Euclides da Cunha

Eu não tenho vocação para a espada, a arma que eu sei manejar é a pena.

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26/06/2020

  Célia Mariana Franchi Fernandes da Silva

  (do Ciclo de Estudos Euclidianos)

  E-mail: celiamfranchi@outlook.com

  Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo

  (Universidade de São Paulo)

  E-mail: marleinepaula@hotmail.com

RESUMO: este artigo acompanha Euclides da Cunha de Canudos a São José do Rio Pardo e a permanência do escritor nessa cidade. Dá especial destaque às cartas escritas por Euclides em São José do Rio Pardo. Elas fornecem pistas interessantes sobre a escritura de Os sertões.

PALAVRAS-CHAVE: livro; ponte; cartas; amigos; Renan.

ABSTRACT: this article follows Euclides da Cunha from Canudos to São José do Rio Pardo and the writer’s stay in that city. It gives special emphasis to the letters written by Euclides in São José do Rio Pardo. They provide interesting clues about the writing of Os sertões.

KEYWORDS: book; bridge; letters; friends; Renan.

  Euclides da Cunha permanece por 18 dias na frente de batalha, na guerra de Canudos. Com acessos de febre, ataques de hemoptise, enfim, sem condições de continuar com a cobertura, parte de Canudos na manhã de 3 de outubro. Dois dias depois, o povoado tombou.

  Regressando a Salvador no dia 13, alquebrado, a cabeça revirada, já que “o espetáculo da luta, o incêndio do arraial, a morte dos amigos, a bravura dos jagunços, a crueldade das degolas, a fadiga das longas caminhadas e o desconforto dos dias de acampamento”( RABELLO, 1966, p. 38) não lhe saíam da lembrança, Euclides ainda encontra forças – já que inspiração o momento lhe dava – para escrever no álbum da Dra. Francisca Praguer Fróes (1872-1931) , uma senhora da sociedade baiana, voltada para causas de resistência feminina, um soneto à moda do início da carreira de poeta. Chama-se “Uma página vazia”, datado de 14 de outubro de 1897:

  Quem volta da região assustadora

  De onde eu venho, revendo inda na mente

  Muitas cenas do drama comovente

  Da Guerra despiedada e aterradora,

 

  Certo não pode ter uma sonora

  Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,

  Que possa figurar dignamente

  Em vosso Álbum, minha Senhora.

  E quando, com fidalga gentileza,

  Cedestes-me esta página, a nobreza

  Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

  Que quem mais tarde nesta folha lesse

  Perguntaria: Que autor é esse

  De uns versos tão mal feitos e tão tristes? (CUNHA (b), 2009, p.176)

  Em 16, do mesmo outubro, parte, de navio (o vapor “Brasil”), para o Rio de Janeiro, levando consigo um menino jagunço, que irá viver, em São Paulo, sob os cuidados de Gabriel Prestes, um amigo de Euclides. O jaguncinho recebe o nome de Ludgero Prestes e se tornará professor.

  Pouco tempo Euclides estaciona no Rio, pois, logo em 21, viaja de trem para São Paulo. O jornal O Estado de S. Paulo, do dia 22 de outubro, sexta-feira, noticia, na secção “Notas e Informações”, coluna II, a chegada do jornalista: “Pelo trem nocturno chegou hontem a esta capital, de volta de Canudos, o Dr. Euclydes da Cunha, que, como se sabe, fez parte do estado-maior do sr. marechal Carlos Machado Bittencourt, ministro da guerra”1.

  Euclides é recebido, na estação do Norte, por representantes do jornal a cujo serviço estava, por oficiais da força pública, por engenheiros da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo e grande número de amigos. Conforme a própria secção do jornal menciona, Euclides ainda estava “em convalescência de uma febre, felizmente sem gravidade alguma, adquirida na sua viagem de Canudos para a Bahia”2.

  Nos poucos dias de permanência na capital paulista, Euclides impõe-se silêncio: nada comenta sobre os acontecimentos de que fora testemunha. Escreve tão somente um artigo de “cortesia” (“O Batalhão de São Paulo”), em homenagem aos leitores paulistas e aos soldados que serviram em Canudos. Lembram alguns seus biógrafos que nem mesmo comentou ‒ quando ainda estava em Belém do Descalvado ‒ o incidente, de 5 de novembro de 1897, em que o marechal Carlos Machado de Bittencourt perdeu a vida, com um golpe a punhal certeiro, ao interpor-se entre o presidente Prudente de Morais e o soldado do exército Marcelino Bispo de Melo3, no Arsenal de Guerra, onde aguardavam os primeiros contingentes de tropas que regressavam de Canudos. Se não comentou, não quer dizer não houvesse tomado conhecimento da trágica morte de seu comandante, ele, Euclides, que foi para Canudos justamente como adido do estado-maior do ministro da guerra, o marechal Bittencourt4.

  Ao chegar a São Paulo, Euclides não reassumiu as funções na Superintendência de Obras Públicas; ao contrário, pediu licença até 4 de janeiro de 1898, e seguiu para a fazenda do pai, em Belém do Descalvado, onde estava a família, desde que partira para a Bahia, em agosto. Ali vai descansar e começar a organizar todo o material produzido antes, durante e depois de Canudos.

  Voltara da Bahia abalado e doente, conforme testemunham suas cartas de então, escritas da casa de seu pai. Essas missivas, espécie de prólogo às rio-pardenses, falam também de um sonhado livro, inspirado pela campanha que ele cobrira como repórter de campo. 

A primeira delas, na coleção GALVÃO e GALOTTI, é de 27 de outubro de 1897, endereçada a Reinaldo Porchat5. Euclides desculpa-se por ter deixado São Paulo sem vê-lo, devido a sua doença: “Saí doente – e ainda estou; ainda tenho restos da maldita febre” (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 110).

Reitera a Porchat em 19 de dezembro6: “Volto logo para a roça porque me sinto outra vez doente”. E pede ao amigo que lhe envie um livro sobre mania religiosa, de autoria de Franco da Rocha, o qual lhe fora recomendado por Júlio Mesquita. Serviria, certamente, como subsídio para o livro que ele pretendia escrever.

Fala desse projetado livro a Domingos Jaguaribe7, em carta datada de 23 de dezembro, remetida, como está no texto, de “Descalvado” (Estação da Aurora). Queixa-se ainda de seu “estado de saúde”, lamentando não poder levar à frente seu propósito: “Ando verdadeiramente acabrunhado e sem disposição para o trabalho – e olho para as páginas em branco do livro que pretendo escrever e parece-me às vezes que não realizaria (sic) o intento”( GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 113).

Esse “livro que pretendo escrever” estava ‒ sabemos ‒ projetado havia tempo. O convite feito por Mesquita para a viagem a Canudos previa, para a volta, a construção de algo maior que as simples reportagens. Antes de embarcar, valeu-se de rico material oferecido por Teodoro Sampaio, que viajara pelo sertão nordestino em 1878. Frequentava sem muita constância a casa do engenheiro-geógrafo Teodoro Fernandes Sampaio, mas, a partir do momento da confirmação da viagem a Canudos, ampliou o número de visitas ‒ as quais, às vezes, eram causa de certa angústia para a esposa de Teodoro, quando ele ficava para comer, em razão de seus hábitos alimentares diferenciados da maioria ‒ ampliou o número de visitas, dizíamos, solicitando a Teodoro Sampaio material sobre a região nordestina em que se instalara o conflito, como, por exemplo, cópia de um mapa ainda inédito de um trecho do sertão ainda pouco conhecido, a região correspondente a Canudos e vale superior do Vaza- Barris8.

Nos dois meses e pouco de “férias” na casa do pai, começa a organizar todo o material recolhido antes, durante e depois de Canudos , e talvez tenha esboçado a terceira parte de Os sertões, “A Luta”, utilizando-se da documentação que colhera pessoalmente na zona de conflito, como elementos do folclore regional, conversas com vaqueiros, proprietários de terras, jagunços, homens do povo, em geral, sem contar que já tinha em mente o roteiro de Os sertões, quando escreveu os artigos “A nossa Vendeia I” e “A nossa Vendeia II”, respectivamente, em 14 de março e 17 de julho de 1897, no jornal O Estado de S. Paulo.

Euclides da Cunha também não economizou consultas sobre o assunto em bibliotecas e arquivos públicos e valeu-se de informações de testemunhas presentes no campo de batalha, como a do general Siqueira de Meneses9, “o jagunço louro de Os sertões”, “a fisionomia nazarena”, “o pensador contemplativo”, cujas publicações, sob o pseudônimo de Hoche, no jornal “O País”, foram muito compulsadas por Euclides, naquele momento. José Calasans, no início do artigo “Euclides da Cunha e Siqueira Menezes”, dá a dimensão do estatuto dessa personagem: “Siqueira Menezes é um dos heróis de Os Sertões. Seu nome aparece destacadamente no grande livro que Euclides da Cunha dedicou à Campanha de Canudos. Nenhum outro militar saiu mais engrandecido das páginas eloquentes da obra famosa do que o “jagunço alourado”, a quem Euclides chamou o “olhar da expedição”10.

Euclides da Cunha deveria, naturalmente, ao chegar de Canudos, correr para não esquecer a sequência dos acontecimentos. Seria a primeira fase, de preparação, para a escrita do livro projetado. Os comentários, as reflexões, a erudição ficariam para depois, quando a leitura de autores brasileiros, do período colonial e nacional, de especialistas portugueses e de outras nacionalidades pudesse trazer-lhe mais luzes sobre aquilo que queria escrever. Participaram da lista de seus interesses, entre outros, Gabriel Soares de Sousa, Fernão Cardim, André João Antonio Andreoni, mais conhecido como  Antonil, Aires do Casal, Frei Vicente do Salvador, Francisco Adolfo de  Varnhagen, Joaquim Monteiro Caminhoá, Irineu Joffily, Joaquim Pedro de  Oliveira Martins, Saint Hilaire, Frei André Thévet  Jean de Léry, Von Martius, Charles Frederick Hartt, Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt, o barão de Humboldt, mais conhecido como Alexander von Humboldt, Ludwig Gumplowicz, Henry Thomas Buckle, Thomas Henry Huxley.

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  Em 5 de janeiro de 1898, vencida a licença, Euclides reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Em 19 de janeiro, O Estado de S. Paulo, ano XXIV, publica, na primeira página, colunas 1, 2, 3 e início da 4, o artigo "Excerpto de um livro inecdito", que representa, por assim dizer, a primeira amostra pública de Os sertões. Confronte-se o primeiro parágrafo com o que estará registrado, depois, na obra-prima do autor: “...Assim o sertanejo é um forte, cuja energia contrasta o rachitismo exhaustivo dos mestiços enervados do littoral. Surge naquellas páragens (sic) com a feição firmemente accentuada de um lidador enérgico”11.

  Aindanesse janeiro de 1898, um incidente em São José do Rio Pardo ‒ cidade que visitara pela primeira vez em 28 de agosto de 1896 ‒ faz que Euclides, ao modo do que ocorrera com sua estada na cidade da Campanha, anos antes, desloque-se com a família para o interior, onde encontrará grandes amigos e ambiente muito favorável a seu plano de construção de uma grande obra literária. Uma ponte de ferro cuja fase de construção esteve sob a responsabilidade do engenheiro Arthur Pio Deschamps de Montmorency, mas, em parte, sob fiscalização de Euclides da Cunha, é destruída por uma enchente, pouco mais de um mês após a inauguração12.

  Euclides, embora não tivesse responsabilidade nenhuma no que ocorrera, sente-se moralmente envolvido, uma vez que a cidade de São José do Rio Pardo estava situada na região do estado em que ele era engenheiro-fiscal de obras públicas. Daí não delegar a outrem a tarefa de reconstrução da ponte, embora soubesse que grande trabalho e cansaço o esperassem. Após vistoria preliminar, muda-se para São José com a família, em 14 de março. Ali permanece até o término e inauguração da obra, em maio de 1901 (Cf. ANDRADE, 1960, p. 141-147). O endereço residencial da família é o atual sobrado da “Casa Euclides da Cunha”, na Rua Floriano Peixoto.

  A epistolografia é fonte muito rica para entender um homem e sua obra. No caso de Euclides da Cunha, é fundamental, ele que escreveu mais de quatrocentas cartas13, endereçadas ao pai, amigos, familiares, confrades das comunidades literária e científica, colegas de redação de jornal, superiores hierárquicos, instituições. Cada cidade ou localidade por onde passou, no périplo incansável de sua vida, foi um difusor de cartas, bilhetes, cartões, telegramas. Lida em sequência, a correspondência ativa de Euclides esboça uma autobiografia e um autorretrato do escritor. Tem alguns centros de difusão, que formam ciclos na vida dele. São José do Rio Pardo é um deles.

  Em razão do que dissemos no parágrafo anterior, para falar da passagem de Euclides por São José do Rio Pardo, preferimos fazê-lo por meio das cartas14 remetidas dessa cidade, que são apenas quatorze15. Não há nenhuma endereçada ao pai. As alusões familiares restringem-se a saudades e lembranças que a esposa Saninha, algumas vezes, mandou a Dona Maria Júlia, esposa de Reinaldo Porchat, e a Dona Francisca, esposa de Escobar.

  A primeira carta enviada de São José do Rio Pardo é ao amigo Porchat16, datada de 24 de março de 1898. O assunto agora é a ponte. Euclides chegara à cidade havia dez dias e desabafa:

Tenho a existência aspérrima de um condenado a trabalhos forçados, à margem de um rio odiento, diante do espantalho de uma ponte desmantelada, ouvindo a orquestra selvagem e arrepiadora das marretas e dos malhos – testemunha contrafeita de um duelo formidando entre o ferro e o aço! (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 113-114).

Mal sabia Euclides que o “rio odiento”, a “ponte desmantelada” seriam testemunhos de sua glória futura. Nesse espaço, levantou uma barraca de zinco para abrigá-lo durante o trabalho da reconstrução da ponte e, nos intervalos, de escrita de Os sertões. E é nesse espaço centralizado pela cabana que, ritualmente, ano após ano, reúnem-se convidados, o pessoal da Casa Euclidiana, professores, alunos, autoridades, o povo ‒ o grande figurante ‒, a fim de homenagear o ilustre engenheiro-escritor.

  Passa-se longo tempo entre a primeira carta e a seguinte, que é de 5 de dezembro (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 114), para Afonso Arinos17. Nela, Euclides cita Francisco de Escobar (ou só Francisco Escobar), “intendente municipal”, “ex-republicano vermelho”, já considerado “um amigo”.

  Francisco de Escobar foi seu grande e inesquecível amigo de São José do Rio Pardo. Conhecido como Chico Escobar, nascido em Jaguari,atualmente Camanducaia, Minas Gerais, em 8 de dezembro de 1865, chegou a São José por meio de convite do Dr. José da Costa Machado e Souza, ex-presidente da Província de Minas Gerais, que comprara a fazenda Água Fria, depois, Vila Costina. Ocupou o cargo de vereador e intendente em São José do Rio Pardo Não cursou Direito, mas tinha grande conhecimento da matéria. Era o que se chamava, à época, um rábula, ou seja, “pessoa que advoga sem ser formado em Direito”. Rodolfo José Del Guerra, lembra que “Rui Barbosa a ele se referiu como ‘doutíssimo’ e ‘eruditíssimo’, pelos seus discursos forenses” (2009, p. 7). Além do mais, era um artista ‒ pianista e flautista ‒, com participação em recitais, concertos beneficentes na cidade; um bibliófilo; um administrador; e, acima de tudo, um ser humano afável, desprendido, simples e bom. Ao lado de outros nomes relevantes, incluindo Euclides, no período em que lá viveu, participou dos movimentos sociais da cidade. Ainda é Rodolfo José Del Guerra quem salienta a importância de Escobar num momento especial da vida de Euclides: “Foi o conselheiro, animador e o maior colaborador de Euclides. Profundo conhecedor do Latim, Grego, Inglês e Francês, traduziu, ao amigo escritor, o livro [diríamos: não “livro’, mas alguns tópicos, considerada a extensão da obra] Flora Brasiliensis, de Martius” (2009, p. 7). Escobar mudou-se de São José do Rio Pardo, provavelmente, em meados de 1905. Morreu aos 59 anos, em 30 de dezembro de 1924, em Poços de Caldas, Minas Gerais.

  Ao lado de Francisco de Escobar, Euclides se acercou de outros poucos amigos, alguns dos quais serão referidos em cartas posteriores a São José, destinadas ao mesmo Escobar: José de Oliveira Leite, baiano, advogado ; José Honório de Sylos, secretário da Câmara; Jovino de Sylos, advogado, poeta, vereador; Álvaro de Oliveira Ribeiro, médico e diretor do jornal O Rio Pardo; João Modesto de Castro; Pascoal Artese, fervoroso amante do socialismo; João Novo; Adalgiso Pereira, professor de português; João Batista de Souza Moreira, juiz de paz, intendente municipal; Emílio Lafite; Bráulio de Menezes, médico, vereador e prefeito; José Rodolpho Nunes, advogado e vereador; Ignácio Loyola Gomes da Silva, advogado, socialista; Mauro Pacheco, advogado, promotor de Justiça, primeiro diretor do jornal O Rio Pardo; Humberto de Queiroz, da vizinha cidade de Mococa; Lafayette de Toledo, de Casa Branca; Valdomiro Silveira, contista, nascido em Cachoeira Paulista, em 1873, indo, com 8 anos, para Casa Branca.

  O prof. Rodolfo José Del Guerra registra, muito oportunamente, estes outros amigos citados por Euclides:

  “José Augusto Pereira Pimenta, comerciante e copista das tiras de Os Sertões, e Mateus Volata, o guarda da ponte, italiano calabrês, com argola de ouro na orelha furada, que morreu na epidemia de febre amarela, em 1903”.

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  Dr. Pedro Agapio de Aquino recebeu um bilhete do escritor, em 23 de março de 1899, pedindo-lhe emprestados números do Jornal do Comércio. Paschoal Artese, marceneiro e desenhista, tinha 18 anos em 1899. Socialista, no ano seguinte, foi um dos fundadores do ‘Clube Socialista dos Operários’ e do ‘Clube Internacional Filhos do Trabalho’. Muitos anos mais tarde, afirmou que Euclides participara dos movimentos socialistas rio-pardenses, o que foi contestado pelo promotor público e pesquisador, José Aleixo Irmão18, no seu livro ‘Euclides e o Socialismo’”1920.

Ausentando-se de São José por algum tempo, talvez para tratar da saúde, Euclides escreve a Escobar, em 17 de fevereiro de 1899 (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 115)21, da fazenda do pai, em Belém do Descalvado, dizendo-se quase bom, depois de ter resvalado “pelo túmulo” (como sempre, Euclides hiperbólico!).

Volta a São José. Em 23 de março (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 116), escreve ao amigo Dr. Aquino22, pedindo-lhe emprestados alguns números do Jornal do Comércio,que lhe tinham sido recomendados por Orville Derby23, quando este o visitara em São José. Tais artigos referiam-se a “assunto pátrio” e lhe interessavam - com certeza para a feitura de seu planejado livro, de assunto eminentemente pátrio. Livro que estava caminhando junto com a ponte.

A carta seguinte, escrita a Porchat, muito tempo depois, 9 de setembro (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 116-117), revela mudança de sentimentos com relação ao trabalho de reconstrução da ponte: Euclides fadigava-se, mas recebia a compensação de uma “existência tranquila”, entre “rudes italianos manejadores de marretas”, em companhia dos quais se sentia “verdadeiramente feliz adstrito a uma missão exígua e fatigante de operário”. Em pós-escrito dá notícias de seu “decantado livro”, dando-o por “pronto” (!!!), necessitado, porém, de uma revisão “para lhe dar alguma continuidade”.

Em 13 de outubro (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 117-118), em outra carta a Porchat, comunica-lhe o recebimento “do belo livro de Renan”, valorizado por “delicada dedicatória”.Queixa-se dos trabalhos cansativos na reconstrução da ponte, então agravados “por súbita enchente do rio Pardo”.

Revelador o recebimento desse presente: Renan vem associar-se ao livro e à ponte. Na carta anterior, Euclides, num rompante, declarara pronto Os sertões. Mas recebe posteriormente a obra de Renan24 (certamente o Marc Aurèle), que lhe serviria como base para considerações de natureza diacrônica sobre a religiosidade sertaneja. Se Os sertões já estava realmente pronto, essas considerações ou foram feitas de memória e assim ficaram, ou foram acrescentadas depois, ou tinham sido feitas de memória e, depois do recebimento do Marc Aurèle, foram revistas, acrescidas e ganharam documentação.

As incidências renanianas aparecem pela primeira vez em Os sertões no capítulo IV de “O homem”, quando Euclides nomeia vários heréticos do segundo século, aleatoriamente, sem citar a fonte, conforme parecem ter remontado a sua memória:

...os montanistas da Frígia, os adamitas infames, os ofiólatras, os maniqueus bifrontes entre o ideal cristão emergente e o budismo antigo, os discípulos de Marcos, os encratitas abstinentes e macerados de flagícios, [...] as extravagâncias de Alexandre Abnótico...(CUNHA, 1978, p. 121).

 As mesmas heresias aparecem em Renan, mas em ordem diferente e não no mesmo lugar: Alexandre de Abonótico, adamitas, ofiólatras, maniqueus, encratitas, montanistas e discípulos de Marcos25. Quanto às “extravagâncias”, em Renan pertencem a Alexandre de Abonótico, e não Alexandre Abnótico, como escreveu Euclides e só foi corrigido em 2002, na edição de Leopoldo Bernucci. As divergências na ordem, bem como o erro de grafia em Abnótico (que persistiu a despeito da revisão de Euclides), permitem supor uma evocação de memória, já feita em setembro, quando Euclides, pela primeira vez, declarara pronto o livro, e não confrontada posteriormente com o Marc Aurèle.

Entretanto, quando trata especificamente da semelhança entre a doutrina do Conselheiro e a de Montano26, algumas páginas além, Euclides faz referência a uma releitura de Renan e cita o Marc Aurèle em rodapé:

Relendo as páginas memoráveis [em rodapé: Marc Aurèle] em que Renan faz ressurgir, pelo galvanismo do seu belo estilo, os adoudados chefes de seita dos primeiros séculos, nota-se a revivescência integral de suas aberrações extintas (CUNHA, 1978, p. 132).

A partir daí, Euclides faz uma aproximação entre a heresia do Conselheiro e a de Montano, com base em dados colhidos em Renan. A correspondência entre os dados de Renan e os de Euclides, algumas citações literais ou quase literais, bem como a referência a uma releitura, permitem presumir que as páginas de Euclides, se já escritas antes do recebimento do Marc Aurèle, foram revistas e sofreram, talvez, acréscimos depois da confessada releitura.

 Euclides trabalhou muito entre o “pronto” da carta de 9 de setembro e “o recebimento do belo livro de Renan” daquela de 13 de outubro. Comparem-se os dados a seguir:

Em Os sertões, o Conselheiro é um dissidente do molde de Themison27, o qual, como este, insurge-se contra a Igreja católica, afirmando que “ela perdeu a sua glória e obedece a Satanás” (CUNHA, 1978, p. 132). Euclides está fazendo citação literal de Renan: “Themison declarava que a Igreja católica tinha perdido sua glória e obedecia a Satã” 28.

O Conselheiro e Montano mostram horror pela mulher e castidade ao extremo de quase abolir o casamento, contrastando com a licença para o amor livre, em vista da proximidade do final dos tempos e do millennium (CUNHA, 1978, p. 132-133; cf. RENAN,1882, p. 879.

Diz Euclides:

Ambos proíbem que as moças se ataviem; bramam contra as vestes realçadoras; insistem do mesmo modo, especialmente, sobre o luxo dos toucados; e – o que é singularíssimo – cominam, ambos, o mesmo castigo a este pecado: o demônio dos cabelos, punindo as vaidosas com dilaceradores pentes de espinho (1978, p. 132-133).

Diz Renan praticamente a mesma coisa:

Este medo exagerado da beleza, [...] estas interdições quanto à toilete das mulheres e sobretudo contra os artifícios de seus cabelos [...] o demônio dos cabelos se encarrega de puni-las 29.

O Conselheiro, em Euclides, e Montano, em Renan, atingiram a terra pela vontade divina (CUNHA, 1978, p. 133. Cf. RENAN, 1882, p. 876).

O profetismo do Conselheiro, como o de Montano, “anunciava, idêntico, o juízo de Deus, a desgraça dos poderosos, o esmagamento do mundo profano, o reino de mil anos e suas delícias” (CUNHA, 1978, 134) – citação quase literal de Renan: “[...] o próximo julgamento de Deus, a punição dos perseguidores, a destruição do mundo profano, o reino de mil anos e suas delícias”30.

O senso moral do Conselheiro compreendia a posse do reino do céu na proporção das agruras suportadas na terra (Cf. CUNHA, 19787p. 145) – assim como entre os montanistas “cada um calculava as delícias de que desfrutaria nesta morada celeste, em compensação dos sacrifícios que tivesse feito aqui embaixo”31.

Para o Conselheiro era questão de somenos que os homens se desmandassem ou agissem virtuosamente, e Euclides cita Renan, em francês, em rodapé, para ratificar a relação entre essa perversão e a iminência do fim do mundo: “Montanus ne prenait même pas la peine d’interdire un acte devenu absolument insignifiant, du moment que l’humanité em était à son dernier soir. La porte se trouvait aussi ouverte à la débauche32.

Voltando às cartas rio-pardenses: a seguinte, de 15 de maio de 1900 (GALVÃO; GALLOTAI, 1997, p.118-119), dirigida a Pethion de Villar33, antepõe ao “pronto”, de 9 de setembro, um “agora finalmente”, que, de certa forma, corrobora a suposição de aditamentos: “[...]o meu livro sobre a interessantíssima luta nos sertões da tua terra ainda não apareceu. Está, porém, agora – finalmente pronto...”. Renan cumprira seu papel.

Na mesma carta, talvez perdido entre as numerosíssimas páginas, impossíveis de ler de um fôlego só para se ter uma ideia de conjunto, Euclides lamenta-se ao amigo de “certa falta de unidade oriunda das condições em que foi escrito” o livro. Já delatara esse defeito em carta anterior... As condições de escrita do livro são recorrentes: as mesmas que impedem Euclides de escrever cartas aos amigos. Confessa, em 2 de junho de 1900, a Reinaldo Porchat:

Não te escrevi há mais tempo porque não o tem permitido a minha vida fatigante de trabalhador – meio engenheiro meio operário – totalmente entregue à missão de transmudar uma ferragem velha e torcida em ponte resistente e elegante (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p.119).

Um fato inédito vem perturbar essa vida fatigante de trabalhador: Júlio Mesquita34 convida-o a candidatar-se para “ocupar um lugar no próximo Congresso Constituinte do Estado” (carta sem data, com destinatário presumível). Euclides confessa-se “um tímido”. Por ser tímido permanecera engenheiro obscuro até então, num regime político cuja propaganda o levara até “a revolta e ao sacrifício franco”; portanto, de si mesmo, não sairia do “modesto programa” de sua vida, “reduzido à convivência tranquila de alguns livros”. Quem lhe apontara “destino mais alto” deveria agora sustentá-lo. Promete, porém, não iludir a expectativa do amigo, afirmando-lhe: “Serei no Congresso o que sou aqui – um trabalhador”.

Essa candidatura abortou, conforme desabafa com o amigo Porchat, em 2 de dezembro de 1900 (GALVÃO; GALLOTI, 1997, 121-122):

Escrevo-te propositalmente hoje – porque sei que quando esta aí chegar terás lido a ansiosamente esperada chapa da Comissão Central – e a par da satisfação que terás, vendo nela o teu nome, sentirás tristeza real notando a ausência do meu.

 Em vista dessa flutuação da sorte, refugia-se em algo que sabe por experiência que é sólido – e a engenharia aparece em avaliação positiva:

... é com amor nunca sentido que me volto para minha engenharia rude e obscura, à qual me abraçarei definitivamente, entregando-me doravante, de todo, às suas fórmulas áridas, positivas, inflexíveis.

Mas na carta seguinte, de 22 de fevereiro de 1901 (GALVÃO; GALLOTI, p. 122-123), a Alberto Sarmento35, o trabalho de engenheiro volta a ser “fatigante empresa”, que só deverá terminar em fins de abril. Então, tendo de deixar São José do Rio Pardo, Euclides tem duas propostas para realizar sua “aspiração de uma vida tranquila, de todo resumida na convivência dos livros”: o convite de Sarmento para um concurso no Ginásio de Campinas e o de “alguns amigos” de São Paulo, “lentes da Politécnica”, que lhe manifestaram o desejo de que ele entrasse para aquela casa de ensino. Permanece algum tempo nessa indecisão, ainda “a braços” com sua tarefa de engenheiro, conforme escreve ao mesmo Sarmento em 7 de março(GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 123). Em 13 de março (GALVÃO; GALLOTI, 1997, p. 123-124), está feita sua inscrição para o concurso do Ginásio, em que ele se considera “apenas candidato a candidato”. Está ainda preso a sua “rude missão”.

Missão que termina em 18 de maio de 1901, com a inauguração da ponte. Em 17, escreve ao Presidente e demais membros da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo: “Tenho a honra de convidar-vos para a inauguração da ponte metálica, amanhã, 18, à uma da tarde”. O tom é merecidamente triunfal.

A carta seguinte não é mais de São José.

Carmem Cecília Trovatto Maschietto resume muito bem o que foi a festa de inauguração da ponte:

  “Pesquisas publicadas por Del Guerra informam que a ponte [de Euclides] foi inaugurada no dia 18 de maio de 1901, com festas, presença de autoridades e de populares, fogos, bandeirinhas, banda de música, discursos de agradecimentos, oferta de presente ao engenheiro bem sucedido, manifestações públicas de reconhecimento pela sua dedicação e empenho no bom término daquele trabalho. Laconicamente, no dizer de Del Guerra, Euclides agradeceu e dividiu os méritos da vitória com os operários que o assessoraram. Em seguida, um grupo formado por autoridades e povo, em meio a vivas e aclamações, fogos e banda de música, atravessou a ponte. À noite, houve nova concentração na frente da casa de Euclides da Cunha, com mais discursos e banda de música36.

  E a manifestação do engenheiro-escritor:

  “Retribuindo, o engenheiro e sua esposa ofereceram aos presentes uma mesa de doces. Poucos dias depois, Euclides, sua esposa e os três filhos, um deles [Manuel Afonso Ribeiro da Cunha] nascido na cidade [em 31de janeiro e batizado em 18 de maio/1901, dia da inauguração da ponte metálica] deixaram o lugar, aonde ele retornaria mais uma única vez, em agosto daquele ano, preocupado com a possibilidade de uma rachadura num dos pilares da ponte, que não se confirmou37.

As cartas rio-pardenses fecham um ciclo na vida de Euclides. Ciclo que ele começara mal-humorado, contrariado com as atividades de engenheiro, “condenado a trabalhos forçados, à margem de um rio odiento, diante de uma ponte desmantelada”, ensurdecido pela “orquestra selvagem e arrepiadora das marretas e dos malhos”. Seguem, paulatinamente, o trabalho de engenharia concomitante com a feitura do livro, ora a darem-se as mãos, ora a digladiarem-se; alguma doença; o recebimento do livro de Renan pelo correio, para embasamento de um tópico importante de “seu” livro; queixas recorrentes sobre a profissão fatigante de engenheiro, que lhe apequenava o tempo; a reconciliação com a ponte que, afinal, proporcionara-lhe um tempo de existência tranquila; pretensões políticas abortadas; ansiedade por encontrar um trabalho que lhe oferecesse segurança e estabilidade depois de São José...

 Muito cansaço e sofrimento, mas o saldo foi positivo: estavam prontos o livro e a ponte. Nada melhor, principalmente para Euclides, do que a sensação do dever cumprido que transuda da última carta rio-pardense, que o reconcilia com a engenharia. Orgulhosamente, assina-a: “Euclides da Cunha, engenheiro”. Timbre: Superintendência de Obras Públicas ‒ nº 46.

Os que semeiam entre lágrimas,

Ceifarão em meio a canções.

Vão andando e chorando

Ao levar a semente;

Ao voltar, voltam cantando,

Trazendo seus feixes38.

A ponte, renovada, lá está, como outros espaços da cidade que lembram Euclides, forte na inspiração para todos os maratonistas, professores, intelectuais em geral, visitantes, pessoas do povo, que tomam conta de São José do Rio Pardo, atendendo ao chamamentoque faz a Casa Euclidiana para a esperada “Semana”, realizada, todos os anos, entre 09 e 15 de agosto. Casa Euclidiana que um dia foi ‒ já lembramos ‒ a residência de Euclides da Cunha e de sua família. E São José do Rio Pardo, particularmente, acabou por ser o berço de Os sertões.

 

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  BIBLIOGRAFIA

 1. AMORY, Frederic. Euclides da Cunha: Uma odisseia nos trópicos. Trad. de Geraldo Gerson de Souza, Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009.

2. ANDRADE, Olímpio de Sousa. História e interpretação de “Os Sertões”. Capa de Danilo Marchese, ilustrações de Aldemir Martins. São Paulo: EDART, 1960. .[Col.”Visão do Brasil”].

3. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Editora Paulus, 2.000.

4. CUNHA, Euclides da. Os sertões. São Paulo: Editora Cultrix – MEC, 1978.

5. CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, v. II, 1995.

6. CUNHA, Euclides da (a). Obra completa. Org. de Paulo Roberto Pereira. Rio de Janeiro:Editora Nova Aguilar, v. I, 2009.

 7. CUNHA, Euclides (b). Poesia reunida. Organização, estabelecimento de texto, introduções, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci e Francisco Foot Hardman. São Paulo: Editora UNESP, 2009. [ISBN 978-85-7139-971-6].

8. DEL GUERRA, Rodolfo José. “O movimento euclidiano rio-pardense”. In: Cultura Euclidiana. Ano do centenário, 1909-2009. 97ª Semana Euclidiana - São José do Rio Pardo – SP - outubro 2009 – Edição 1. O centenário da morte de Euclides da Cunha.

9. Dicionário Prático Ilustrado, tomo III: História e Geografia. Porto: Lello e Irmão Editores, 1962.

10. GALVÃO, Walnice Nogueira e GALOTTI, Oswaldo. Correspondência de Euclides da Cunha (ativa). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1997.

11. HARDMAN, Francisco Foot. A vingança da Hileia – Euclides da Cunha, a Amazônia e a literatura moderna. São Paulo: Editora UNESP, 2009. [ISBN: 978-85-7139-970-9 (Capítulo 9: “O 1900 de Euclides e Escobar: afinidades socialistas”, p.151

 12. MASCHIETTO, Carmem Cecília Trovatto. “A Ponte de Euclides”. In: Cultura Euclidiana. Ano do centenário, 1909-2009. 97ª Semana Euclidiana ‒ São José do Rio Pardo – SP - outubro 2009 – Edição 1. O centenário da morte de Euclides da Cunha.

13. RABELLO, Sylvio. Euclides da Cunha. 2.ed., Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1966, p. 87-88. [Col. Vera Cruz – Literatura Brasileira, v. 103].

14. RENAN, Ernest. Histoire des Origines du Christianisme, qui comprend le règne de Marc- Auréle (161-180). Livre septième: Marc Aurèle et la Fin du Monde Antique. Édition établie et presentée par Laudice Rétat .Paris:Calmann Lévy, Éditeur, 1882. Disponível também em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k61281833/f678.image.texteImage. Acessado em 19 de junho de 2020].

  WEBGRAFIA

1. MONTALVÃO, Sérgio e MACHADO, Gabriel. “MENESES, Siqueira *militar; junta gov. SE 1889; pres. SE 1911-1914; sen. SE 1915-1923”. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MENESES,%20Siqueira.pdf. Acessado em 21 de junho de 2020.

2. SAMPAIO, Teodoro. À memória de Euclides da Cunha, no dia do aniversário da sua morte. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 45, 1919. Disponível em https://www.yumpu.com/pt/document/view/12638780/revista-do-instituto-geografico-e-historico-da-bahia-ighb. Acessado em 20 de junho de 2020.

  3. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k61281833/f678.image.texteImage

3. https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/18980119-7003-nac-0001-999-1-not/tela/fullscreen. Acessado em 22 de junho de 2020.

  5. https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/20180907-45615-nac-9-pol-a9-not.Acessado em 26 de junho de 2020.

  6.https://books.google.com.br/books?id=826aY1ProxYC&pg=PA151&lpg=PA151&dq=Jos%C3%A9+Aleixo+Irm%C3%A3o,+livro+%E2%80%98Euclides+e+o+Socialismo%E2%80%99&source=bl&ots=4tK8BBpP4j&sig=ACfU3U07YPqkRy4EnpwRI-YzioqLzz85ew&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwiy5p_R7J_qAhW2H7kGHatIA34Q6AEwD3oECAsQAQ#v=onepage&q=Jos%C3%A9%20Aleixo%20Irm%C3%A3o%2C%20livro%20%E2%80%98Euclides%20e%20o%20Socialismo%E2%80%99&f=false. Acessado e 26 de junho de 2020.


1  Cf. https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/18971022-6915-nac-0001-999-1-not/tela/fullscreen. Acessado em 15 de junho de 2020.

2  Cf. https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/18971022-6915-nac-0001-999-1-not/tela/fullscreen. Acessado em 15 de junho de 2020.

3  O jornal “O Estado de S. Paulo”, na edição de 07 de setembro de 2018, p. A9, ao relatar e comentar o atentado sofrido por Jair Bolsonaro, na tarde do dia anterior, 6, em Juiz de Fora, Minas Gerais, em que também um “Bispo” (Adélio Bispo de Oliveira) tentara tirar a vida do então candidato, relembra outro episódio da história do Brasil: “A República brasileira ainda não havia completado dez anos quando um atentado político abalou o País. Em 5 de novembro de 1897, um praça do Exército tentou matar o presidente Prudente de Moraes a tiros e acabou assassinando com um punhal o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt no Rio de Janeiro, então capital federal. [...] O atentado contra Prudente de Moraes e o assassinato de Bittencourt foram cometidos pelo soldado Marcelino Bispo [aqui, também, um “Bispo”] de Melo quando o presidente da República e o general que venceu a Guerra de Canudos chegavam ao Arsenal de Guerra, no centro do Rio, para recepcionar tropas vitoriosas que voltavam do conflito na Bahia. O soldado disparou a arma de fogo contra o presidente, mas não acertou. O marechal Bittencourt então partiu para cima do soldado, que o estocou duas vezes no peito com um punhal. Marcelino foi preso imediatamente, mas as investigações sobre as causas do atentado acabaram comprometidas com sua morte, dois meses depois, quando foi encontrado enforcado em um lençol na cela onde estava preso” (https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/20180907-45615-nac-9-pol-a9-not. Acessado em 26 de junho de 2020).

4  Veja-se o que diz Frederic Amory: “...mas não foi o que aconteceu [que Euclides não houvesse tido notícia da morte do marechal Bittencourt], pois dez dias depois contribuiu com 200 mil-réis para um fundo em favor da família Bittencourt”, “conforme diz Roberto Ventura, ‘Memória Seletiva’”, p. 26. (AMORY, 2009, p. 148).

5  Reinaldo Porchat (1868-1953), advogado e político paulista, colega de redação de O Estado de São Paulo. Cf. GALVÃO; GALOTTI,1997, p. 24.

6  Essa carta, de 19 de dezembro, endereçada a Porchat, e outra, de 18, enviada ao amigo João Luís, são escritas de São Paulo, porque Euclides, que estava passando temporada em Belém do Descalvado, deu um pulo a São Paulo, a fim de encontrar-se com o amigo mineiro João Luís. Só que houve um desencontro e os dois não se viram.

7  Domingos Jaguaribe (1847-1926), médico, literato e parlamentar; escreveu sobre demografia e geografia. Cf. GALVÃO; GALOTTI,1997, p. 21.

8  Cf. SAMPAIO, Teodoro. À memória de Euclides da Cunha, no dia do aniversário da sua morte. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 45, 1919. Disponível em https://www.yumpu.com/pt/document/view/12638780/revista-do-instituto-geografico-e-historico-da-bahia-ighb. Acessado em 20 de junho de 2020.

 9 Antônio José de Siqueira Meneses, filho de Manuel Tavares de Meneses Andrade e de Ana Maria de Siqueira, nasceu no dia 7 de dezembro de 1852, em São Cristóvão, antiga capital da província de Sergipe. Relatam Sérgio Montalvão/Gabriel Machado: “Em 1897, tornou-se chefe da comissão de engenharia que serviu na Guerra de Canudos. Sua participação no confronto armado entre o Exército e os seguidores de Antônio Conselheiro valeu-lhe uma citação no livro Os sertões, de Euclides da Cunha, na parte 6 (O assalto) do capítulo Quarta Expedição, em que o escritor narra os episódios da ação comandada pelo general Savaget. Em 1898, Siqueira Meneses alcançou o posto de coronel” (MENESES, Siqueira *militar; junta gov. SE 1889; pres. SE 1911-1914; sen. SE 1915-1923. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MENESES,%20Siqueira.pdf. Acessado em 21 de junho de 2020).

10  Disponível em http://josecalasans.com/downloads/artigos/03.pdf. Acessado em 21 de junho de 2020.

Para melhor compreender a importância de Siqueira de Meneses, indicamos a leitura, entre outros, desse artigo e de uma participação de José Calasans na mesa redonda reproduzida em livro, com organização de Walnice Nogueira Galvão, sob o título Euclidianos e conselheiristas: um quarteto de notáveis. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2009, p.22-26.

11  https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/18980119-7003-nac-0001-999-1-not/tela/fullscreen. Acessado em 22 de junho de 2020.

12  Veja-se o que relata Carmem Cecília Trovatto Maschietto, em “A Ponte de Euclides”: “Este [Montmorency], enquanto administrava os trabalhos de construção da ponte, assumiu também todas as iniciativas necessárias para a construção de uma usina hidrelétrica na cidade, financiada por um grupo de empresários do lugar, do qual o engenheiro era participante majoritário. A ponte de Montmorency e a luz elétrica foram inauguradas solenemente na tarde de 19 de dezembro de 1897, com muita festa, conforme ata da Câmara Municipal. Cinquenta dias depois a ponte tombou” (in Cultura Euclidiana. Ano do centenário, 1909-2009. 97ª Semana Euclidiana ‒ São José do Rio Pardo – SP - outubro 2009 – Edição 1, p.12. O centenário da morte de Euclides da Cunha.

13  “O epistolário ativo de Euclides da Cunha, graças ao trabalho meritório dos euclidianistas, não para de crescer. Estão sempre a surgir cartas inéditas reveladoras de um homem de múltiplos correspondentes. A maioria delas, encontradas nas últimas décadas, apesar de pouco acrescentar ao que já se conhecia de sua vida, ajuda a acompanhar as angústias e inquietações existenciais do escritor, cuidadoso com as leituras e o processo de escrita. Na edição Afrânio Coutinho, o epistolário reunia 191 cartas; na de Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti, de 1997, 397 cartas. Para esta edição do centenário, ampliamos esse material com mais 22 cartas, inéditas em livro, totalizando agora a sua correspondência em 419 cartas” (CUNHA, 2009, v. I, p. XIX).

14  Muitas das informações apresentadas, daqui em diante, neste artigo, podem ser encontradas, com variantes, em FRANCHI, Célia Mariana; TOLEDO, Marleine Paula Marcondes e Ferreira de; FACIOLI, Valentim. Euclides da Cunha em três dimensões. São Paulo: Nankin,2012, p. 26-35. Também em Cultura Euclidiana. Ano do centenário, 1909-2009. 97ª Semana Euclidiana ‒ São José do Rio Pardo – SP - outubro 2009 – Edição 1, p. 8-11. O centenário da morte de Euclides da Cunha.

15  nº 68 a nº 81 da coleção GALVÃO e GALOTTI.

16  Reinaldo Porchat (1868-1953), advogado e político paulista, colega de redação de O Estado de São Paulo (Cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 24).

17  Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1918), escritor mineiro, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de Pelo sertão e de Os jagunços, romance sobre a guerra de Canudos publicado com o pseudônimo de Olívio de Barros. (Cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 19).

18  Observa Foot Hardman: “A obra de Irmão, promotor que atuou na cidade, foi escrita com o intuito de contestar a apregoada militância socialista de Euclides em São José do Rio Pardo, durante sua estadia ali, entre 1898 e 1901” (HARDMAN, Francisco Foot. A vingança da Hileia – Euclides da Cunha, a Amazônia e a literatura moderna. São Paulo: Editora UNESP, 2009. [ISBN: 978-85-7139-970-9 (Capítulo 9: “O 1900 de Euclides e Escobar: afinidades socialistas”, p.151) Citação disponibilizada também em https://books.google.com.br/books?id=826aY1ProxYC&pg=PA151&lpg=PA151&dq=Jos%C3%A9+Aleixo+Irm%C3%A3o,+livro+%E2%80%98Euclides+e+o+Socialismo%E2%80%99&source=bl&ots=4tK8BBpP4j&sig=ACfU3U07YPqkRy4EnpwRI-YzioqLzz85ew&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwiy5p_R7J_qAhW2H7kGHatIA34Q6AEwD3oECAsQAQ#v=onepage&q=Jos%C3%A9%20Aleixo%20Irm%C3%A3o%2C%20livro%20%E2%80%98Euclides%20e%20o%20Socialismo%E2%80%99&f=false. Acessado e 26 de junho de 2020.

19  DEL GUERRA, Rodolfo José, Op. cit., p.8.

20  Para mais informações sobre o assunto “Euclides e os amigos conquistados em São José do Rio Pardo”, consultar, entre outros, ANDRADE, Olímpio de Sousa, História e interpretação de “Os Sertões”, p. 159-175.

21  Cf. GALVÃO e GALOTTI, Op. cit., p. 115.

22  Pedro de Aquino, médico, do grupo de amigos de São José do Rio Pardo. Cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 24.

23  Orville Derby (1851-1915), geólogo e geógrafo estadunidense, que por muitos anos esteve a serviço do Brasil e no Brasil. Escreveu mais de 150 trabalhos históricos e geográficos sobre o Brasil. Cf. “Dicionário euclidiano”, in CUNHA, 1995, v. II, p. 778.

24  Ernest Renan (1823-1892), acadêmico, sábio, filólogo e historiador francês, exegeta erudito e audacioso, norteado por ideal científico e racionalista. Escreveu Origens do Cristianismo. Cf. Dicionário Prático Ilustrado, tomo III, História e Geografia. Porto: Lello e Irmão Editores, 1962, verbete “Renan”.

25  Respectivamente, p. 805, 837, 842, 842, 855, 873, 912. Alexandre de Abonótico era um vidente charlatão. Com exceção dos montanistas, os demais grupos citados são sectários de heresias gnósticas, isto é, sincréticas, mistéricas e iniciáticas, dos séculos II e III. Os adamitas iam para o culto nus, os ofiólatras eram adoradores de serpentes, os maniqueus eram dualistas, os encratitas condenavam o casamento, os discípulos de Marcos corrompiam mulheres em cópulas iniciáticas, a pretexto de dar-lhes o dom da profecia. EmRENAN, Ernest. Histoire des Origines Du Christianisme, qui comprend le règne de Marc- Auréle (161-180). Livre septième: Marc Aurèle et la Fin du Monde Antique. Édition établie et presentée par Laudice Rétat .Paris:Calmann Lévy, Éditeur, 1882. [ Disponível também em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k61281833/f678.image.texteImage. Acessado em 19 de junho de 2020].

26 Montano, na Frígia do século II, inaugurou uma heresia que privilegiava o profetismo espontâneo em detrimento da hierarquia; seus seguidores chegaram a identificá-lo com o Paráclito prometido por Cristo. Sua doutrina era rigorista e milenarista. Cf. RENAN, 1882, p. 873 e segs.

27  Bispo dissidente que se converteu a Montano. Cf. RENAN, Ernest, 1882, p. 878-879.

 28Thémison déclarait que l’Église catholique avait perdu toute sa gloire et obéissait à Satan” (RENAN, 1882, p. 879).

29 1882,p. 889: cette crainte exagérée de la beauté, [...] ces interdictions contre la toilette des femmes et sourtout contre les artifices de leurs cheveux [...] Le démon des cheveux se charge de la punir.

30 ... le prochain jugement de Dieu, la punition des persécuteurs, la destruction du monde profane, le règne de milleans et sés délices (RENAN, 1882, p. 876).

31 Chacun supputait les dèlices qu’il goûterait dans ce séjour céleste, en compensation des sacrifices qu’il avait faits ici-bas (RENAN, 1882, p. 884).

32  “Montano nem mesmo se dava ao trabalho de proibir um ato que se tornara absolutamente insignificante, do momento em que a humanidade estava em sua última noite. A porta estava também aberta ao deboche” (CUNHA, 1978, p. 145-146; cf. RENAN, 1882, p. 876). Euclides indica a p. 215 na citação que faz do Marc-Aurèle, no rodapé.

33 Pethion de Villar (1870-1924), pseudônimo literário de Egas Moniz Barreto de Aragão, médico e escritor baiano que Euclides conheceu em Salvador, a caminho de Canudos. (Cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 24).

34  Júlio Mesquita (1862-1916), diretor do jornal O Estado de S. Paulo. Cf. GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 22.

35  Alberto Sarmento (1864-1927), advogado, político e jornalista paulista, professor no Ginásio de Campinas. (Cf. GALVÃO; GALOTTI. 1997, p. 20).

36 “A Ponte de Euclides”.In:Cultura Euclidiana. Ano do centenário, 1909-2009. 97ª Semana Euclidiana - São José do Rio Pardo – SP - outubro 2009 – Edição 1, p. 12-13. O centenário da morte de Euclides da Cunha.

37  “A Ponte de Euclides”, p.13.

38  Salmo 126 (125). In Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Editora Paulus, 2.000.





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