São José do Rio Pardo - sexta, 28 de julho de 2017
"Esse país ainda não teve um interprete, eu posso ser o interprete que esse país ainda não teve."
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Postado em: 12/02/2016

Euclides da Cunha, um tapuia na mesma Academia de Machado, Nabuco e Geraldo de Holanda Cavalcanti e a luta Euclidiana pela ecologia para transformar utopia em realidade nacional - Alexandre Azevedo e Elisa Bechuate Azevedo


EUCLIDES DA CUNHA, UM TAPUIA NA MESMA ACADEMIA DE MACHADO, NABUCO E GERALDO DE HOLANDA CAVALCANTI E A LUTA EUCLIDIANA PELA ECOLOGIA PARA TRANSFORMAR UTOPIA EM REALIDADE NACIONAL   Alexandre Azevedo[1]  Especialista em Língua Portuguesa e Estudos Literários Centro Universitário Barão de Mauá   Elisa Bechuate Azevedo[2] Graduada em pedagogia  Universidade Luterana do Brasil,   RESUMO: Euclides da Cunha tornou-se um imortal da ABL (Academia Brasileira de Letras) cinco anos após a publicação de sua obra-maior “Os Sertões”, passando a conviver diretamente com intelectuais da envergadura de Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Aluísio e Artur Azevedo. Ao longo de sua história, a ABL passou por grandes transformações, nem sempre positivas, tendo o silogeu até mesmo recebido críticas do próprio Euclides da Cunha. Em 2010, mais um novo fato colocou a mesma academia em evidência: a eleição do escritor e diplomata Geraldo de Holanda Cavalcanti, genro de Dilermando de Assis. De imortal acadêmico a um verdadeiro tapuia, Euclides da Cunha já escrevia a sua história como um humanista, preocupado com as questões ecológicas, ambientais e sociais. A experiência de Euclides da Cunha como repórter na guerra de Canudos, tornou-o apto a ser um porta-voz dos injustiçados e desvalidos, mostrando a realidade destes não só aos intelectuais acadêmicos como ao povo brasileiro. Visto por muitos como um visionário, a verdade é que Euclides da Cunha tornou-se um dos primeiros ecólogos do Brasil e a sua obra é uma referência para a atual pesquisa sobre esses assuntos.   Palavras-chave: Academia; ecologia; cidadania; humanismo.   Idealizada por Lúcio de Mendonça (1854-1909), fundada por Machado de Assis (1839-1908) e Joaquim Nabuco (1849-1910) em dezembro de 1896, a Academia Brasileira de Letras ou simplesmente Casa de Machado de Assis, tornou-se a instituição literária mais amada e odiada do Brasil. Apesar de símbolo do conservadorismo intelectual, teve a Academia, ao longo de sua história, alguns rompantes de liberalismo. Entretanto, antes de entrarmos no mérito desta questão, vale o registro da importância de Joaquim Nabuco – o grande homenageado de 2010 por ocasião do centenário de sua morte – não só na fundação da citada Casa como na sua consolidação. Seguindo o modelo histórico-literário da Academia Francesa, coube a Machado de Assis a ala literária e ao autor de “Minha Formação” a histórica. Sua influência sobre os outros acadêmicos era tão grande que como não aceitar em seu quadro de escritores Graça Aranha (1868-1931), que na época de sua candidatura, não havia sequer publicado um livro – condição sine qua non para a inscrição de quem almejava uma cadeira de imortal –, mas que era o fiel escudeiro e secretário particular de Joaquim Nabuco? E que história teve o grande romancista de “Canaã” dentro da Academia. Conhecido como “o padrinho dos novos escritores”, Graça Aranha, representante do pré-modernismo na Semana de Arte Moderna, revoltando-se contra o pensamento acadêmico de seus confrades, gritou a plenos pulmões: “se a Academia não se renova, morra a Academia!” (FERNANDO JORGE, p.123), desligando-se dela, sem, contudo, ter deixado de ser um imortal. Aliás, não há explicação melhor que a de Olavo Bilac (1865-1918) – um dos vários sócios fundadores – sobre o porquê de chamar todo acadêmico de imortal. Segundo o parnasiano “poeta das estrelas”, o acadêmico é imortal porque não tem onde cair morto. O certo é que a Academia teve lá as suas inconveniências, mas também (raros) pontos a favor. O primeiro inconveniente da Academia foi a polêmica eleição de Mário de Alencar (1872-1925), filho do grande amigo de Machado, José de Alencar (1829-1877). Com a morte da esposa, Carolina Novaes, “o Bruxo do Cosme Velho”, como o batizou em um poema Carlos Drummond de Anrade (1902-1987), praticamente só aceitava sair de casa se estivesse na companhia de Mário de Alencar, este tratado por Machado como um filho, que nunca teve. E, por esse motivo, deixou de frequentar as reuniões semanais da Academia, já que Mário de Alencar não era acadêmico, portanto, impedido de entrar na pequena sala de reuniões. A solução para tal impasse estava debaixo dos fartos bigodes dos intelectuais: fazer do filho do Alencar um imortal. Dito e feito. Em 1905, três anos antes da morte de Machado, Mário de Alencar assumiu a cadeira que antes fora de José do Patrocínio (1853-1905), tendo sido recebido por Coelho Neto (1864-1934), outro grande amigo de Machado de Assis. E o que dizer da eleição de Getúlio Vargas (1882-1954)? Ninguém ousou a entrar na disputa pela cadeira 37, anteriormente ocupada por José de Alcântara Machado (1875-1941). Eleito por unanimidade, Getúlio Vargas proferiu um dos mais belos e profundos discursos sobre o árcade-maior, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), o patrono da cadeira. E nessa linha getuliana, de pseudoescritores, um número considerável já exibiu, de maneira imponente, o fardão acadêmico: Roberto Marinho (1904-2003), Marco Maciel (1940), Ivo Pitanguy (1926), além de Alberto Santos Dumont (1873-1932), o “pai da aviação”, que não chegou a tomar posse. Também não podemos nos esquecer das incríveis recusas de autores que, hoje, seriam convidados a fazer parte do tão disputado assento: Cruz e Sousa (1861-1898), Lima Barreto (1881-1922), Monteiro Lobato (1882-1948), Oswald de Andrade (1890-1954), Mario Quintana (1906-1994), célebre autor do “Poeminha do Contra” (os acadêmicos que o rejeitaram por algumas vezes): Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão. / Eu passarinho!... (QUINTANA, 1973, p.59) Há também aqueles nomes que não podiam (e não podem) nem cogitar a possibilidade de ingressar na casa machadiana, dentre os famosos antiacadêmicos, podemos citar: Graciliano Ramos (1892-1953), Érico Veríssimo (1905-1975), Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros (1916), Antonio Candido (1918), Dalton Trevisan (1925). Em contrapartida, a mesma academia redimiu-se em eleições jamais pensadas, surpreendendo até os mais antiacadêmicos de todos, a começar pela eleição de João do Rio (1881-1921), pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o cronista da cidade carioca, o nosso “Oscar Wilde brasileiro”, o primeiro a exibir o pomposo fardão acadêmico. Outra importante e necessária eleição foi a de Rachel de Queirós (1910-2003), quebrando um preconceito de 81 anos acadêmicos, fazendo com que a primeira mulher finalmente se tornasse uma imortal – anos antes a mesma Academia havia recusado a candidatura de Dinah Silveira de Queirós (1911-1982), que só viria a ser eleita em 1981, além da escritora e jornalista Amélia de Freitas Beviláqua, esposa do imortal jurista Clóvis Beviláqua (1859-1944). Este, indignado com tal recusa, escreveu:   A interpretação dada aos Estatutos da Academia pela maioria dos membros da corporação é, manifestamente, ábsona (discordante). Repelem-na, além dos preceitos elementares de hermenêutica, os sentimentos da justiça e a mentalidade contemporânea, que não considera a inteligência da mulher, no poder criador e no brilho, inferior à do homem e lhe abre espaço a todas as nobres conquistas do espírito, com alto proveito para a civilização (FERNANDO JORGE, 1999, p.161).   Para amenizar esta falha tão grave, Josué Montello (1917-2006), um dos mais ardorosos defensores da Academia Brasileira de Letras, em seu “Anedotário geral da Academia Brasileira”, escreveu sobre uma possível presença da mulher entre os acadêmicos: Quando faleceu Francisca Júlia da Silva, coube a Humberto de Campos fazer-lhe o necrológio, numa das sessões ordinárias da Academia. Grande admirador da poetisa paulista, Humberto ressaltou, no seu discurso, que, se o quadro dos sócios efetivos da Casa de Machado de Assis admitisse a presença feminina, a poetisa de Mármores, com toda a certeza, teria participado desse quadro (MONTELLO, 1974, p.84). Outra grande polêmica foi a eleição de Guilherme de Almeida (1890-1969), o primeiro modernista a se tornar imortal, abrindo as suas imponentes portas para outros modernistas, como Manuel Bandeira (1886-1968), Cassiano Ricardo (1895-1974), este responsável por convencer a Academia Brasileira de Letras a comemorar o aniversário da Semana de 22, evento eminentemente antiacadêmico, Menotti Del Picchia (1892-1988). Também vale a pena registrarmos a eleição do cineasta Nélson Pereira dos Santos (1928), que transpôs para a tela obras consagradas de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa (1908-1967) – o escritor que menos tempo ficou como imortal, apenas 72 horas. A histórica presidência de Nélida Piñon (1937), a primeira mulher a presidir uma academia nacional, vale também um registro. Excetuando-se aí Machado e Nabuco, Euclides da Cunha (1866-1909) sempre foi a “menina dos olhos” daquele Silogeu. O sucesso esplendoroso de “Os Sertões” fez com que o novel escritor ingressasse não só no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro como também na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 7, cujo patrono é o condoreiro poeta dos escravos, Castro Alves (1847-1871), sucedendo ao crítico literário e um dos sócios fundadores Valentim Magalhães (1859-1903). Entretanto, Euclides da Cunha também deixou escapar farpas à instituição, numa carta a Domício da Gama, datada de 5 de agosto de 1907, por ocasião de uma tentativa de reforma ortográfica: Não sei se aí já chegaram notícias da Reforma Orthographica... (Aí deixo, nestes maiúsculos e nestes HH, o meu espanto e a minha intranzijencia etimolojica!) Realmente, depois de anos de alarmante silêncio, a Academia fez uma coisa assombrosa: trabalhou! Trabalhou deveras durante umas três dúzias de quintas-feiras agitadas – e ao cabo expeliu a sua obra estranhamente mutilada, e penso que aborticida (FERNANDO JORGE, 1999, p.48).     Pulando de emprego em emprego, vivendo em precária situação financeira, Euclides conhecera uma academia bem distante do que ela é hoje: uma rica instituição capaz de pagar uma boa quantia em dinheiro para todo aquele imortal que frequentar as reuniões semanais com direito ao tradicional chá com biscoito – não podemos nos esquecer, obviamente, do mausoléu a que todo “imortal que morre” tem, contrariando assim a máxima bilaquiana que é imortal porque não tem onde cair morto. Naquela época de Euclides, a Academia não passava de uma salinha pobre alugada no centro do Rio de Janeiro pelos acadêmicos, sob a presidência do já então viúvo Machado de Assis, e que, por esse motivo, já não estava nem um pouco interessado em presidi-la. Se de um lado, a Academia teve como presidente o seu fundador, por outro ela também teve a sorte de ser presidida pelo jornalista Austregésilo de Ataíde (1898-1993) que, por quase 35 anos à frente da instituição, de 1959 a 1993, fez com que o “Petit Trianon brasileiro” se tornasse uma grande “empresa literária”. Essa virada deveu-se e muito ao livreiro e editor luso-brasileiro Francisco Alves (1848-1917) que fez da Academia a sua herdeira universal, espécie de “Alfred Nobel brasileiro”, com a condição de premiar os escritores. Afrânio Peixoto não viu com bons olhos a herança deixada pelo livreiro: (...) há muito estou convencido de que, com o seu legado, o velho Alves a matou. A herança do livreiro tornou-a requestada, não pelos mais capazes, mas pelos mais insinuantes. Insinuantes das mais diversas formas: pelo prestígio, pela força, pela afabilidade. Tornando-se rica, a Academia se fez mundana e muitos querem entrar para lá apenas pela fama social que ela empresta aos seus membros (FERNANDO JORGE, 1999, p.268).   Pobre Euclides – pobre agora no sentido metafórico – por ter frequentado a Academia por apenas três míseros anos – tomou posse em dezembro de 1906 e morreu em agosto de 1909 –, já que tombou mortalmente na varanda da casa da Piedade, alvejado pelos tiros do jovem tenente Dilermando de Assis (1888-1951), amante de sua mulher Ana. Levado o corpo do imortal para ser velado pelos acadêmicos, notamos – pela fotografia – o quanto era pobre aquela Academia, sem a pompa de hoje que lhes é oferecida. E Dilermando? O que foi feito dele? Baixou hospital, já que também fora alvejado por Euclides da Cunha, e, após algum tempo entre a vida e a morte, prevaleceu a primeira. Entretanto, foi levado à prisão, para depois ser julgado e absolvido, graças ao brilhantismo do então rábula Evaristo de Moraes (1871-1939). E Ana da Cunha? Tornou-se Ana de Assis. Mas não viveram felizes para sempre. Sete anos após a “Tragédia da Piedade”, outra tragédia, de igual proporção, comoveu o povo brasileiro: Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, com o intuito de lavar a honra do pai, saiu à caça de Dilermando pelas ruas do Rio do Janeiro. Incrivelmente, a cena se repetiu: Dilermando e Euclides da Cunha (filho) trocaram tiros. E como da primeira vez, Euclides caiu morto. E Dilermando? O que foi feito dele? Baixou hospital, já que também fora alvejado por Quidinho, e, após algum tempo entre a vida e a morte, prevaleceu a primeira. Entretanto, foi levado à prisão, para depois ser julgado e absolvido, graças ao brilhantismo do ainda rábula Evaristo de Moraes, que acabaria se formando em Direito somente aos 45 anos de idade, tendo sido o orador de sua turma. E Ana de Assis? Após separar-se de Dilermando, reatou o casamento. E mais uma vez não foram felizes para sempre... Ao descobrir que agora era Dilermando quem possuía uma amante, separou-se dele definitivamente. E Dilermando casou-se. E desse novo casamento nasceu Dirce de Assis. E dona Dirce tornou-se Dirce de Assis Cavalcanti, esposa do diplomata e do escritor Geraldo de Holanda Cavalcanti (1929), que, sucedendo ao bibliófilo José Mindlin (1914-2010), tornou-se o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras. Para a Academia, caso encerrado. Mas Euclides da Cunha continua sendo a sua “menina dos olhos”...  E não só da Academia Brasileira de Letras, mas também da cidade de São José do Rio Pardo que, desde 1912, promove, sem interrupção, o evento cultural mais antigo do Brasil, a Semana Euclidiana, que, neste ano será realizada, de 09 a 15 de agosto como de costume, a 98ª Semana Euclidiana e só estando em São José do Rio Pardo, no período desta Semana, para alcançarmos a real dimensão da grandiosidade do fenômeno cultural euclidiano. Difícil imaginar apenas ouvindo dizer ou lendo a respeito, tratar-se de uma preservação de memória tão impressionante: os eventos são emocionantes, os estudiosos realmente dedicam-se a uma verdadeira maratona intelectual, numa interação admirável com os alunos, que chegam a São José e, aos poucos, são tragados para um mundo disciplinado e consciente que, de maneira única, faz desses jovens, brasileiros totalmente diferenciados e com a possibilidade de alcançarem um verdadeiro caráter transformador. Com todos esses bons ventos a favor e com a bênção do nosso ilustre professor, engenheiro, jornalista, ensaísta, historiador, poeta, sociólogo, ecólogo e visionário, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, não podemos desperdiçar a chance de, além de reverenciar a memória de tão magnífico intelectual, plantar e cultivar a semente do progresso do nosso País, incutindo em mentes frescas e joviais, a força e a responsabilidade para a luta, a verdadeira luta euclidiana em busca incansável por igualdade social e cidadania. Quem dera se toda a manifestação de vingança fosse um livro vingador como foi “Os Sertões”: “Não tive o intuito de defender os sertanejos porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque” (CUNHA, 2000, p.524). Se todos anunciassem e denunciassem através de levantes intelectuais, as injustiças e mazelas humanas, provavelmente a situação do nosso planeta fosse bem outra. O comportamento humano tem deixado, de maneira geral, muito a desejar. E esta obra grandiosa ainda nos oferece um banquete para observação do comportamento humano em tantos e variados aspectos. A preguiça, a inveja, o não compromisso, a ganância, a crítica desinformada, a irresponsabilidade e tantos outros males têm permeado a vida dos seres humanos. O sonho de “ordem e progresso”, tradução do lema fundamental do Positivismo: “o Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, parece-nos a cada dia mais difícil de ser concretizado, uma verdadeira utopia, já que é trabalho para cidadãos dispostos a um esforço de guerra, a uma incondicional união nacional, de caráter moral, ético e social. Precisaremos beber da fonte positivista cuja ideologia pregava o combate entusiasmado pelas causas abraçadas. A diferença é que a guerra agora é outra, ou melhor, talvez ainda seja a mesma, apenas as armas, conforme nos mostrou Euclides, podem ser outras: as palavras. Argumentar com uma gana visceral em defesa das causas humanas e sociais é nosso maior desafio, já que tudo de mais triste e desanimador que existiu ao tempo de Canudos ainda vive: as injustiças de poderosos contra os pobres e enfraquecidos pela luta desigual por sobrevivência e dignidade, o analfabetismo, a corrupção (que mina tantas reservas de esperança), o desgaste assustador de recursos ambientais que tem empobrecido nosso planeta, a precariedade no sistema de saúde de forma geral. Sobre esta última, Euclides da Cunha reproduz uma fala de um capuchino que fora visitar a Belo Monte de Antônio Conselheiro (1830-1897):  (...) aproveitei a ocasião de estarmos quase a sós e disse-lhe que o fim a que eu ia era todo de paz e que assim muito estranhava só enxergar ali homens armados e não podia deixar de condenar que se reunissem em lugar tão pobre tantas famílias entregues a ociosidade, num abandono e misérias tais que diariamente se davam de oito a nove óbitos. Por isto, de ordem, e em nome do Sr. Arcebispo ia abrir uma santa missão e aconselhar o povo a dispersar-se e a voltar aos lares e ao trabalho no interesse de cada um e para o bem geral (CUNHA, 2000, p.174).   Mas no Brasil, de norte a sul, de leste a oeste, um País tão grande com tantas diversidades, com imensa população, com características só suas, só nossas, ainda sobrevive, certamente, uma grande e imortal ideia de nosso querido Euclides: “a primeira condição prática, positiva e utilitária da vida é aformoseá-la...” (CUNHA, p.37) Eis a nossa luta pela beleza da vida. O vocábulo “sertões” traz impresso feito tatuagem a imagem da aridez, da escassez da água. A falta deste recurso ou, por outro lado, o descontrole da força da água, que provoca enchentes, maremotos e outros acidentes ambientais são fenômenos assustadores. Quem leu “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão (1936), mais do que um simples romance ecológico, sabe muito bem o que é chocar-se diante da escassez de água:   Às 14 horas de hoje, o Museu dos Rios Brasileiros, conhecido popularmente pela designação de a Casa dos Vidros de Água, localizado no que antigamente foi o Largo do Arouche, recebeu uma afluência fora do comum. De repente, para espanto dos vigilantes, centenas de pessoas começaram a entrar e a se espalhar. Aparentemente, queriam apenas olhar os milhares de litros que continham as águas dos rios, riachos, ribeirões, nascentes, lagos, lagoas, fontes e olhos-d’água de todo o Brasil. A Casa dos Vidros de Água foi o mais completo e admirado museu hidrográfico do mundo, apreciado por especialistas do universo inteiro que ali sempre fizeram suas pesquisas hídricas. Organizado na década de oitenta por cientistas da Universidade de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Espírito Santo e da Paraíba, teve a colaboração de pesquisadores de todo o país. A cooperação popular foi grande. Levou-se doze anos para se atingir a perfeição atual. Em dezenas de salas, cada uma abrangendo uma região, podia se ver os litros, de colorações diferentes, além de gravuras, fotos, mapas, gráficos, legendas. A biblioteca e a filmoteca completavam o conjunto. A discoteca guardava relíquias, como o ruído das cachoeiras, principalmente da Foz do Iguaçu, o som da extinta pororoca, o murmúrio de regatos. Quando os vigilantes se despreocuparam, relaxando a fiscalização, tudo aconteceu. Em questão de minutos. Sem que houvesse qualquer chance de impedir. As pessoas passaram a abrir os vidros e a beber a água. Bebiam e se molhavam. Saíam com as roupas ensopadas. Quando os Civiltares chegaram, minutos depois, sobrava um só vidro fechado. A maioria dos depredadores fugiu, arrebentando portas e janelas. Alguns foram presos. Suspeita-se que tenham sido aliciados por alguma organização. Sabe-se que no começo da tarde espalhou-se o boato de que a Casa dos Vidros de Água estava sem corpo de guarda. E que havia muita água estocada lá dentro. Um dos presos, durante a verificação, disse: - Quem é que queria ver água de rio? A gente tinha sede, isso sim. Então, fomos beber a água que era nossa, por direito. Eu procurei a água de um riacho que passava atrás de minha cidade. Um rio onde nadava quando criança. Foi dele que bebi. A água está aqui na minha barriga. Podem tirar se quiser. Pessoas entrevistadas disseram que ninguém suportou o calor hoje. Foi o dia mais quente do ano, registrado nos institutos oficiais. O sol deve ter alterado o comportamento de todo mundo. Meteorologistas acentuam que a temperatura tende a subir, ainda mais que nos aproximamos dos meses que, em outros tempos, correspondiam ao verão. O Esquema está de prontidão para tomar duas providências. Impedir que a migração para esta cidade continue, uma vez que ela é a causa de graves problemas. Em segundo lugar, adotar medidas, como a construção de gigantesca Marquise para proteger o povo do sol e da intensa onda de calor que se abate sobre o país (BRANDÃO, 1982, p.141-2).     No nosso planeta, cuja proporção de água e terra é de 3/1, às vezes pode até parecer absurdo, que a nossa interferência na natureza, com nosso descaso e omissão, pode levar-nos a uma situação tal de desolamento, abandono e sertões, e poderá ser tarde demais para nos conscientizarmos. Mas, infelizmente, talvez cumpram-se as profecias de Euclides e Loyola. Em “Plano de uma Cruzada”, presente em sua obra “Contrastes e Confrontos”, escreve Euclides: “O deserto invoca o deserto. Cada aparecimento de uma seca parece atrair outra, maior e menos remorada, dando à terra crescente receptividade para o flagelo (CUNHA, 1923, p.80). Também em “Os Sertões”, Euclides da Cunha profecia um verdadeiro apocalipse: “Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente, assumiu, em todo decorrer da História o papel de um terrível fazedor de desertos” (CUNHA, 2000, p.50). A seca nordestina como fenômeno previsível foi logo observada por Euclides; no entanto, diante do panorama assustador não se entregou, pelo contrário, reuniu todo o seu conhecimento e criatividade e presenteou-nos com sugestões e propostas para minorar o sofrimento daquela população. Infelizmente, por razões que nos fogem aos domínios da compreensão somente muito recentemente, já com uma perda de tempo incalculável, podemos assistir muitas ideias euclidianas serem colocadas em prática: a maior quantidade possível de poços artesianos, açudes, arborização em vasta escala, irrigação, etc. Em 1904, Euclides não só já se preocupava com a seca, mas também com a ecologia, falando de efeitos devastadores das queimadas para a reutilização da terra, da queima de árvores para obtenção do carvão-combustível para as locomotivas, efeitos nefastos do desmatamento... E, quaisquer que sejam hoje em dia nossas pesquisas ecologicoambientais, nossas aflições com o futuro da Terra ou a nossa pressa para dar início a algum trabalho efetivo no sentido da luta ambiental, primeiro teremos de ir ter com o próprio Euclides, através da leitura e pesquisas em seus escritos, pois é como que se sua obra tivesse para nós o sentido de uma jurisprudência em defesa das causas eminentemente humanas, contando ainda que, se ele próprio pudesse nos orientar, certamente diria que nunca deixássemos de ser como ele próprio, “eternos estudantes”, sem a acomodação típica dos que acham que já sabem tudo ou que já fizeram o que podiam.   Referências BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum, São Paulo: Círculo do livro, 1982. CUNHA, Euclides da. Os sertões, São Paulo: Publifolha, 2000. ________________. Contrastes e confrontos, Porto: Lélio & Irmão, 1923. ________________. Peru versus Bolívia, 3ª edição, Rio de Janeiro: Editora Record, s/d. JORGE, Fernando. A Academia do fardão e da confusão, São Paulo: Geração Editorial, 1999. MONTELLO, Josué. Anedotário geral da Academia Brasileira, 2ª ed. São Paulo: <a href="http://vagasde.com/motorista-sc-blumenau/" rel="dofolow">trabalho emprego</a> Livraria Martins editora, 1974. QUINTANA, Mario. Caderno H, Porto Alegre: Editora Globo, 1973.             [1] Professor de literatura luso-brasileira, filosofia, sociologia e escritor, especialista em Língua Portuguesa e Estudos Literários pelo Centro Universitário Barão de Mauá, graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Moura Lacerda, autor de mais de 70 obras, infantis, juvenis e adultas. Em 2009, a editora Saraiva lançou um catálogo especial em comemoração aos seus 20 anos de carreira literária.   [2] Professora e educadora, formada em pedagogia pela Universidade Luterana do Brasil, consultora de etiqueta e comportamento, autora de “Etiqueta Cotidiana” e “Artes e Boas Maneiras Educam”, e curadora das exposições “Peregrinando pelos Sertões de Antônio Conselheiro” e “São José do Rio Pardo Naïficamente”.     e 

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