Euclides da Cunha

Eu não tenho vocação para a espada, a arma que eu sei manejar é a pena.

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02/05/2012

  Olímpio de Souza Andrade

Segundo se anuncia, está sendo preparada uma nova edição de “Rebellion in the Backlands”, versão inglesa d’”Os Sertões”, trabalho que tomou alguns anos de pacientes pesquisas de Samuel Putnam, grande amigo do Brasil, há pouco falecido. Na introdução que escreveu para aquela sua notável tradução, Putnam situou Euclides da Cunha no panorama da cultura brasileira, citando vários escritores nossos. Algumas dessas citações foram extraídas do presente artigo, publicado há tempos e agora revisto pelo autor, o jovem e brilhante ensaísta Olímpio de Souza Andrade, que teve um livro seu há pouco premiado pela Comissão Brasileira da “Unesco” e lançado na coleção “Brasiliana”, da Cia. Editora Nacional.

Construída a sua ponte que ainda desafia as águas do Rio Pardo e a técnica da engenharia moderna, Euclides tomou o trenzinho da Mogiana, de volta para a Capital. Lá vinha ele, deixando São José do Rio Pardo, a sua ponte, a choça de tábuas e folhas de zinco, a velha paineira, as águas pardas do rio que nunca mais tornaria a ver, os amigos, tudo e todos, homens e coisas de tempos que pressentia não voltarem mais, confidentes e testemunhas mudos do período fervoroso em que trabalhou na elaboração de “Os Sertões”. Calçara outra vez a bota de sete léguas da vida precipitada que levara, antes daquela parada no remanso acolhedor da cidadezinha provinciana que ia toda em seu coração.

Aí nessa cidade do interior paulista escrevera o livro, que, dando prestígio de independência mental ao Brasil, conferira ao local de sua elaboração o título de monumento histórico nacional.

Se o autor era um enigmático para a sua época, o livro não o era menos. Todavia, passou a ser visto como um marco, um limite, um acontecimento. Como assunto, provinha de impulsos antigos, trazendo na multiplicidade e na complexidade das questões que propôs um látego que vibra em todas as direções e uma bandeira de brasileirismo. Como obra de arte, saída de um cérebro possante, genial, endurecido pela ciência e pelo contacto do sertão, vinha mostrar que o estilo, sendo o homem, é também o tema, deixando patente o que Tristão de Ataíde acentuaria mais tarde: a visão unilateral da célebre definição de Taine.

Mas acontece que, certa vez, Joaquim Nabuco definiu Euclides da Cunha como “um homem que escreve com cipó“... Querem os descobridores da frase, apenas pronunciada, que ela viera com sentido pejorativo, o que não seria de duvidar, se somente levássemos em conta o fato de que, à inteligência  refinada e peregrina de Joaquim Nabuco, deveriam mesmo repugnar as expressões másculas, duras, contrastantes e cheias de terra  nas quais Euclides - que via em Nabuco “um autor velho” - vazara o seu livro imenso. Na verdade, era enorme a distância que os separava: enquanto o historiador da refrega áspera e deprimente de Canudos, em carta a Escobar, batizava a sua de “rude pena de caboclo”, o encantador pernambucano de Massangana, numa linda página de “Minha Formação”, referia-se à “construção francesa” do seu espírito.

Existe, entretanto, em defesa de Nabuco, relativamente ao suposto sentido pejorativo da idéia, a sua conhecida tendência, por ele próprio destacada mais de uma vez para julgar os homens e as coisas sempre com bondade, porque, se errasse, erraria pelo melhor. Assim, a sua definição não teria o sentido pejorativo que lhe atribuem, indicando apenas discordância de temperamentos, maneiras diferentes de ver e sentir as coisas, e ressaltando a enorme distância existente entre os dois escritores, um escrevendo – e até vivendo – aos solavancos, entre altos e baixos que se sucediam com rapidez incrível, focalizando panoramas geográficos e humanos torcidos, angustiados, que exigiam um estilo da mesma natureza, e outro dizendo que “idealmente, a forma perfeita de paisagem seria a extensão plana, sem estorvos para a vista, sem acidentes a sugerirem idéias de luta, de choque ou de destroço, e sem nada de retorcido nem  contrafeito.”

Essa paisagem ideal é, sem dúvida, antípoda daquela que presidiu à elaboração d’”Os Sertões”. De qualquer maneira, o que é certo é que o julgamento de Nabuco fora justíssimo. Traçara sem o querer talvez o justo elogio do estilo euclidiano numa única frase. Ela ficará como o julgamento mais conciso da maneira incisiva e inimitável de expressar do estilizador d’”Os Sertões”.

Por menos sagaz que seja o leitor d’”Os Sertões”, ele sente (sentir é o termo) que todas as exteriorizações do escritor vêm impregnadas de uma força estranha. Em meio de observações, de expressões essencialmente originais, avulta a consistência diferente do espírito que as formulou, através de uma linguagem inata, não herdada, não aprendida intencionalmente. Instintivas, espontâneas, retratando as corredeiras e o torcicolado próprio do cipó, trazendo para junto da gente imagens torturadas do “agreste”, assim se alinham as palavras e se faz o amarrilho da frase naquela pena triste e revoltada. Edificando pedra por pedra a arquitetura d’”Os Sertões” numa cidade provinciana cujo quadro geográfico exuberantemente verde lhe proporcionou o contraste indispensável à caracterização da obra, só o estilo de Euclides, só ele, poderia trazer, como trouxe, o Brasil até nós. Escrevendo com cipó, com cipó amarrando suas idéias candentes, o escritor deixara claro que, surpreendendo um meio geográfico e uma sociedade de traços rudes e originais, nunca poderia juntar os seus períodos chocantes com aqueles cordonetes dourados que nos vinham de Paris...

Sem esse estilo encaracolado, nervoso, torturado, todo feito à semelhança do cipó, dificilmente  “Os Sertões” deixariam de cair na banalidade. Só com ele Euclides poderia calcar na realidade a mensagem que assinalou a redescoberta do Brasil. Homem desengonçado, torto, zigomas salientes de índio que ocupou uma cadeira da Academia Brasileira de Letras, Euclides, no fundo, era um sertanejo que, por uma dessas anomalias do destino, nascera próximo do litoral, mas era homem do sertão, talhado à imagem e semelhança da gente cabocla da torturada sociedade sertaneja.

Daí o seu estilo. Escudado nele, o escritor não pronunciou a frase que certamente atormentava o espírito do seu maior juiz, “da arte não recebi senão a aspiração por ela“. Só aquele emaranhado de cipó que o nosso grande Joaquim Nabuco viu no estilo d’”Os Sertões” permitiu a Euclides manter-se à distância de influências outras que não fossem as do interior brasileiro. Se ao longo da sua formação cultural encontramos presenças estranhas, como as de Gobineau, Bucke, Ratzel, Gumplowicz, em parte responsáveis pelo que há de sombra, de pessimismo anômalo, em muita coisa que ele diz a respeito da nossa gente, o certo é que sob qualquer análise rigorosa e honesta, esses autores surgem apenas como acidentes na sua obra.

Aqueles painéis adustos, aquela sociedade primária, aqueles sofrimentos redivivos nas páginas d’”Os Sertões” exigiram um estilo, uma maneira própria de ver e dizer as coisas, o estilo de Euclides, o estilo que, em língua portuguesa, dá com mais propriedade a idéia do cipó. Nesse sentido é interessante lembrar uma informação de Valdomiro Silveira: Euclides na época em que escrevia a sua obra-prima, não conhecia nenhum dos clássicos da língua. Somente depois leu, entre encantado e surpreso, Herculano, Vieira, Bernardes, que o amigo lhe emprestara.

Mas não foi apenas Joaquim Nabuco que pretendeu, se é que pretendeu mesmo , dar um golpe naquele frasear estranho. José Veríssimo também chegou a repelir aquela “arte bárbara”.

A maioria dos julgamentos passará sem dúvidas. O que permanecerá indestrutível é o juízo de Nabuco, figura admirável de escritor e homem público, extremamente diverso de Euclides, mas que, como o próprio autor d’”Os Sertões”, passou ileso pelo crivo do tempo. Euclides da Cunha, introduzindo a raça e a terra na prosa brasileira, viera com desnorteante originalidade. A sua obra fora realmente escrita com cipó. A razão está, portanto com Nabuco, de cuja obra, diga-se de passagem, Euclides se valeu, principalmente quando traçou as páginas penetrantes do conhecido esboço político que vai da Independência à República, inserto em “À Margem da História”.

N. R. - O trabalho acima, publicado no Suplemento “Letras e Artes”, de “A Manhã”, do Rio, que “data venia” transcrevemos, é de autoria do nosso distinto conterrâneo Sr. Olímpio de Souza Andrade, escritor e jornalista residente na Capital da República.

Publicado na “Gazeta do Rio Pardo”, de 15/8/1951.





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