São José do Rio Pardo - domingo, 28 de maio de 2017
"O sertanejo é antes de tudo um forte, não tem o raquitismo exaus­tivo dos mestiços do litoral."
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Postado em: 17/02/2016

Euclides da Cunha: A História como Tragédia - Roberto Ventura


EUCLIDES DA CUNHA: A HISTÓRIA COMO TRAGÉDIA     ROBERTO VENTURA   Publicado em 1902, Os sertões é uma obra híbrida que transita entre a literatura, a história e a ciência, ao unir a perspectiva científica, de base naturalista e evolucionista, à construção literária, marcada pelo fatalismo trágico e por uma visão romântica da natureza. Euclides da Cunha recorreu a formas de ficção, como a tragédia e a epopéia, para estilizar a guerra de Canudos e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular. Cobriu o conflito, de agosto a outubro de 1897, como correspondente de O Estado de S. Paulo, acompanhando a quarta e última expedição, formada por oito mil soldados. A epopéia gloriosa da República brasileira, pela qual combatera na juventude, adquiriu caráter de tragédia na violenta intervenção militar que testemunhou no sertão da Bahia. Relatou, em sua última reportagem, o sangrento combate de 1o de outubro: “Felizes os que não presenciaram nunca um cenário igual...”. As pilhas de cadáveres e o monte de feridos que gemiam amontoados no chão lhe lembraram o vale do Inferno, que o poeta Dante Alighieri (1265-1321) percorreu n’A Divina Comédia. Tal visão demoníaca deixou profundas marcas no ex-militante republicano: “acreditei haver deixado muitas idéias, perdidas, naquela sanga maldita, compartindo o mesmo destino dos que agonizavam manchados de poeira e sangue...” A guerra se tornou uma experiência-limite, que o colocou em contato com a morte vã e inglória e com a crueldade covarde e abjeta. O mal absoluto, que Euclides encarou no vale da morte em Canudos, foi também exposto pelo escritor polonês Joseph Conrad, ao enfocar a colonização predatória do Congo belga em O coração das trevas (1902), ou pelo italiano Primo Levi, em Se isso é um homem (1947), com seu relato do horror inominável dos campos de concentração alemães. Euclides elaborou, no livro de 1902, seu remorso e perplexidade com o desfecho brutal da campanha, para o qual contribuiu, ainda que de modo involuntário, com artigos exaltados em O Estado de S. Paulo, que se encerravam com os brados patrióticos de “viva a República” ou “a República é imortal”. Fizera coro, como quase toda a imprensa, àqueles que viam na rebelião um grave perigo para o novo regime. Passou quatro anos após o término da guerra, preenchendo centenas de folhas de papel, para ordenar o caos e superar o vazio trazidos sob o impacto daquela “região assustadora”, de onde voltou deprimido e doente. Seguia revendo na mente as “Muitas cenas do drama comovente/ De guerra despiedada e aterradora”, conforme escreveu no poema “Página vazia”. Traçou, em Os sertões, um retrato de Antônio Conselheiro, o líder da comunidade, como personagem trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o levaram à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a “linha reta”, que seguia desde a juventude, entendida como a fidelidade aos princípios éticos aprendidos com o pai, amparados na crença no progresso e na República. Filho de um comerciante de Quixeramobim, no interior do Ceará, Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, iniciou sua peregrinação mística na década de 1870, depois de ter sido abandonado pela mulher, que fugira com um policial. Seus familiares participavam, desde a década de 1830, de um sangrento combate contra um clã inimigo. Para Euclides, tal luta entre famílias teria criado uma “predisposição fisiológica” nos seus descendentes, que tornou hereditários os rancores e as vinganças, de modo semelhante aos personagens trágicos dos mitos gregos.   A história como ficção   O historiador norte-americano Hayden White já havia observado, em ensaio de 1987, que a diferença entre história e ficção reside mais no conteúdo do que propriamente na forma. A história trata de acontecimentos reais, passíveis de comprovação, enquanto a ficção apresenta fatos imaginários ou inventados. Ambas são porém construções verbais, que ordenam e codificam os fatos de acordo com as formas de ficção adotadas. O crítico canadense Northrop Frye enfocou, em Anatomia da crítica (1957), o personagem trágico como um líder, situado entre o divino e humano, que se move do heróico ao irônico, por ser muito grande se comparado ao homem comum, mas que se mostra falho frente aos deuses ou ao destino: “O herói trágico situa-se tipicamente no topo da roda da fortuna, a meio caminho entre a sociedade humana, no solo, e algo maior, no céu.” Limitado por uma ordem natural ou divina, o protagonista da tragédia é humilhado e acaba por entrar em agonia, muito distante da postura heróica inicial. Frye define a atitude irônica a partir do eíron, o homem que se deprecia. A ironia gera um arranjo de palavras que se afasta da afirmação direta ou óbvia em favor dos sentidos velados mas sugeridos: “O termo ironia indica uma técnica, de alguém parecer que é menos do que é, a qual, em literatura, se torna muito comumente uma técnica de dizer o mínimo e de significar o máximo possível.” E conclui: “O escritor de ficção irônica, portanto, censura-se”. Ao contrário da tragédia, em que a catástrofe do herói se relaciona de forma plausível com seu caráter e ações, a ironia torna arbitrária a situação trágica, ao mostrar que a vítima é um bode expiatório, escolhido por acaso e que não merece o que lhe acontece. Surgindo da comédia e da ficção realista, a ironia se move em direção ao mito, fazendo surgir os contornos obscuros das cerimônias de sacrifício.   Sob o signo da ironia   Euclides recorreu à ironia, para mostrar como a guerra de Canudos negou ou inverteu o mito glorioso da Revolução Francesa. Conhecera tal mito pelos relatos românticos de Victor Hugo, com o romance Noventa e três (1874), sobre a guerra dos camponeses católicos da região da Vendéia, e de Jules Michelet, com a História da Revolução Francesa (1874-53), que transformaram o povo em herói coletivo. Fez, em Os sertões, a autocrítica do patriotismo exaltado de suas reportagens e se afastou da comparação entre a história brasileira e a Revolução Francesa. Em seus artigos iniciais sobre a guerra, como “A nossa Vendéia”, aproximara o conflito no sertão baiano da rebelião em 1793 dos camponeses monarquistas e católicos contra a França revolucionária. Reconhecia a omissão de sua cobertura jornalística, ao relatar no livro, ainda que de forma velada, o massacre dos prisioneiros, sobre o qual antes se calara. Euclides viu o sertão como o reflexo do litoral, ambos dominados pela mesma barbárie. Tal nota pessimista encontrou expressão nas inúmeras antíteses, que indicam suas próprias hesitações no julgamento da guerra. Canudos é a “Tróia de taipa dos jagunços”, misto de cidadela inexpugnável e de labirinto de casebres de barro, cuja luta evocaria os feitos épicos cantados por Homero. O sertanejo é um herói monstruoso, “Hércules-Quasímodo”, tão forte quanto desgracioso. Conselheiro um “pequeno grande homem”, que entrou para a história, como poderia ter ido para o hospício...   A história como tragédia   Euclides concebeu a história como drama trágico, ao escrever sobre os conflitos armados dos primeiros anos da República, como a Revolta da Armada (1893-4) e a guerra de Canudos (1896-7), dos quais foi testemunha ou participante. Empregou imagens ligadas às artes plásticas e cênicas, para apresentar a história como se fosse uma peça de teatro ou os quadros de uma exposição. Leu, ao longo da vida, os trágicos gregos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, além dos dramas de Shakespeare. Redigiu grande parte de Os sertões em São José do Rio Pardo, de 1898 a 1901, enquanto dirigia a reconstrução de uma ponte metálica sobre o rio. À frente do barracão, de onde fiscalizava as obras, escreveu a indagação cruel e irônica do Hamlet de Shakespeare, surpreso com a alegria de sua mãe, a rainha Gertrude, após a misteriosa morte do marido: “What should a man do but be merry?” (“O que pode um homem fazer senão alegrar-se?”) Berthold Zilly, tradutor alemão da obra, observou que o engenheiro-escritor recria a guerra como tragédia, em que o não-herói, o sertanejo, se revela como o único herói numa transfiguração quase milagrosa de apoteose: “A História é apresentada como trágica, repleta de infelicidades, infâmias e catástrofes, um imbricamento de progressos e retrocessos marcados por hecatombes.” O espaço geográfico se transforma, nas palavras de Euclides, em palco de um “emocionante drama” histórico. O sertão de Canudos é um “monstruoso anfiteatro”, cujo isolamento se reforça pelo majestoso círculo de montanhas, que evoca os teatros ao ar livre da antigüidade. A matança dos prisioneiros é tomada como “um drama sanguinolento da Idade das cavernas”, ou uma “inversão de papéis”, em que os soldados e oficiais, supostos representantes da civilização, agiam de forma bárbara. A natureza é vista, em “A terra”, primeira parte de Os sertões, como cenário trágico, que antecipa, de modo simbólico, a chacina dos prisioneiros. A vegetação da caatinga permitiria antever o sacrifício dos sertanejos degolados pelos soldados. As flores rubras das cabeças-de-frade lembravam “cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica”. Euclides apresentou as batalhas, a que assistiu como repórter, como quadros e cenas vistos de tribunas elevadas ou de camarotes, formados pelos morros ao redor de Canudos, onde se instalaram as tropas com os canhões que bombardeavam a cidade. As metáforas teatrais transformam os combates em espetáculo, em que o narrador retoma o papel do coro da tragédia, comentando os acontecimentos, lamentando as vítimas e acusando os vencedores. A violenta batalha de 24 de setembro de 1897, que resultou no cerco de Canudos, é narrada de um modo épico, plástico e ilustrativo, com longas descrições de quadros, e depois como um ato de tragédia, em que as imagens se tornam teatrais e dinâmicas. Contado com intensa dramaticidade, o combate é central no desenrolar da guerra. Observa Euclides: “traçara-se a curva fechada do assédio real, efetivo. A insurreição estava morta.” Munido de binóculos, o narrador contempla o espetáculo do alto do morro, junto com os oficiais, que formavam uma “platéia enorme”, entusiasmada com os avanços das tropas: “Aplaudia-se. Pateava-se. Estrugiam bravos.” Os incêndios no casario lembravam os refletores de um palco e a fumaça escondia por vezes o quadro, “como o telão descido sobre um ato de tragédia”. Refere-se à cortina, empregada nas tragédias gregas para impedir a visão das cenas violentas ou patéticas, que eram representadas por trás do pano, enquanto os espectadores ouviam os gritos da vítima. A degola dos prisioneiros é mencionada, de forma velada, no final de Os sertões. Tal elipse, em que a matança se torna implícita, tem função semelhante à do telão no teatro: o narrador adota o decoro trágico e evita a representação de fatos cruentos, já que não haveria linguagem capaz de exprimir tal horror: “E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera?” Euclides retomou tal visão teatral e irônica da história no breve relato “A esfinge”, de Contrastes e confrontos (1907). Contou a visita noturna do marechal Floriano Peixoto às obras da fortificação que, como engenheiro militar, erguia no cais do porto, para abrigar o canhão que iria bombardear os navios rebelados. O marechal de ferro, que ocupava a Presidência, surgia, aos seus olhos, como a “esfinge”, em cuja face enigmática via inscritos os destinos do país. O sogro de Euclides, o general Sólon Ribeiro, um dos líderes da proclamação da República, se encontrava preso sob a acusação de envolvimento com os revoltosos da Marinha. Euclides lia, em meio a tantos conflitos, o romance de cavalaria, Ivanhoé (1820), do escocês Walter Scott, e a obra histórica do inglês Thomas Carlyle, A Revolução Francesa (1837), em que são criticados os abusos do poder revolucionário. Procurava, nas páginas de Scott ou Carlyle, encontrar consolo para os descaminhos do novo regime, manchado por guerras civis. Mirando, durante a Revolta da Armada, os navios de guerra imersos na escuridão da baía de Guanabara, o escritor se sentia como o figurante de um drama trágico: “Imaginei-me, então, obscuríssimo comparsa numa dessas tragédias da antigüidade clássica, de um realismo estupendo, com os seus palcos desmedidos, sem telão e sem coberturas, com os seus bastidores de verdadeiras montanhas em que se despenhavam os heróis de Ésquilo”. Os papéis desse drama histórico, repleto de ironia e comicidade, se confundiam “num jogar de antíteses infelizes”, em que a legalidade -- o governo – esmagava a revolta pela suspensão das leis: “Os heróis desmandam-se em bufonerias trágicas. Morrem, alguns, com um cômico terrível nesta epopéia pelo avesso”. A história se encenava como comédia trágica ou era narrada enquanto epopéia sem heróis, em que o estilo elevado era rebaixado pela perspectiva irônica. Euclides teve, como o Conselheiro, um fim trágico. Ambos foram construtores itinerantes, um de igrejas e cemitérios, o outro de pontes e estradas. Os dois tiveram o destino marcado pelo adultério das esposas, pela luta sangrenta de suas famílias contra seus inimigos e pelas posições que assumiram frente à República. Ambos tiveram fé, o líder religioso na força redentora da devoção e do ascetismo, o escritor no poder transformador da ciência e da filosofia. Euclides morreu, em 15 de agosto de 1909, no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, ao tentar matar, a tiros, o cadete Dilermando de Assis, amante de sua mulher. Sete anos depois, Dilermando fuzilou Euclides da Cunha Filho, que tentara vingar o pai. A imprensa noticiou a morte do autor de Os sertões como a “tragédia da Piedade”, usando as mesmas imagens teatrais presentes em sua obra, e comparou o fim de seu filho ao drama do Hamlet de Shakespeare, obcecado em desforrar o pai assassinado. Ao agir como os heróis antigos ou como os valentões sertanejos, a vida de Euclides se tornou uma ficção trágica.   Obras consultadas   Andrade, Olímpio de Souza. História e interpretação de Os sertões. São Paulo, Edart, 1966. Cunha, Euclides da. Diário de uma expedição (1897). São Paulo, Companhia das Letras, 2000. Org. de W. N. Galvão. _____. Os sertões: Campanha de Canudos (1902). São Paulo, Ática, 1998. _____. Contrastes e confrontos (1907). Em: Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995, v. 1. _____. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo, Edusp, 1997. Org. por W. N. Galvão e O. Galotti. Frye, Northrop. Anatomy of criticism: Four essays (1957). Princeton, Princeton Univ. Press, 1973. Trad. Anatomia da crítica: Quatro ensaios. São Paulo, Cultrix, s.d. Kitto, H. D. F. Greek tragedy: A literary study (1939). London, Routledge, 1990. White, Hayden. “The question of narrative in contemporary historical theory”. In: The content of the form: Narrative discourse and historical representation. Baltimore, London, The Johns Hopkins Univ. Press, 1987. Zilly, Berthold. “Um depoimento brasileiro para a História Universal: traduzibilidade e atualidade de Euclides da Cunha”. In: Humboldt (Bonn), 72: 8-12, 1996. _____. “A guerra como painel e espetáculo. A história encenada em Os sertões”. In: História, Ciências, Saúde: Manguinhos (Rio de Janeiro), v. 1, 1: 13-37, 1997.    

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