo de reavaliar seus conceitos e seus posicionamentos políticos, morrendo precocemente, aos 43 anos de idade, no auge de sua produção intelectual e num momento em que essas questões estavam  sem solução, ao menos para ele.   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   ABREU, Regina. O enigma de Os sertões. Rio de Janeiro: Funarte, Rocco, 1998. BELLO, José Maria. História da república. São Paulo: Nacional, 1969.  CARONE, Edgar. A República velha - Instituições e classes sociais. 4. ed. São Paulo, Difel, 1978 p. CARTOLANO, Maria Teresa Penteado. Benjamin Constant e a instrução pública no início da República. 1994. 201 p. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Campinas/SP. CUNHA, Euclides da. Atos e palavras. In: COUTINHO, A. (org.). Euclides da Cunha: obra completa.  Rio de Janeiro: José Aguilar, 1966a, v.1, p. 549 - 560. _____. Correspondência. In: GALVÃO, W. N.; GALOTTI, O. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp, 1997. ______. D. Quixote. In: COUTINHO, A. (org.). Euclides da Cunha: obra completa.  Rio de Janeiro: José Aguilar, 1966d, v.1, p.651. CHAUI, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. FALAS  do trono desde 1823 até o ano de 1889.  Brasília, D.F.: INL/MEC, 1977. LEITE, Dante Moreira. O caráter nacional brasileiro: História de uma ideologia. São Paulo: Pioneira Editora, 1983. NAGLE, Jorge. Educação e sociedade na primeira república. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. SANTANA, José Carlos Barreto de. Ciência e Arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais. São Paulo: Hucitec – Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001. SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador. D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo, Companhia das letras, 2.ed. 1999. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1999.   [1] Este artigo apresenta uma parte modificada do último capítulo da dissertação de mestrado com o título de o Projeto de construção da nação republicana na visão de Euclides da Cunha, defendida na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, em 2004.A

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